Por Giulia Avventurato Matos

Doutorando em História na Universidade de São Paulo, Michel Gomes da Rocha é entrevistado pela AGMT sobre a atual importância e ressignificação dos monumentos. Tendo em vista a repercussão das manifestações em torno da retirada da estátua de Robert E. Lee, lider dos confederados, em Charlottesville (EUA), Michel explica essa reação contextualizando o passado dos negros na sociedade norte americana. Marcada pela distinção racial, a lógica capitalista mercantil permitiu durante a escravidão que a mão de obra negra exportada da África fosse vista como uma ferramenta para, no futuro, se tornar uma subclasse de cidadãos.

“Nos EUA, a discussão sobre os limites da escravidão se acirra na década de 1860, no séc. XIX; durante a Guerra de Secessão (1861 a 1865) no governo de Abraham Lincoln.” Tendo em vista o federalismo dos Estados que compunham o país, os confederados decidem se separar dos Estados no norte. Com o objetivo de validar o fim da escravidão, décima terceira emenda à constituição é promulgada em 1863. Entre o embate Norte-Sul que ocorre durante a guerra, se perpetua quando os sulistas dependentes da mão de obra escrava usam de medidas que negam os direitos dos negros, para manter a hierarquia racial com sua supremacia branca. Após isso, a promulgação da 14 emenda tem como objetivo alargar a cidadania para todos os nascidos no país, mas os sulistas se mostram insistentes em encontrar brechas para manter essa hierarquia.

Tendo em vista esse passado histórico, Michel comenta que os monumentos têm o objetivo de relembrar o contexto e também ser didático mostrando qual era a visão de história de uma geração ao construir monumentos. Para ele, o movimento de retirada desses marcos históricos como em Charlottesville gera um “amplo debate sobre a validade de alguns monumentos como instrutivos, ou como locais que propagam o sofrimento do passado, e que os homenageados não necessariamente deveriam ser lembrados como heróis.”

A seguir, entrevista completa de Michel Gomes da Rocha.

Até que ponto a retirada dos monumentos pode ser vista como um ato de censura e/ou negação do passado histórico?

É um debate que precisa ser amplamente discutido na sociedade, ao meu ver. Vejo a retirada como válida, uma vez que se tem uma sociedade que se apresenta como progressista, e findou as discriminações raciais dentro de determinado discurso, mas hesita em mostrar isso em suas práticas. É justificável a retirada a partir do momento que uma parcela da sociedade não se identifica com o monumento que pode se perpetuar dentro de um contexto histórico, enquanto local de memória e caráter educativo para as novas gerações. Grupos de interesse da sociedade podem identificar a retirada de monumentos como censura ou mesmo negação do passado histórico, é daí a necessidade de uma ampla discussão, bem como deliberações do que é importante e representativo para este povo, dentro de um debate democrático que dê espaço para as distintas agendas.

Antigamente, os monumentos eram vistos apenas como arte e representação histórica, junção entre acontecimentos marcantes e arquitetura. Agora, no mundo contemporâneo, as obras são vistas como aquelas que carregam o passado muitas vezes racista e excludente, representadas por grupos ou pessoas icônicas do movimento. Como essa mudança do pensamento social aconteceu e por quê?

Acontece quando se tem uma demanda de diversas minorias que se organizam e produzem uma agenda onde se colocam no contexto, quando estes foram apagados das referências historiográficas; além da revisão de determinados atores homenageados. Como exemplo brasileiro, vemos o monumento aos bandeirantes e seu papel, onde determinada camada da sociedade os consideram progressistas e expansionistas na sua atuação da história nacional. Já outros grupos afetados, como os indígenas, consideram os bandeirantes opressores. Neste caso, temos um limite sobre a representatividade desses grupos indígenas dentro de uma esfera de poder, onde eles não conseguem ter muita voz como outros grupos para mostrar suas perspectivas sobre o assunto. Existem leis criadas a partir dos anos 2000 que debatem com um olhar mais crítico sobre o papel desses atores políticos no passado e sua importância histórica. Eu, por exemplo, fui criado em uma geração que vê os bandeirantes como heróis, portadores do progresso e civilização; as gerações mais novas já vão ter um contato sobre esse assunto de forma mais crítica, onde eu só tive na universidade por fazer um curso como História, além da minha preferência por algumas leituras de vertentes historiográficas.

A perspectiva artística dos monumentos não deixa de existir, mas compartilha ao mesmo tempo de uma politização dos mesmos, algo inerente á natureza da arte, e de como eles podem tanto agregar grupos como afastá-los. Nas minhas leituras, a apropriação de determinados monumentos durante eventos pode ter interpretações distintas. O caso de Charlottesville é considerado uma efervescência de movimentos negros que não se identificavam mais com o monumento. Esses fazem uma releitura dos EUA, algo que não é inédito; se tem uma militância de muito antes que trabalha na releitura historiográfica, muitas vezes fundada em mitos. Nos Estados Unidos especificamente se tem a ideia de que os fundadores do país são os migrantes vindo da Inglaterra, com a missão de formar uma nova nação e valores. A mão de obra negra levada posteriormente é excluída desta narrativa.

Pacifistas, como Martin Luther King Jr., tentam inserir o negro nessa narrativa; já por outro lado existem ativistas radicais, que desejam a identificação do negro como um africano que foi levado para o continente Americano. Essa divergência leva a impasses dentro do próprio movimento negro, e surgem líderes como Malcolm X, e a junção entre o Islã com o nacionalismo negro; todos identificavam o branco como opressor. Em torno desses movimentos por direitos civis influentes na agenda de outros grupos minoritários, como a dos homossexuais nos anos 70/80, assim como a nova onda do movimento feminista, os protestos e resistências são vistos como atos que podem agregar mais pessoas dentro das concepções discutidas. Os monumentos surgem como elementos que reafirmam muitas dessas batalhas, tanto no sentido de ressignificação atual, até no sentido educacional para com as minorias que antes não tinham o seu espaço.

O forte nacionalismo estadunidense é um dos principais fatores que mantém o país unido. Porém, brigas políticas entre republicanos e democratas geram a polarização social. Como o conflito político atual dos Estados Unidos se envolve com o discurso da retirada dos monumentos, levando em consideração o caso de Charlottesville?

Hoje, para aqueles que não tem conhecimento para com a história do país, os democratas são vistos como um partido de esquerda e os republicanos como de direita. Como são os dois partidos que apresentam maior projeção, eles conseguem se apresentar ao mundo de forma quase unanime. Entretanto, o partido republicano foi quem empreendeu o fim da escravidão, com Abraham Lincoln no século XIX a partir da 13 emenda de 1863. O Sul, com uma maior projeção do racismo e escravismo devido a cultura econômica algodoeira, era de maioria democrata. Com a virada do século e a crise de 1929, se tem um soerguimento da nação no qual o partido democrata lidera esforços, e a partir deste momento é visto como aquele que aborda temas de esquerda, como por exemplo o equilíbrio social e a divisão da riqueza. Todos os dois têm uma perspectiva nacionalista, e o partido democrata revela seus planos, como o New Deal na década de 30, e a grande sociedade do Kennedy nos anos 60. A partir do Kennedy e a continuidade do plano por Johnson, se tem a formulação do Estado de bem-estar social. Funcionou de forma significativa durante os anos de 60 e 70, mas sofre ataques em 80, quando se tem um novo ideal criado por Reagan, que apresenta um novo plano político para retirar o país da crise.

Então se tem dois partidos que aparentam ser distintos, mas de alguma forma sempre fizeram concessões para determinados movimentos sociais, no sentido de conter maiores crises. A partir do século 20, há uma maior politização da comunidade negra e a participação progressiva dos negros em eventos de guerra. A Guerra tem um caráter de ser unificador. Na virada do século, havia grande quantidade de imigrantes no país que passava pelo processo de americanização, além do negro que sofria com as leis segregacionistas (sabe-se hoje que existiam de fato planos para escoá-los para fora dos EUA. As leis segregacionistas foram um resultado da falha desse projeto). Em conjunto ao nacionalismo, a categoria negra tenta criar em seus movimentos uma identidade de resistência e orgulho, a partir de militâncias difusas que discutem qual é o papel do negro na nação.

Os eventos que acontecem agora sob a projeção do novo presidente não são tão relacionados à ele, ao meu ver. Digo que ele é um ator político que permite um maior recrudescimento de algo que já acontecia. O primeiro governo com um presidente negro, Barack Obama, fez com que a militância negra se inspirasse nele para a projeção de uma maior equidade entre raças e o sucesso desse ideal num momento pós-racial. Isso não aconteceu, já que ainda se tem um alto índice de encarceramento negro, alto índice de morte de negros por homicídios pela polícia; e principalmente, não se teve uma política específica para a comunidade negra. Isso mostrou os limites do governo Obama, e que agora no governo Trump tendem a se reproduzir de forma mais
forte. O presidente atual se mostra catastrófico com a comunicação internacional, sendo com a Coréia do Norte, proibição e extradição de cidadãos de determinados países e uma possível intervenção na Venezuela; além de seus afazeres domésticos para com a minoria. Trump se propõe muito mais a fazer cortes para reordenar a economia. O presidente atual pode ser associado sim com o que está acontecendo agora, mas é um movimento que vem de muito antes, não só no governo Obama de forma mais sucinta, mas como resultado da própria história nacional.

Um exemplo de monumento brasileiro que representa o desenvolvimento do país, entretanto às custas da morte de muitos indivíduos, é o “Monumento às Bandeiras” de Victor Brecheret. Por que não houve reações para a retirada deste monumento assim como em Charlottesville, considerando aspectos políticos e históricos de ambos os países?

Eu vi um artigo publicado no El País que fala sobre o fato de nós ainda termos uma cultura cívica quanto ao monumento, como algo educativo, de forma muito incipiente de que ele pode trazer um conhecimento sobre a sociedade. Assim, ele é visto com uma grande importância histórica, e isso gera uma apatia para com a sua retirada, além da possível identificação social ainda existente a construção. Você tem um monumento que diz respeito aos bandeirantes e aos indígenas, como principais afetados. Dentro de um discurso hierárquico, os bandeirantes traziam progresso e seriam vistos como heróis. Esse debate está em torno de toda a América; na Argentina, Sarmiento fala sobre Civilização versus barbárie, no EUA existem os mitos sobre a marcha para o Oeste. Aqui não foi diferente nesse sentido, quando esses valores se depositam sobre os bandeirantes. O problema é que não há de forma mais sólida a formação de uma contra história, o que pode se tornar uma causa para se lutar mais para frente. Hoje, ainda se tem massacres de aldeias indígenas, uma grande demanda por demarcação de terras, e em meio a tudo isso se tem a demanda para a construção de um outro local para estabelecer a memória do indígena e a ressignificação dos símbolos já existentes.

Atualmente, a sociedade vem se educando timidamente quanto as outras leituras da história, mas ainda não está unida para com um caráter crítico sobre isso, para identificar dentro de monumentos os “não-monumentos”, por não representarem aquilo que realmente aconteceu. Não se tem uma identificação da pichação como ato político no caso brasileiro, e isso é levado para o viés conservador, onde muitos são cotados como vandalistas. Eu creio que nos EUA, há uma consciência cívica muito maior sobre o papel dos monumentos e de determinadas figuras, das releituras que são necessárias para inseri-los na história novamente. A mídia participa dessa questão na forma como ela apresenta essas personalidades históricas, quando talvez ela possa ter uma identificação com os sujeitos políticos. Um dos exemplos é a polarização de pessoas em torno da modificação do nome de ruas, nomes de escolas e derrubada de monumentos. A cultura cívica incipiente sobre a politização dos monumentos, sua manutenção e a releitura da sua retirada são fatores que devem ser trabalhados no Brasil.

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