Por Carine Roma, Humberto M Tozze e Sarah Melchior,

2o semestre do Curso de Jornalismo da PUCSP (Introdução ao Jornalismo, Profa, Anna Feldman).

Em 2014, no período pós-eleição, enquanto se falava timidamente sobre a crise econômica brasileira, o grande temor era que esse cenário avançasse até meados de 2016, chegando até 2017. Estamos quase no segundo semestre de 2017, e já passamos pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Roussef; o aumento da taxa de desemprego  alcançou 13,5%; aprovação da PEC 241, que estabelece o teto de gastos públicos e a reforma trabalhista. Sob a gestão de Michel Temer – que estava sendo investigado por corrupção passiva e organização criminosa até a decisão do arquivamento de denúncia no plenário da Câmara dos Deputados - e em pleno clima de insatisfação, insegurança, e com a aproximação das eleições, pouco se fala sobre o futuro do país, pois as previsões têm sido derrubadas por novas surpresas que surgem a cada dia.

A imprensa ocupou um papel importante na publicização da crise e no modo como reagimos à ela. Em um primeiro momento, houve quem duvidasse de que alcançaria uma proporção ameaçadora. No período pós-impeachment, os diferentes pontos de vistas alcançaram a superfície e se tornaram mais evidentes, colaborando para a divisão política do país entre aqueles que acreditavam ser um golpe à democracia e os  que defendiam uma mudança imediata do governo Dilma. Nesse momento percebemos que a crise era algo real, e se fortalecia em função das divisões de opiniões sobre os rumos que o país estava tomando.

Passado esse período de tensão, entramos em um outro momento, de enfrentamento. Com um turbilhão de notícias sendo postadas a todo momento, as redes sociais atuaram como o principal canal de informações, onde a grande maioria dizia respeito aos retrocessos que estávamos e estamos vivendo e uma mensagem implícita de que somos impotentes diante do poder público, seja com um partido ou com outro. Sendo assim, a desconfiança com os representantes políticos resultou em um debate que não consegue ultrapassar os diversos discursos de ódio que vêm sendo produzidos e multiplicados.

Até então, apesar da óbvia insatisfação que todos apresentavam de um modo ou de outro, pouco se falava sobre a imprensa e a construção de uma espécie de "melancolia social". No entanto, não seria equivocado presumir que a mídia tem ocupado um lugar fundamental ao determinar um sentimento de tristeza geral, testando a sua própria capacidade de resiliência e de auto-controle. De modo que estamos vivendo um período de crise de identidade nacional e de representatividade, onde não se sabe para onde ir e nem mesmo o que ambicionar.

Essa crise, certamente, reflete no modo como cada um elabora sua compreensão sobre a política nacional, tendo, principalmente, um grande impacto nos jovens. Jovens de quem cobra-se  engajamento e  atitude, apesar da pouquíssima experiência e vivência diante de uma crise dessas proporções. Uma das questões  diz respeito àqueles que estão pensando em ingressar em um curso superior, ou que estão entrando no mercado de trabalho. Cursar ou não uma faculdade? Além disso o debate atinge a insegurança de ter ou não um emprego, de conseguir pagar o aluguel e conseguir viver em uma cidade como São Paulo, por exemplo.

A crise política e econômica criou uma ampla sensação de desânimo, consequente de uma ampla crise de perspectiva, onde o retrocesso do país, as medidas tomadas, o não comprometimento com os interesses da classe trabalhadora fizeram com que a sensação de impotência resultasse em uma assustadora percepção de imobilidade social por parte de jovens que estão em dúvida sobre que passo tomar.

Com o intuito de compreender um pouco mais o que os jovens sentem e pensam a respeito da crise e sobre o papel que a mídia vem desenvolvendo desde o momento que o Brasil entrou em profunda recessão, entrevistamos alguns adolescentes que ingressaram recentemente em cursos de graduação, de diversas universidades – públicas e particulares - e os questionamos como a crise tem impactado em suas escolhas até então.

Suzana de Azevedo, 18, estudante bolsista de Biomedicina, por exemplo, relata que todos os anos passa por algum empecilho para dar continuidade à sua bolsa, que sempre corre o risco de ser cortada. E acredita que a insegurança e o desânimo gerado pela enxurrada de notícias têm um papel de destaque no número de evasão universitária, mas que, ao mesmo tempo, são fundamentais para fazer com que os jovens demandem respostas de seus representantes.

Julio Marks, 20, estudante de Engenharia de Produção, acredita que a mídia se mostra imparcial e, dificilmente, consegue se apresentar de forma neutra, sendo incapaz de atender a diversidade de pensamentos que existem. Julio contou, também, que sua escolha pela graduação se deu, principalmente, pela pressão de seu pai, em função de uma perspectiva de mercado e acredita que com muitos jovens que desconhecem os sintomas da crise ocorra o mesmo.

Guilherme Godoy, 19, estudante de Sistemas de Informação, acredita que os meios de comunicação agem de maneira tendenciosa e colaboram para a propagação de informações falsas e contribuem para a formação de pessoas sem opiniões próprias. Guilherme considera que a dúvida sobre cursar ou não uma graduação seja um pensamento latente entre os jovens, uma vez que os jovens por terem experiências reduzidas são os primeiros a serem mandados embora, e a demissão de muitos adultos dificulta o pagamento das mensalidades dos filhos. No entanto, Guilherme acredita que os cursos EAD (educação a distância) possam ter um papel fundamental para adaptação ao momento de crise e se tornem cada vez mais procurados, devido às baixas mensalidades.

Já Matheus de Moraes Roma, 20, estudante de Psicologia, aponta um amplo desconhecimento dos motivos que levaram o Brasil à crise por parte da população, sendo a crise nacional, portanto, um desdobramento da crise internacional com a queda dos preços dos commodities. E diz que as mídias de maior circulação tomaram as manifestações de 2014 e as massas desavisadas como oportunidades para darem um direcionamento político até culminar na transição de governos. Matheus, acredita também que a esquerda encontra-se desarticulada entre si, correndo o risco de testemunhar mais uma mudança de governo de modo indireto ou até mesmo um golpe de estado. Sobre a crise e a repercussão dada pela mídia, Matheus disse se sentir extremamente desmotivado, principalmente pela possibilidade do fim do ensino superior público, relatando crises de ansiedade e até mesmo a intenção de abandonar a faculdade.

Todos os jovens entrevistados revelaram que o temor diante do momento político gerou grandes incertezas sobre dar continuidade ao curso inicialmente escolhido ou mesmo à graduação, e que nesse momento a mídia carrega uma posição paradoxal. Pois, ao mesmo tempo que possui o importante papel em informar e mobilizar a população a estar atenta aos seus direitos diante das reformas que estão sendo encaminhadas, ela atua de maneira parcial, visando o interesse de determinados grupos, e não a serviço do interesse público. E, apesar do esgotamento com a crise, apresentaram o apoio familiar como fator determinante em suas escolhas e capacidade de resiliência.

Talvez seja cedo para antecipar as mudanças geradas pela crise, e de que modo algumas convicções possam ser abaladas a ponto de mexer em padrões e valores sociais, como a importância de um diploma, ou mesmo o debate sobre questões éticas na macro e microesfera, concernentes ao papel da imprensa ou de representantes políticos possam ser realizadas. E mesmo sendo cedo para concluir ou antecipar mudanças de paradigmas, é dado como fato que vivemos um intenso momento de questionamentos e avaliações, como é inerente em momentos de crise. Cabe agora o fortalecimento do debate, o amadurecimento de uma mídia que se apresente de maneira ética em busca de uma emancipação social, e na resistência da educação sem repressão como um importante mecanismo de mudanças.

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