Foto: Divulgação Juntos

Por Emilly Dulce Alves

No ritmo poético de personalidades que vão de Camões a Elza Soares, alunos do Cursinho Popular Chico Mendes da Rede Emancipa evidenciam a cultura da periferia e protestam contra o abuso de poder do Estado, utilizando para isso a poesia, a música, a arte, a dança e outras manifestações artísticas. O Sarau Emancipado, que acontece todo último domingo do mês em Itapevi, representa o prazer que os jovens sentem ao pegar o microfone e colocar para fora, das mais diferentes maneiras, as suas insatisfações e anseios por um mundo melhor. Segundo Luís Felipe Herculano, poeta e frequentador assíduo do sarau, o próprio nome já sugere a ideia crucial que eles defendem: E-MAN-CI-PA-ÇÃO!

A Rede Emancipa é um movimento social de educação composto por cursinhos populares pré-universitários voltados para estudantes oriundos da rede pública de ensino. O primeiro cursinho surgiu na cidade de Itapevi – São Paulo por uma iniciativa de estudantes universitários e professores preocupados com a educação do jovem da periferia. Depois de muita discussão, o grupo escolheu Chico Mendes (figura importante na luta a favor dos seringueiros da Bacia Amazônica) para nomear o embrião da Rede Emancipa, que em 2017 completa 10 anos.

Uma das principais bandeiras do movimento é a luta contra a política excludente do vestibular baseada na educação bancária de que falava Paulo Freire. Exemplo disso são os cursinhos particulares, onde a mensalidade atualmente pode chegar a ultrapassar dois mil reais. O Emancipa como um novo projeto político-pedagógico, na busca por uma educação popular de qualidade, é uma forma mais eficaz de alcançar os jovens da periferia, já que os alunos estudam todas as disciplinas gratuitamente e os cursinhos são mantidos por doações.

Foto: Carlos Esdras

O mestrando em História pela PUC-SP, Alexandre Terini, e também professor recente de História Geral no Cursinho Popular Dandara dos Palmares, em Osasco, conta que está sendo incrível fazer uma reflexão junto com os alunos sobre a realidade que é estar nas escolas públicas, ser negro e de periferia e enfrentar a barreira do vestibular. “O Emancipa se presta a ser uma ponte para que se supere essa barreira, mesmo sabendo que não são todos que vão conseguir ingressar na universidade porque as vagas são limitadas, mas essa perspectiva coletiva é interdisciplinar, de conscientização de classe e anti-sistêmica”, sustenta ele.

O Sarau Emancipado, por sua vez, é recente – está em sua 12ª edição neste mês de agosto – e é organizado pelos alunos do Cursinho Popular Chico Mendes – ou Chicão. Desde então, ele vem tomando praças, quadras, pistas de skate e outros diferentes espaços da cidade, mostrando que cultura e arte não se restringem a palco ocupado e plateia cheia. Um dos principais objetivos de um sarau popular como esse é possibilitar o acesso à cultura em regiões onde o incentivo e o investimento na área são escassos e as atividades são pagas ou, ocasionalmente, gratuitas, mas para um número limitado de pessoas. A ideia, então, é oferecer à juventude não só cultura e lazer gratuitos, mas dar voz para que ela também manifeste nesse espaço os seus sonhos, anseios, angústias, indignações e descontentamentos, como afirma a cantora Daiane de Oliveira, conhecida pelo nome artístico Dai Steady: “Toda expressão cultural e artística é válida. Aqui é 100% expressão, é livre, você pode falar o que quiser, é algo que você precisa comunicar e as outras pessoas precisam ouvir.”

Inicialmente, o sarau era interno, realizado apenas para os participantes do Chicão, mas o interesse de ocupar a cidade com cultura e lazer fez com que os alunos o difundissem para a esfera pública. Hoje, depois de muita luta pela conquista de um espaço próprio, o Sarau Emancipado acontece no Centro de Referência da Juventude (CRJ), que é ligado à Prefeitura e se localiza na região central de Itapevi. “Desde que conheço o cursinho, eles fazem esse espaço onde as pessoas podem se expressar, colocar suas ideias. O sarau era interno, acontecia no espaço do cursinho, mas existia a vontade de levar isso para a cidade, para um espaço público”, conta uma das coordenadoras da Rede Emancipa, Ana Laura.

Foto: Carlos Esdras

Ambiente ornamentado, cor e alegria pelas paredes do CRJ, jovens atentos e muito jogo de cintura em cada uma das apresentações marcam o Sarau Emancipado. “É importante ressaltar que a diferenciação e a valorização do “ser periférico” praticadas nos saraus não se realizam apenas nos textos mas também no corpo dos declamadores, que, acompanha e enfatiza esses propósitos. Ser poeta de sarau complementa-se com o corpo.” (Saraus das periferias de São Paulo: poesia entre tragos, silêncios e aplausos, Lucía Tennina). Para Alexandre Terini, no sarau os jovens podem expressar a mistura de emoções e sentimentos que pauta a realidade de opressão que eles vivem e a visão de uma universidade que é inalcançável devido à falta de incentivo que eles têm durante a vida. “Estar no Emancipa é libertador, mas, ao mesmo tempo, uma batalha dura, então eles precisam se expressar, expor seus problemas e suas dores porque isso é revigorante”.

A ex-aluna do Cursinho Chico Mendes e hoje graduanda de Economia na PUC-SP, Camila Caetano, conta que no início não frequentava o sarau, mas um dia, por curiosidade, foi ao CRJ e percebeu o bem que aquele espaço gerava no cursinho e na sociedade em geral. “Porque esse é o principal plano: não ser só um cursinho, mas um movimento popular, e a partir do momento que você integra a cultura de um sarau a um ambiente que existe há dez anos, o alcance torna-se maior”, afirma ela.

O Sarau Emancipado é um espaço não-hierárquico onde os participantes se sentem à vontade para reproduzir trabalhos de outros autores, mas também divulgar os seus. É um ambiente onde os jovens da periferia falam a mesma língua e se sentem identificados, representados e valorizados. Ana Laura conta que se descobriu nesse espaço, onde a fraternidade, o esforço coletivo e o companheirismo são presença constante, o que permite construir em conjunto os diferentes tipos de luta na sociedade. Desta forma, o sarau do Chicão é um espaço importante de resistência porque integra as lutas sociais por moradia, igualdade de gênero, educação, cotas, mobilidade e pelo fim dos preconceitos, desigualdades sociais, racismo e violência contra a mulher. O primeiro evento foi realizado no dia 28 de agosto de 2016 e, desde então, seu conteúdo tem sido livre; apenas dois foram voltados para uma temática específica, um sobre mulheres por conta do oito de março e o outro sobre a resistência negra no vinte de novembro do ano passado. De acordo com uma das fundadoras da Rede Emancipa, Taline Chaves Silva, o sarau é um espaço muito privilegiado e único onde são apresentadas diversas maneiras de cativar e envolver as pessoas e, ao mesmo tempo, fazer com que elas se sintam empoderadas pelo debate para construir a sua luta diária. “O sarau é uma forma diferente que as pessoas têm de aprender, ensinar e dividir, porque a arte traz provocações e questionamentos, e o sarau tem conseguido fazer isso com muita eficácia”, afirma ela.

Foto: Divulgação Sarau Emancipado

Todavia, o sarau do Cursinho Chico Mendes não é o único da Rede Emancipa em São Paulo. Em outros bairros os jovens têm se inspirado no sucesso do Sarau Emancipado e aplicado o exemplo em suas comunidades, como é o caso do Cursinho Vladimir Herzog, no Grajaú. A coordenadora, Naiara do Rosário, conta que desde 2013 eles dividem um espaço de luta e cultura popular chamado Carolina de Jesus com um movimento de moradia chamado Nós da Sul e que, pela primeira vez, eles vêm realizando um sarau nesse espaço, que agora hospeda cultura e lazer todo segundo domingo do mês. A poeta e também coordenadora do cursinho, Alessandra Felix, que mora no Grajaú, mas se desloca até o outro extremo da Linha 8 – Diamante para participar do sarau em Itapevi, afirma que o esforço vale a pena porque não tem preço a energia transmitida nesses espaços, que revelam cura e libertação. Outro cursinho da Rede Emancipa que realiza saraus partindo da iniciativa dos próprios estudantes é o Salvador Allende, em Santana. De acordo com a coordenadora, Maria Lúcia Soares, os saraus ainda não acontecem em datas fixas, mas quando surge a oportunidade, eles aproveitam o espaço para militar por um mundo melhor e mais justo. “É sempre incrível participar de um sarau onde a juventude não tem vergonha de se expor, mostrar seus sonhos e da onde vem. Participar é sempre transformador!”, afirma ela.

Para Taline Chaves, o sonho é expandir o projeto, torná-lo itinerante e criar um sarau em cada bairro de Itapevi, em cada escola, praça e centro da juventude, envolvendo, assim, mais pessoas e incentivando iniciativas semelhantes que popularizem a cultura e sejam sinônimo de democracia.

Dessa forma, é inegável que educação e cultura caminham lado a lado e que a busca por uma educação emancipatória é necessária. A militância diária é essencial, mas não se muda o mundo de um dia para o outro. Enquanto isso, os saraus são espaços onde os jovens podem se expressar e lutar por mais humanidade, porque já dizia Mário Quintana: “quem faz um poema abre uma janela, salva um afogado”.

Foto: Divulgação Sarau Emancipado

Endereços:

Sarau Emancipado: Avenida Pedro Paulino, 120 - COHAB, 06663-000, Itapevi.

Sarau Carolina de Jesus: Rua Domingos Tavares Santiago, 344 - Jardim Reimberg, Grajaú.

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