Cores, cordas e tambores: os novos instrumentos da educação

Texto por Daniel Yazbek, Giovanna Cicerelli e Júlia Mesquita

Vídeo e foto por Júlia Mesquita

A escola Antônio Alves Cruz seria fechada em 2001 por falta de alunos, até que nasceu projeto “cores, cordas e tambores” e revolucionou a forma de educar. A escola  pública Alves Cruz, fundada em 1964, era uma escola diferente das demais por ser considerada “livre”- havia uma cultura artística e musical muito expressiva em meio a um dos momentos mais críticos da história política do Brasil: a ditadura militar.

Apesar da censura, o ensino tinha muita qualidade e, dentro da instituição, existia um espaço para que os alunos pudessem se expressar, o que não acontecia nas demais escolas, tanto é que saíram da “Alves Cruz”  alguns cineastas, fotógrafos, atores e o grupos musicais como “Rumo” e “A Palavra Cantada”.

Segundo o ex-diretor da escola na época, Ary de Rezende, a maioria dos professores eram contra a ditadura e o mesmo chegou a ser afastado da direção por não aceitar determinadas condutas, como o caso da professora Elaine Maria Rebaldo, que perdeu seu marido assassinado no Chile e depois foi dado como desaparecido. Somente depois de vinte anos, a família ficou sabendo o que de fato tinha ocorrido.

No fim da ditadura militar, muitos professores da escola pública começaram a migrar para as escolas particulares e os alunos começaram a migrar também, o que fez com que a escola “Alves Cruz” perdesse muitos alunos e, em 2001, o colégio ficou com seis salas de aula no período da manhã e duas durante a noite, o que a ameaçou de fechamento.  Isso chegou nos ouvidos dos ex-alunos e eles juntos com alguns alunos na época se uniram para especialmente criar uma associação e evitar o fechamento.

A primeira iniciativa foi criar um fórum, para realmente ver o que a escola precisava e os integrantes chegaram a conclusão de que seria importante ocupar a escola nos finais de semana para não perder sua história de luta e resistência. Os integrantes do Fórum, criaram a ONG Fênix, com o intuito de, como os mesmos falam, “colocar a boca no trombone”, pois tinham uma escola pública prestes a ser fechada e isso não podia ser aceitável, ou seja, deixar que tirassem mais um espaço conquistado para promover a educação aos que mais necessitam.

A ONG Fênix começou a buscar patrocinadores para manter oficinas de vela, fotografia, teatro e música. Hoje, as únicas que sobrevivem são as aulas de instrumentos musicais depois das aulas normais e as aulas de japonês [aos domingos de manhã. O projeto batizado de “Calo na Mão”, tornou-se referência no ensino de maracatu, com oficinas aos sábados e domingos a partir das 14h. Os ensaios do “Bloco de Pedra”, que antecede a oficina de abertura, estão abertos para qualquer pessoa que queira tocar os instrumentos. O projeto, que reúne em média 400 pessoas nas apresentações busca incentivá-las a ter um primeiro contato com o maracatu.

O projeto “Calo na Mão” toca maracatu de baque virado, conhecido em Recife também como maracatu nação. Historicamente, o maracatu começa a aparecer em 1850, mais como os rituais de reis negros com batuque, desfile de nobres. Hoje, esse modelo é mais visto em Pernambuco. Essa cultura que nasce das senzalas é uma cultura que, antes de qualquer coisa, é de resistência, isto porque houve a troca culturas dos escravos vindos de diferentes partes do continente africano que quando chegavam no Brasil, criavam uma espécie de identidade nova.

O “Bloco de Pedra” se denomina como grupo – não como nação – o que não faz deles menos fiéis ao maracatu de Pernambuco, que tem as cortes e os personagens. Na verdade, o grupo pega algumas particularidades de certas nações e faz uma adaptação com a sua cara. O mais importante no maracatu é o mestre de batuque, porque é ele que vai realmente comandar todos os instrumentos: alfaia, gonguê, caixa, age, mineiro e o atabaque, além de ajudar a rainha a gerenciar.

Cada baque tem o seu suingue, há uma célula rítmica que é a base do maracatu e, por isso, se faz presente em todos os baques, independentemente da nação, porque é esse trabalho, essa relação que vai caracterizar aquele grupo como uma espécie de maracatu. Nos anos 1980, o maracatu começou a ser revigorado, por conta, do movimento “Mangue Beat” – com Chico Science & Nação Zumbi – que deu mais visibilidade para a cultura popular, até por isso que pode ser visto influências de maracatu em algumas músicas de hip-hop.

 

Fonte: Vídeo feito com Iphone de Júlia Mesquita/ Bloco de Pedra durante oficina aberta.

Leave a Reply