Entenda o porquê que o Transtorno Obsessivo Compulsivo é um mal que afeta cada vez mais a sociedade e como ele pode ser tratado

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Helena B Lorga 

 

                                                                Fonte: Valor do Conhecimento

“Eu estava andando de bicicleta na Lagoa Rodrigo Freitas, parei e senti um medo terrível, incontrolável, e pensei que fosse pânico. Mas eu tinha um comando, era refém de uma voz que dizia ‘só sou sair daqui depois de passarem três pessoas vestindo camiseta amarela’. Logo em seguida vieram outras manias. É uma tortura porque é uma doença sem lógica”, disse a ex-paquita Luciana Vendramini no programa “Luciana by Night”, de Luciana Gimenez, da Rede TV. A atriz também revelou que chegou a ficar 26 horas embaixo de um fio de alta-tensão e que seus banhos eram muito longos, por volta de dez horas.
O que Luciana Vendramini passou é doença mental chamada de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), que a cometeu quando ela tinha 26 anos. Hoje, aos 46, depois de ter feito tratamento com remédios e terapia psicológica, afirma estar curada.

O TOC não só atingiu Luciana, mas milhões de pessoas no mundo todo também sofrem com isso. Segundo uma pesquisa feita pelos alunos de Enfermagem, da Universidade Federal de São João Del-Rei, de Minas Gerais, no ano de 2011, afirma-se que ele é o quarto transtorno mais frequente do mundo, e nos Estados Unidos é o mais comum depois de fobias, abuso de drogas e depressão. O gráfico abaixo ilustra isso:

Fonte: Pesquisa da USFJ

O Transtorno Obsessivo Compulsivo é um problema psicológico, que se inicia com o medo e a ansiedade, e depois ocorre obsessões e compulsões. Obsessões são ideias, pensamentos, imagens ou impulsos repetitivos e persistentes, como medo de algo terrível, preocupação com simetria, com sujeira, enfim. Compulsões são comportamentos repetitivos ou atos mentais que visam diminuir o nervosismo, por exemplo: lavar várias vezes as mãos, repetir sempre a mesma coisa, verificar as portas muitas vezes, colecionismo, etc.
Os sintomas não só atrapalham a vida do indivíduo, mas também de sua família. As consequências mais comuns são a diminuição da autoestima e do bem-estar, dificuldade nas relações, na vida profissional e estudantil e menor capacidade para apreciar atividades de lazer. O conflito que gera nos familiares é eles terem de se acostumar aos rituais e solicitações bizarras do paciente, o que pode gerar desde sentimentos de compaixão até raiva.
No mesmo estudo feito pela UFSJ, a pesquisa feita com os pacientes da clínica da instituição aponta que pessoas do sexo feminino e com faixa etária de 41 a 50 anos são as maiores vítimas dessa doença, conforme mostra a tabela a seguir:

Fonte: Pesquisa da USFJ

Os pesquisadores explicam que há a predominância do sexo feminino, pois os fatores como genética, hormônios sexuais e a maior procura das mulheres pelo atendimento médico contribuem para isso.
A faixa etária dos 41 a 50 anos é por causa do estilo de vida urbano e agitado, e a frustração com a rotina de trabalho (isso se deve a concorrência atual com os jovens, que são mais adaptados às novas tecnologias. Antes não tinha esse problema). Há também uma alta faixa de pessoas acima dos 70 anos que sofrem desse mal, e eles afirmam que isso se deve ao fato de terem uma vida mais tranquila e, em outros casos, acharem que o TOC é normal na velhice, o que é um erro.
O estudo também aponta que o SUS é de maior importância, pois ele é o que mais financia os tratamentos. Assim, reforçam a necessidade da Lei 10.216 da Reforma Psiquiátrica (Aprovada em 06/04/01, no governo do FHC, ela garante o acesso ao atendimento e tratamento da saúde mental), que é referência para a assistência da saúde mental.
Para entender mais sobre a doença, confira abaixo a entrevista com a Profa. Dra. Ana Laura Schliemann, que é Assistente do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da PUC-SP:

 

1) Por que surge o TOC? Qual a sua causa?
O TOC é um distúrbio psiquiátrico comum, crônico e persistente. É considerado um transtorno mental grave. Sua causa são obsessões e compulsões.
Obsessões são pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes que causam mal estar na pessoa que as possui e as compulsões são comportamentos repetitivos ou atos mentais.

2) Como a pessoa pode identificar que está com TOC e qual o profissional de saúde é adequado para ela recorrer em primeiro lugar (clínico geral, homeopata, psiquiatra, enfim)?
O TOC tem por sintomas mudanças no comportamento, tais como rituais ou compulsões, repetições, evitar tais situações, problemas no pensamento que geram preocupações excessivas, dúvidas, pensamentos de conteúdo impróprio (obsessões) e das emoções (medo, desconforto, aflição, culpa, depressão). O medo é um dos maiores sinais que aparecem no TOC e, via de regra, muitos deles produzidos pelos pensamentos obsessivos e que não estão na realidade. O primeiro a ser procurado deve ser um profissional de saúde mental, psiquiatra ou psicólogo.

3) Se o TOC não for tratado, o que pode ocorrer? O que pode acontecer com o forte agravamento da situação?
Essa pessoa vai aos poucos perdendo a condição de conviver em sociedade e de estabelecer relações afetivas e emocionais saudáveis. Quanto mais uma situação dessas se agrava, mais a pessoa irá ficar sozinha e pode, além de agravar a doença que tem, desenvolver condições para outras doenças graves, emocionais ou físicas.

4) Estar em uma trabalho estressante pode desencadear ou aumentar o TOC? Nesse caso, o que ela deveria fazer para melhorar a saúde?
Eu não me sinto confortável para te dizer se aumenta ou não, porque vejo que a má relação afetiva consigo mesmo e com a vida aumenta o desespero e a falta de condições para viver a vida. Um trabalho estressante é um dos componentes que pode prejudicar ainda mais a pessoa que tem TOC, porque irão aumentar as condições para controle e medos. A pessoa, depois de procurar ajuda terapêutica, deve fazer exercícios físicos, melhorar a alimentação, entre outras situações que diminuem a ansiedade.

5) Quais são as medidas que a pessoa deve tomar para se curar do TOC?
Primeiro procurar um profissional que irá ajudá-la a encontrar o melhor tratamento. A doença tem características próprias, mas o doente é único e singular e por isso não temos como padronizar tratamentos ou medidas grupais.

Além da Doutora Ana Laura, os pesquisadores da UFSJ também comentam que se deve procurar atendimento médico o mais breve possível, a fim de evitar o seu agravamento, que medicamentos antiobsessivos (com prescrição médica) e terapia psicológica (ERP e TCC são as mais indicadas) são tratamentos de “primeira linha”, e que apoio é fundamental, principalmente da família, que muitas vezes é a que inicialmente detecta e encaminha o paciente ao médico. Mudanças no estilo de vida também são fundamentais.
TOC não é frescura, e sim uma doença mental. A sociedade precisa se conscientizar disso e investir em seu tratamento. *

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