Temas ganharam destaque na 39ª Semana do Jornalismo, realizada pela Puc-SP 

Por João Pedro Freitas

O auditório 117A do Campus Perdizes recebeu no dia 26 de outubro, a palestra sobre Futebol, Cultura e Fanatismo na América Latina. A mesa foi composta pelos convidados José Paulo Florenzano, professor de Ciências Sociais da PUC- Perdizes, Bernardo Buarque de Hollanda, especialista em torcida organizada e Lu Castro, colunista de futebol e teve como mediador Edney Mota, autor do livro Contra-Ataque. A palestra começou com Bernardo Buarque, doutor em História pela Puc-RJ, professor de Ciências Sociais na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e especialista em torcidas organizadas pela Universidade Francesa Maison des Sciences de l’homme. Ele falou sobre as torcidas latino-americanas e os seus modos de torcer e surpreendeu ao afirmar que o jeito argentino de se torcer está cada vez mais presente nas arquibancadas brasileiras. 

Segundo Hollanda, existem três matrizes de torcida: O hooliganismo que tem como característica o fanatismo dos torcedores, tem predominância na Inglaterra, no Norte e Leste Europeu. Porém mesmo que em menores quantidades os hooligans estão espalhados por todos os lugares do mundo, são fãs fanáticos, que agridem jogadores em caso de derrota ou até mesmo os ameaçam de morte, depredam o patrimônio do clube e vão aos estádios para brigar com a torcida adversária. Os ultras, que são torcidas pacíficas as quais cantam, fazem mosaicos, estilo predominante no sul da Europa, em países como a Itália, Portugal e Espanha. E o estilo argentino de torcer, torcidas atrás dos gols, caldeirões. Espalhou-se pelo Brasil e em muitos países da América do Sul. O cântico das torcidas cariocas está mudando por exemplo, passou de funk e ritmos carnavalescos para uma argentinização das arquibancadas. De acordo com o palestrante, três zonas culturais geográficas estão herdando cantos argentinos além do Brasil, a cultura do Rio da Prata , a cultura dos países andinos e a cultura centro-americana. 

O doutor em História pela Puc-RJ também falou a respeito das torcidas organizadas:”Elas são espécies de esponjas, pois absorvem os pontos bons e ruins da sociedade. São multifacetas e muitas vezes vistas como gangues”. Ele afirmou que a violência das torcidas organizadas está amplamente ligada à impunidade. Um caso lamentável citado por ele foi o duelo válido pela Libertadores de 2013 entre San José e Corinthians em Oruro, quando um membro da Gaviões da Fiel lançou um sinalizador e matou o torcedor da equipe boliviana, Kevin Spada, de 15 anos. Doze corintianos suspeitos foram presos, também não foi verificada a veracidade das investigações, e o responsável pelo lançamento escapou impune. Hollanda destaca que “o estatuto do torcedor age errado ao não preconizar a prevenção no combate a violência das organizadas”.  

A mesma opinião foi ratificada pelo professor José Paulo Florenzano, professor de Ciências Sociais na PUC- Perdizes. E ele foi além ao enfatizar que os fanáticos são personagens nitidamente extremistas, possuem comportamento exaltado. “O fanático está presente na religião, política e no futebol, possui uma personalidade híbrida. O fanatismo é temporário, apenas em uma fase da vida do torcedor”. 

Na década de 70 por exemplo, a violência contra os jogadores de futebol ficou mais intensa, com a criação das torcidas organizadas e facções organizadas dos clubes de futebol. Com isso, as ações violentas se estenderam dos estádios para os centros de treinamento e aeroportos que recebem os atletas. 

Um episódio marcante nesse contexto foi quando uma torcida organizada do Corinthians ameaçou o zagueiro Amaral e Sócrates no estacionamento do Pacaembu após a derrota do time para o XV de Piracicaba.  Criou-se a cultura da obrigação na qual a derrota torna-se inaceitável e mesmo que a equipe seja eliminada de qualquer competição terá que vencer o jogo posterior ou a pressão e protestos serão cada vez maiores.  

Porém Florenzano vê a derrota como algo normal em qualquer esporte e citou três exemplos de seleções que não foram campeãs mundiais e no entanto ficaram mais marcadas na história que as vencedoras: o Brasil de 1950, lembrado por ser a geração fracassada, sendo mais recordado que o próprio campeão mundial daquele ano, o Uruguai; a Holanda de 1974, ficou conhecida como a laranja mecânica e é mais relembrada que a campeã Alemanha e o Brasil de 1982, pelo futebol arte apresentado ficou mais marcado na história do que a campeã Itália. 

O professor da PUC também destacou que o futebol latino-americano tem como característica a virilidade e a raça. Em campeonatos como a Libertadores, equipes sul-americanas cometem muitas faltas e jogam um futebol agressivo. Ele citou como exemplo, o Palmeiras ter contratado o volante Felipe Melo, que veio para ser o “cão de guarda” do time no torneio continental. Logo em sua apresentação o jogador prometeu “dar tapa na cara de uruguaio caso fosse necessário”. Fato que acabou ocorrendo após o término da partida entre Peñarol e Palmeiras válida pela fase de grupos da Libertadores da América. 

Para finalizar, Lu Castro, colaboradora da coluna Arquibancada do Portal Vermelho e da Arquibancada do Ludopédio falou sobre as dificuldades enfrentadas pelo futebol feminino no Brasil. Ela fez duras críticas às condições precárias que os clubes brasileiros mantêm suas equipes femininas de futebol- “O grande problema do futebol feminino no Brasil é os clubes somente estarem interessados em divulgar a marca e colocarem a camisa nas meninas, sem dar a estrutura e apoio necessários”. Lu também criticou a elitização das arenas e a Confederação Brasileira de Futebol por conta dos jogos das 22 horas, atrelando o baixo público presente nos estádios ao horário dos jogos e altos preços dos ingressos. 

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