Por Matheus Lopes Quirino

Mesmo não sendo um excepcional fã de “Legião Urbana”, é inegável, o legado do artista deixou muitos enredos para Brasil tocar. A obra ainda repercute em diversas ocasiões. A arte não morre e, como trunfo da exposição, desvenda  a fama do camaleônico Renato Russo - além palco, além casa. Entre suas anotações de gaveta e os seus lápis de cor, o poeta da vida, que quebrou tabus, ousou em tempos de nova República com suas críticas e hinos da geração Coca Cola. Russo usou, abusou e reusou das adversas circunstâncias que um cosmopolita -como ele bem se enquadrava - poderia haurir de seu tempo – e de outros também.

Sobre haurir com um bom filólogo-cantante dos trópicos, soma-se à maestria do líder do Legião um vasto repertório referencial que, sem dúvida, não perde para nenhum intelectual de ponta. Renato Manfredini Júnior: jornalista, cancioneiro, trovador dos sonhos faceiros; poeta do amor e da tristeza. Angustiado sereno, sem titubear, com certeza. A exposição é tocante. Extremamente bem ambientada e dividida entre as épocas do artista. Constam-se às salas diversos cadernos, anotações, relatórios, textos, letras, odes, rabiscos, rascunhos e croquis da pluralidade de ideias que estimulavam o “Trovador solitário”. Desde boletins da escola, passando por reflexões existencialistas, redações acadêmicas, e o mais sensível clamor perante a face da vida, com aspas para o exaustivo plano da inovação, ao que concerne a repartição com o solo musical e cultural.

O Acervo

Por pertencer a uma família de classe média, Russo sempre surfou na crista da onda quando a novidade era, para si, apenas moda da primavera passada. No ambiente que conserva sua biblioteca, a sala de espelhos da exposição, é possível ver como a novidade era palatada pelo cantor quando, mesmo nos anos 1980, era custoso conseguir uma edição limitada de um “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, homônimo álbum dos Beatles.

As referências são instigantes, e é possível notar o fundamento no verso – ou um mix entre tudo, melhor assim. Formam o berço de Russo diversas vertentes do conhecimento geral, como, por exemplo, uma pitada de “Tempo perdido”, visto que o autor possuía uma coleção do Magnum Opus de Marcel Proust –“Em busca do tempo perdido”. Ademais, música caipira, os álbuns dos Beatles em edição limitada – apenas -, novelas inglesas de Jane Austen, ainda no original da Penguin Classics em inglês – Renato possuía uma proficiência notável com a língua-, Lima Barreto, Cecília Meireles, trovas da idade média, esoterismo, almanaques sobre sexualidade, revistas homoeróticas e mais um punhado de coisas... Enciclopédico Russo!

Fotos, discos, instrumentos, as roupas extravagantes e coloridas, mobília, rascunhos e diversos achados estão presentes na temática da exposição. Itens advindos da negociação do filho, Giuliano Manfredini, com André Sturm (curador), em que o Giuliano cedeu o “lote” lacrado e conservado do apartamento do pai, em Ipanema.

A trajetória da banda chega a se equiparar à introspecção trazida pelos objetos pessoais do “mini-mundo” de Russo. A temática da subjetividade sustenta uma conversa íntima com o espectador; um encanto referencial.

O trovador solitário é celebrado na maior, e mais elaborada, exposição do gênero do MIS. Com certeza, é mais que uma recomendação, é um pedido para os apreciadores da arte em geral: a visita é um passeio na introspecção de um poeta eternizado como líder do Legião Urbana. Cante junto.

OBSERVAÇÕES

Acervo impecável, curadoria idem. Organização enunciadora, porém, é imprescindível prestar atenção entre os caminhos das salas e das épocas do artista, há uma linha do tempo não tão indicadora - a priori. É primordial que haja uma ponte entre os sentidos das fases de vida do músico.  Exposição eclética que aborda as várias faces da figura cultural “Renato Russo”, seu simbolismo, e os enredos pessoais da sua história.

ACESSIBILIDADE

HORÁRIOS

10h-21h ter a sáb 09h-19h dom e feriados 21h | Ingressos exclusivamente na bilheteria

A bilheteria abre 30 min antes da visitação.

Permanência até 1h após o último horário. A experiência "Renato Russo 360º" também se encerra 1h após o último horário.

É proibida a entrada com bolsas maiores que 25cmx30cm e mochilas.

INGRESSOS

Bilheteria MIS

R$12 (inteira), R$6 (meia); terças gratuitas.

Crianças até 5 anos não pagam.

Venda online

R$30 (inteira), R$15 (meia)

LOCAL

Espaço redondo / espaço expositivo 2º andar / espaço expositivo 1º andar

Museu da Imagem e do Som (MIS): Av. Europa, 158, São Paulo

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