Por Isabela Noleto e Jéssica Lopez

São 12h33. Metade do dia já foi embora, mas a cidade está fervendo. Quem disse que São Paulo acalma no horário de almoço? A plataforma da estação São Miguel Paulista, no extremo norte da Zona Leste, no sentido que vai até o Brás, está relativamente cheia. Trabalhadores, estudantes, idosos, jovens e comerciantes esperam o trem chegar e abrir suas portas. Ao entrar, nenhum lugar vago. o rapaz de blusa azul se levanta para dar lugar a senhora de lenço rosa na cabeça. Todos se acomodam. A voz da gravação que anuncia a próxima estação adverte: "é proibido o comércio ambulante nos trens e nas estações". O aviso não tem grande efeito... As portas se fecham, "o perigo já foi!" anuncia o primeiro ambulante vendendo balas de alcaçuz por R$1,00 cada embalagem.

Surge outro vendedor, gritando tanto quanto o primeiro: "fone com microfone Samsung só paga R$5,00, testa na hora, para Galaxy e Iphone". É uma oferta em útil para quem percorre longos caminhos e gosta de se informar ouvindo rádio ou música e não incomodar os outros usuários. O vagão relativamente cheio divide espaço com os usuários e ambulantes, o som ambiente é um misto de vozes dos vendedores ambulantes gritando, conversas paralelas, e o andar do trem, que somente vai parar na próxima estação: Ermelino Matarazzo.

 

Foto: Jéssica Lopez.

O transporte público em São Paulo sempre foi característico pelo caos. O trânsito, a bagunça, no entorno de tudo e de todos. Ao mesmo que ajuda, atrapalha, em meio a pressa de se chegar onde quer. Histórias, brigas, discussões, encontros. Tudo se pode encontrar em seu trajeto, para onde quer que vá.

A gritaria vem desde antes mesmo de se entrar nas estações. Alguns ambulantes se instalam em barracas, expõem sua mercadoria no chão, saem com elas nas mãos ou nos braços, oferecendo até para quem está nas filas dos ônibus. Opção é o que não falta. Longe de acabar, alguns ousam entrar no metrô, com o maior risco de serem pegos por fiscais e terem a mercadoria recolhidas. Mas como encontram assim uma das únicas opções para sobreviver, assim permanecem.

Como é o caso de Richard, jovem, de 27 anos. Todos os dias, às 06h da manhã já está nas escadas da saída da segunda plataforma para o metrô Santana, sempre disposto e com a voz potente, para chamar a atenção do público. Conta que tem sempre que ter um diferencial, para conseguir a clientela e conseguir vender o mais rápido possível Vende fones de ouvido, que variam de 5 a 10 reais, e carregadores para celular, Samsung e Apple, a partir de 15 reais. Ela desabafa que entende sobre os riscos, mas que sem emprego, foi a forma que encontrou para se virar e continuar mantendo a casa e a família, com baixa renda, para ao menos conseguir se alimentar e sobreviver; sem informar de onde retira as mercadorias para comercializar.

Outros vendedores arriscam mais a sorte. Entram nos vagões fingindo ser passageiros. Entram, olham ao redor se não há guardas metroviários. Tudo checado, retiram suas mercadorias de dentro das mochilas e oferecem por todo o vagão o produto. As opções são quase ilimitadas, os vendedores são extrovertidos e normalmente convincentes. Vendem a preços baixíssimos e até mesmo duvidosos. O medo de ser pego pelos guardas é grande. Até menores de idade se arriscam nesse meio para tentar uma graninha. Como o caso de Yan, de 17 anos, que vende balas, explicando que já foi pego por guardas na Linha Vermelha em flagrante, teve algumas complicações, mas sem dar detalhes.

Foto: Isabela Noleto.

A vendedora Edna, uma senhora de 56 anos entra na estação Tatuapé. Está vendendo bolos e garante: "Não são industriais ou de padaria. Eu mesma fiz, com leite, ovos, farinha, leite condensado, chocolate e coco" Cada pedaço custa R$ 3,00 e no caminho para oferecer, conta sua história: "Estou vendendo bolo, porque a minha aposentadoria não saiu ainda. Estou com audiência marcada para o dia 27 de novembro e até lá, não posso ficar sem pagar as minhas contas, por isso estou aqui, honestamente, vendendo os bolos que eu mesma fiz com carinho para adoçar a viagem de vocês." Edna ressalta que não quer nada de graça, quer conseguir o dinheiro para pagar suas contas através de seu trabalho. "Sempre me disseram que eu fiz ótimos bolos, então vou ver se eu consigo o meu sustento com eles, né? "

Balas, doces, salgadinhos, carregadores, fones, pendrives, até mesmo a nova moda na atualidade, os chamados spinners. As mercadorias variam de cores, tamanhos e modos de comercialização, mas os preços são sempre mais baixos, por conta da ilegalidade da venda.

Promoção é sempre a palavra-chave. Entram dizendo que "era 15 agora é 10", "leva 5, paga 3". E o público, às vezes se entrega, ora não, tudo depende da hora. Everton explica que sempre tem o horário das boas vendas. "Horário de pico nem pensar. Tem muito mais guardinha e a circulação pelo vagão é muito pior. Não dá pra andar ou oferecer pro público e eles verem quem é você." E conta que os melhores são os primeiros e últimos vagões, que tem menor lotação, sempre no período da tarde.

Uma dinâmica acontece nos metrôs que tem uma pequena diferença dos trens; nos metrôs, produtos mais caros como cartões de memória, pendrives e lentes de aumento para câmeras de celular são ofertados com mais frequência do que nos transportes da CPTM. São preços de R$10,00 a R$20,00, geralmente, os vendedores que comercializam esses produtos são em articulados, explicam o produto em todos os detalhes possíveis, mostram benefícios e comparam com os preços dos principais shoppings de São Paulo. Não é surpresa quando conseguem vender bastante, o que frequentemente acontece.

Uma raridade, especificidade e curiosidade sobre os vendedores ambulantes aqui de São Paulo, que hoje preferem se locomover e modificar sua clientela, podendo estar cada hora e cada dia em um lugar. São curiosos, engraçados, inteligentes, em muitas vezes, bem mais criativos do que publicitários. A necessidade faz isso, torna os nômades de um shopping em movimento, pessoas muito interessantes de se observar.

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