Por Fernando Netto e Natália Novais

Sob as frias lápides e gavetas mortuárias existentes no mosteiro da luz descansam, há mais de dois séculos, 28 monjas mumificadas. Com diferentes datas de sepultamentos e níveis de conservação, a história dos corpos destas freiras, também contam a narrativa de uma filosofia de vida e o retrato dos primeiros passos de São Paulo como cidade.

Anjos Suspensos no Museu de Arte Sacra (Foto: Divulgação)

Construído no século XVI o mosteiro sempre foi o lar de recolhimento das Irmãs Concepcionistas, ordem conhecida pelo total enclausuramento onde as freiras dedicam sua vida a contemplação, castidade e exercício da pobreza. Quando elas morrem acreditam que seus corpos devam permanecer imaculados nas terras do convento onde passaram toda a vida, assim o ato de serem enterradas ali é uma forma de garantir que a matéria se mantenha pura assim como a alma que está a salvo no paraíso.

Uma das salas expográficas do Museu de Arte Sacra (Foto: Divulgação)

Bruna Pessoa, uma das educadoras do Museu da Arte Sacra, diz que o público que vai ao local procurando especificamente saber da história das múmias é “muito raro”, segundo ela houve uma grande curiosidade em torno das monjas sepultadas em 2009, quando novos corpos foram descobertos “por acaso”. Na época, devido a uma infestação de cupins na parte subterrânea da capela, foi necessária uma intervenção. Nas investigações para se achar o foco do problema foram descobertas 11 múmias incógnitas na construção.

Foi aí que o mito começou, pois foram encontradas enterradas juntas em apenas seis covas e em ótimo estado de conservação. Para Passos, não há mistério, o que justifica a forma com que foram sepultadas foi justamente a falta de espaço: “Nunca houve muitas irmãs aqui, no passado conforme iam morrendo, eram enterradas no mesmo lugar. Atualmente é diferente, por questão da vigilância sanitária, não se pode mais enterrá-las debaixo da igreja, agora isso é feito em uma capela que fica lá fora e elas são dispostas individualmente em carneiros (gavetas onde se guardam a ossada)”.

Escultura em madeira (Foto: Divulgação)

O Museu não dispõe de informações claras sobre localização das tumbas e na maior parte do tempo a sala mortuária onde as múmias mais recentes foram encontradas fica fechada. Segundo Passos, isso tem acontecido porque a sala em manutenção. Já sobre o trabalho de conservação, ela diz que não se deve ficar “mexendo nos corpos” porque além prejudicar ainda mais a conservação das múmias também existem uma questão ética. Elas não são expostas diretamente ao público e ficam fechadas nestes carneiros porque são corpos humanos e embora importantes peças arqueológicas são acima de tudo religiosas que devem ser respeitadas. A última vez que foram tocadas foi em 2013 por uma equipe de arqueólogos da USP.

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