“Cada plantão equivale a um fator de stress pós-traumático…”

Delegada há 5 anos no 91º Distrito Policial - CEAGESP, Bruna Fanny Oliveira Lemos,31 anos, revela fatos pessoais sobre a profissão, defende o espaço da mulher na sociedade e critica a falta de suporte do Governo com a segurança pública.

Por Carolina Faita e Giovanna Pereira

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Localizado na Vila Leopoldina, o 91° Distrito Policial responde pela 3a Delegacia Seccional Oeste do CPJ (Central de Polícia Judiciaria), assim atua pelas delegacias da região que fecham no turno da noite. Apesar de trabalharem 24 horas por dia a sua extensão se encontra insegura, o público relata a delegacia como de “enfeite”, diversas situações como assaltos na região e a autoridade não faz nada. Segue a entrevista feita no dia 1° de setembro com a Delgada Bruna Fanny:

Quais são suas principais funções como delegada?
R: Nós como delegados, todas as ocorrências que acontecem quando estamos de plantão naquela circunscrição tomamos conhecimentos e as medidas necessárias, o principal é tomar medidas investigativas dentro dos crimes ou então até atos que possam ou não ser criminosos, mas que tem interesse para o Direito daquela região. Então, por exemplo, ocorre um óbito naquela região e não tem ninguém para atestar, nos comunicam, ou um acidente de transito para ver se tem ou não algum indicio criminoso, ou se foi um mero infração de transito e se entrou em crime de transito, as vezes perturbação de sossego, então assim até as coisas mais simples até as mais complexas, o papel da Policia Civil em si, por que as vezes as pessoas não sabem a diferença entre Civil e a Militar, a Policia Civil é uma policia investigativa que atua depois que o crime acontece, recolhe os meios de investigação e elementos para um processo para Policia Militar não, ela trabalha na rua, ela evita que o crime aconteça, então por isso que quando acontece alguma coisa geralmente ligam para a PM ou então quando querem uma visibilidade maior da policia é a PM que vai para a rua, a civil é muito mais jurídico, e é isso que acontece quando os PM estão na rua e trazem para a gente , sou Delegada Plantonista, para fazer uma analise jurídica pra ver se houve crimes ou não houve, as vezes eles entendem que tem alguma coisa mas tem que passar por esse filtro jurídico e o primeiro filtro é o delegado e a Policia.

 

Quanto tempo durou o processo para se tornar Delegada?

R: A prova do concurso em si é uma das mais longas, são em torno de 5 fases, passei mais ou menos 1 ano fazendo prova de concurso. Nós temos a 1a Fase que é a objetiva, depois os selecionados vão para a 2a que é dissertativa, já a 3a que é a fase oral, tem a 4a prova física e por ultimo o psicotécnico. Depois disso é aprovada no concurso, mas você ainda não se torna Delegada, por que tem o curso de formação que geralmente varia, o meu foi em torno de 4 meses, que é na USP na ACADEPOL (Academia de Polícia) tem cursos que duram 8 meses, porem o meu foi mais intensivo por isso 4 meses, e depois disso você começa a atuar como Delegada. Porem agora é necessária experiência jurídica também, 2 anos.

 

Qual o maior problema no exercício da sua profissão?

R: Sinceramente, eu acho que é a falta de infraestrutura dentro da instituição, viatura defasada, número de funcionários abaixo, a infraestrutura como um todo, as vezes a gente não tem material básico para atender as vítimas, as vezes nós trabalhamos fazendo B.O, prisão em flagrante, as vezes falta papel, falta toner, então como é que faz? Acho que o principal problema é a infraestrutura e o número dos funcionários que simplesmente não tem! Não tem! É uma defasagem muito grande…

 

Você acha que esse número diminuiu por conta de salário ou por conta de dificuldade de entrar?

R: Salário, falta de garantias, o número de reajustes é realmente muito baixo, é falta de apoio do Governo investir mais na Segurança Pública como um todo.

 

Como é seu dia a dia?

R: É bem corrido. Por exemplo, no meu Plantão são de 12 horas, que acontecem de tudo, não se consegue descansar, não tem uma rotina para seguir, as vezes tem hora que tudo que tinha para dar errado deu e então as ocorrências chegam todas de uma vez. É diferente você ir para um Juiz onde a audiência é em tal horário, aqui já recebo notícia de assalto, chega outra vítima que foi roubada, seja alguém dizendo que quer fazer um B.O porque sofreu um acidente, chega preso, procurado. Então as vezes quando acontece um de cada vez é razoável, mas a tendência é que cheguem tudo em um bolo só, então é bem corrido, tem noite que pode ser mais tranquila.

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Pelo fato de você ser Delegada do 91O DP – CEAGESP, como ele funciona?

R: Trabalhamos com 3 delegados durante o dia para tocar os cartórios; e 5 delegados á noite para tocar os plantões noturnos e de fim de semana, esses são os que eu me incluo. Os 5 fazem parte de uma CPJ (Central de Polícia Judiciária) que responde enquanto as outras delegacias estão fechadas, durante o dia cada delegacia responde por sua área. Eu trabalho por 4 delegados, eu respondo por 4 delegacias no plantão noturno. O papel de cada delegado em seu plantão deve ter 2 escrivães, no meu caso deveria ter 8, porem eu só tenho 2 para responder por uma área gigantesca, por isso que a infraestrutura fica assim cada vez mais defasada.

 

Como que é o perfil das pessoas que frequentam o seu DP?

R: É variado. Os DP têm a característica do seu bairro. Quando eu pego um plantão na CPJ é bem variado, pois pego Perdizes que é um bairro relativamente de classe “legal”, porem também pego algumas favelas.

 

Como que o Governo trata a Polícia Civil?

R: Bom, já tem tempo que nós não estamos recebendo reajustes salariais, tem garantias que não passadas, por exemplo, em outras carreiras jurídicas, qualquer outra área, quanto mais você se especializar isso vai se repercutir, na Polícia não, você vai receber como quem nem se quer fez nenhuma especialização. Então, reajustes, a insalubridade é alta, o nível de stress em que a gente atua é altíssimo! Entende? Quando nós estávamos em curso vimos que em cada plantão equivale a um fator de stress pós-traumático e você leva em torno de 3 meses para se recuperar, só que a gente não para, é um plantão atrás do outro…. Se tem um número reduzido de funcionários você acaba fazendo mais plantões do que o seu corpo aguenta, e assim isso tudo reflete! Então o número de funcionários extremamente abalados é alto! Com isso começa a ter afastamentos e licença saúde…. Essa falta de suporte do Governo se repercute muito, por que não é só a questão do salário em si, o número de exonerações é muito alto, assim acaba defasando ainda mais o número de funcionários.

 

Ao longo dos anos o espaço da mulher na sociedade vem crescendo cada vez mais. O que aconselharia á aquelas conhecidas como o “sexo frágil”?

R: Acho que as mulheres têm que assumir seus papeis na vida pessoal e na sociedade. Elas não precisam mais se sujeitar a qualquer coisa, se sentirem culpadas, tem uma liberdade muito mais para agir de acordo com que elas querem, então o principal é não se limitar! A mulher não precisa estar sujeita a limites que ela não queira.

 

Você acha que ainda há preconceito em relação a determinados cargos serem considerados para homens?

R: Genericamente, tem um preconceito sim! Um preconceito camuflado!  Ele atua mais na observância de “será que consegue”? Não é tanto um obstáculo, acho que você como mulher muitas vezes quando lida com preconceito tem que mostrar ainda mais a sua força, mais competência do que o homem teria que mostrar. Eu vejo esse preconceito em várias áreas sim, mas é como eu estava falando é questão da limitação, se a mulher não se impor nenhum limite, se ela mostrar que é capaz vai conquistar muito mais respeito e vai ter seu espaço garantido.

 

Você sofre ou já sofreu assédios como mulher nessa profissão?

R: Não. Teve uma situação que talvez fosse acontecer algum assédio, mas pela postura que eu adoto, nunca abri espaço para ninguém. Trabalho com 95% de homens, e todos me tratam com respeito, da policia ao ladrão. O que já passou muitas vezes foi, que o pessoal não está muito acostumado, quando eu converso com a pessoa e ela me diz: “Será que eu não consigo falar com o Delegado? ” E eu respondo: “Não, eu sou a Delegada”.

 

Por fim, quais foram os casos que mais lhe marcaram com essa profissão?

R: Tiveram vários. Mas dois casos me marcaram muito, um suicídio de um adolescente (14) e a morte de uma criança (9). O primeiro, eu que tive que fazer todo o local do crime, ver de fato se era suicídio ou não, ele tinha pulado de um apartamento. Foi bem difícil, a família estava bem abalada, então tive que ser profissional, porem também tenho um lado humano, foi o meu primeiro caso de suicídio. O segundo caso, uma morte suspeita que fiz de uma menina. Mexeu muito comigo, mas sempre tem vários casos, pelo menos todo mês tem um mais peculiar, do emocional que abale até como fatos engraçados. Acontece tudo num plantão.

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