Reprodução Uol

Por Alex Tajra e Gustavo Saad

  Em 2011, 67 anos após sua fundação em Salvador, na Bahia, o grupo Odebrecht atingiu seu apogeu. Somando as suas controladas (são dezenas de empresas que fazem parte do grupo, como Braskem e Cetrel), a empreiteira teve ganho líquido de R$ 2,7 bilhões, o maior de sua história. O aumento foi de 180% em relação ao ano anterior, lucro exponencial que mesmo os acionistas mais esperançosos não esperavam. Coincidênia ou não, o recorde veio acompanhado de outro número grandioso: o de investimentos do Estado nos projetos da Odebrecht, o maior deles com o Fundo de Investimento do FGTS (FI-FGTS), que injetou quase R$ 3 bilhões de reais na construtora.

Três anos depois e toda essa narrativa se transformaria. A Operação Lava-Jato, liderada pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR) em parceria com a Polícia Federal (PF), dissecou as promíscuas relações da empreiteira, além de outras gigantes do mesmo seguimento, e revelou as nada ortodoxas práticas dos líderes empresariais e governamentais. A grande operação dos órgãos públicos vem gerando consequências criminais consideráveis nos envolvidos, contudo outro reflexo afetou mais a vida do trabalhador; o setor de construção civil, que representa quase 10% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, está esfacelado, gerando desemprego e desinvestimento. Além da Odebrecht, outras seis empreiteiras de grande porte caíram na malha fina da Lava-Jato. OAS, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão e Construcap ocupam nessa ordem a lista das maiores construtoras do Brasil, liderada pela Odebrecht, e todas tiveram seus executivos investigados pela operação do MP.

Os desdobramentos econômicos da operação são muitos. As empresas, além de terem seus nomes estilhaçados pela publicidade negativa em torno das investigações, são prejudicadas também em termos de crédito com as instituições bancárias. Muitos bancos têm regras internas que vetam negociações com companhias cujos donos ou a alta cúpula estão na cadeia ou diretamente envolvidos em casos de corrupção. A Odebrecht, por exemplo, possui uma dívida que chega a R$ 63,3 bilhões. O jornal Folha de S. Paulo chegou a tocar no assunto na reportagem "Dívidas das empreiteiras preocupam os bancos" (http://bit.ly/2sP4d0m), onde as instituições reclamavam uma possibilidade de um grande calote. Em 2016, o PIB da construção civil recuou 5,2% sobre o ano anterior, agravando o desempenho já ruim da economia brasileira, que encolheu 3,6% no período, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A atividade das construtoras formais no país recuou 18,2% em 2016, segundo índice medido pelo Sinduscon-SP(Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo).

Para se ter uma ideia da queda de rendimentos no setor, a Odebrecht amargou um encolhimento de 51% dos lucros em 2015, quatro anos após seu auge - os ganhos líquidos da construtora não ultrapassaram os R$ 890 milhões. A segunda mais atingida foi a OAS, que perdeu muito espaço e teve de aderir à velha lógica neoliberal da demissão em massa. Segundo dados levantados pelo Sinduscon-SP, a empreiteira demitiu 85 mil funcionários desde que a operação Lava-Jato começou. Ainda segundo o sindicato, o setor de construção perdeu mais de 1,08 milhão de vagas de trabalho até dezembro de 2016 - de 3,57 milhões de postos em outubro de 2014 para 2,48 milhões no fim do último ano. A OAS ainda teve de enfrentar um problema judicial maior - a necessidade de entrar com um pedido de recuperação para poder renegociar as dívidas e permanecer "viva". A Justiça aceitou o pedido e agora nove empresas que compõe o grupo estão em processo de reestruturação.

Um estudo elaborado pela consultoria Go Associados, que tem como um dos sócios o professor da Fundação Getúlio Vargas Gesner Oliveira, mostrou que a Lava-Jato terá um impacto negativo no PIB brasileiro de 3,63 pontos percentuais entre 2015 e 2019. "Haveria uma subtração de R$ 284,2 bilhões no valor bruto da produção da economia, a perda de 3,64 milhões de empregos no mercado de trabalho, a redução de R$ 44,7 bilhões na massa salarial da economia e R$ 18,7 bilhões a título de impostos deixariam de ser arrecadados", diz o relatório da consultoria. A queda dos rendimentos e investimentos das empresas brasileiras de construção civil abriu uma lacuna para a entrada em massa do capital estrangeiro. Os leilões pela concessão dos aeroportos pelo País mostraram explicitamente essa questão, onde apenas empresas estrangeiras concorreram pelo direito de exploração. O resultado foi que a alemã Fraport, a francesa Vinci Airports e a suíça Zurich dominaram as licitações a agora controlam boa parte dos aeroportos brasileiros. Outra novidade nesses leilões: ao contrário das concessões anteriores, a Infraero não precisou ser incluída como participante nos aeroportos concedidos à iniciativa privada. Nos leilões anteriores, a estatal tinha participação compulsória de 49% nas concessões; operadoras internacionais de aeroportos participaram sozinhas do leilão, sem a obrigação de um parceiro nacional. As grandes empreiteiras brasileiras, que protagonizaram as concessões anteriores e até a operação Lava-Jato eram as grandes cotadas como exploradoras, ficaram de fora dos leilões.

Outro exemplo dessa entrada de grupos estrangeiros na economia brasileira foi a chinesa State Grid, maior empresa do setor elétrico do mundo, que comprou em janeiro o controle da CPFL Energia por aproximadamente R$ 14 bilhões, fatia que pertencia à construtora Camargo Corrêa.

Economistas das mais variadas vertentes ideológicas convergem sobre certos aspectos da Operação Lava-Jato, principalmente em relação à derrocada econômica do País, reflexo substancial da escassez de investimentos. Para João Sicsú, professor do Instituto de Economia da UFRJ, a operação da PF, estima que, das quedas do PIB de 3,8% em 2015 e 3,6% em 2016, a Lava Jato seria resposável por 2,5 pontos percentuais negativos. "Em outras palavras, se não fosse a Lava Jato, a recessão de cada ano teria sido algo em torno de 1,5% (...)Os efeitos da Lava Jato começam nas empresas envolvidas pela operação, mas se espalham por toda a economia chegando até o mercado informal de trabalho", escreveu o economista em artigo.

Ainda segundo Sicsú, sem a operação Lava-Jato, "A taxa de desemprego no fim de 2016 não teria sido 12%, mas estaria entre 8 e 9% e o número de desempregados, em dezembro de 2016, não teria sido de 12,3 milhões de trabalhadores, mas seria algo entre 8 e 9 milhões". Sendo assim, segundo o professor a operação pode ser a explicação para o desemprego de cerca de 4 milhões de trabalhadores. Economista da consultoria Tendências, Alessandra Ribeiro também defende a mesma opinião. “Não fosse o impacto da operação, a recessão brasileira seria bem menor. A Lava Jato paralisou setores que têm um peso grande nos investimentos totais da economia”, disse em entrevista. Ribeiro ainda afirma que as quedas nos índices econômicos se devem às revisões de planos de investimentos realizadas pelas construtoras, que enxugaram os gastos ao máximo após o início da operação.

As consequências reais da Lava-Jato

Toda a ação gera uma reação igual ou pior. No caso da operação policial mais danosa aos agentes políticos na história recente do País, não seria diferente. E a grande enfraquecida nesses termos foi a economia nacional, que, depois de certa pujança nos três primeiros governos encabeçados pelo Partido dos Trabalhadores, enfrenta uma derrocada sem precendentes. Não à toa que os três grandes setores da economia brasileira (energia, carne vermelha e construção) estão defasados por investigações eloquentes da Polícia Federal.

A sangria provocada pela queda drástica do Produto Interno Bruto, que retraiu 7,2% em dois anos, a pior marca desde 1948, parece não estar controlada. O agente preponderante e onisciente chamado pelos grandes veículos de "mercado", antes eufórico com a alçada de Michel Temer ao poder por meio de um processo de impeachment, agora faz previsões tímidas e não consegue estabelecer uma perspectiva consistente para a economia do País. Exemplo disso foi a mudança de tom do Banco Central nos últimos informes lançados. Em um primeiro momento, o BC lançou um olhar otimista sobre a crise instaurada no Brasil, informando que, para 2018, esperava-se uma alta de cerca de 2,5% no PIB. Em relação a este ano, a perspectiva era de avanço de 0,5%. Contudo, conforme divulgado pelo Relatório de Mercado Focus, as prospecções foram enxugadas, e agora espera-se um aumento de 2,3% em 2018 e de 0,4% em 2017 (http://bit.ly/2toLZA1). Parece apenas uma pequena diferença, mas, em termos de atividade econômica, mostra que o País ainda está cambaleante.

Toda essa composição do PIB está sendo diretamente afetada pela sensação de incerteza causada pelas grandes operações policiais. De certa forma, é esperado que os investidores tomem caminhos opostos ao de um País em derrocada, principalmente pelo fato desta queda estar atrelada a casos vexatórios de corrupção. A ausência de investimentos faz com que o desemprego despare, e a marca já está em mais de 14 milhões de brasileiros segundo o IBGE (http://bit.ly/2qeG8OR).

A instabilidade política é outra consequência que aumenta a penúria da economia nacional. O fato das reformas de austeridade estarem em uma espécie de "limbo" institucional, já que, além de não serem votadas, não estão sendo discutidas com a população e muito provavelmente não terão um desfecho até a conclusão do inquérito que investiga o presidente Michel Temer, joga o próprio país em um limbo.

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