Por: Salvador Strano e Gustavo Abraão


  O longa “Que Horas Ela Volta” foi o filme nacional mais exibido no Brasil em 2015, segundo o Anuário Estatístico do Cinema Brasileiro. Das mais de 3 mil salas do país, o filme passou em 91. A exibição nas principais salas de cinema é apenas um dos obstáculos para quem deseja contribuir com a produção nacional. Para fazer um filme no Brasil é preciso de dinheiro – que geralmente chega por meio de leis de fomento à cultura – e de uma distribuidora de filmes. Para vender é preciso muita propaganda, que envolve até a participação em renomados festivais, como o de Gramado. Para os diretores consagrados sobram recursos de incentivo público. Os diretores iniciantes nem sempre tem esse acesso.

“A gente faz o famoso filme de guerrilha, na raça”. Luisa Moraleida já dirigiu três curtas metragens e um documentário. A iniciante no mundo da produção cinematográfica revela que nunca lucrou com uma filmagem feita. Ela também atua como atriz e conta que o recuso para a produção de um longa veio por um caminho diferente. “Conseguiram produzir pelo Catarse, tudo financiamento coletivo”. No Catarse os artistas brasileiros divulgam um projeto e os contribuintes escolhem se querem fazer uma doação, que pode ou não vir acompanhada de uma contrapartida. Se o projeto atingir a meta financeira, ele sai do papel. Moraleida acredita que a captação por meio de recursos públicos “é inviável”.

Para que uma diretora ou diretor possa captar recursos por meio da Lei do Audiovisual é preciso ter, em primeiro lugar, uma pontuação mínima para concorrer aos editais. Guilherme Andrade é jovem, mas está no cinema há mais tempo que Moraleida. Ele possui essa pontuação mínima, mas também não consegue a verba da Ancine. “Se colocar meu nome junto com o Fernando Meirelles [diretor de Cidade de Deus], eu perco. O governo não tem um edital que equipara todo mundo pela ideia. Ele vê a pontuação”. Andrade reconhece que o financiamento empresarial via Lei Rouanet é mais acessível, apesar do nome do diretor também ter um peso grande. Atualmente ele está buscando um financiamento de R$ 1,5 milhões para dirigir um documentário, o que não é um valor alto para os padrões do mercado. Contudo, o jovem diretor considera esse tipo de fomento problemático, já que as empresas muitas vezes alteram a ideia inicial de um filme pensado na publicidade. Depois que o filme já está quase pronto, as distribuidoras entram na jogada. O primeiro passo é colocar o produto em algum festival. Andrade revela que para o filme ser aceito é fácil, mas é preciso fazer parte de um ciclo. Conforme um diretor é selecionado uma vez, no próximo júri suas chances aumentam, já que os jurados vão ter mais familiaridade com a produção de determinado diretor. Ele vai além. “Setenta por cento dos festivais hoje selecionam longa de amigos. Isso é certeza”. Ele conta que só conseguiu entrar nesse ciclo porque um de seus curtas era estrelado por uma atriz famosa. A distribuidora tem interesse nos festivais para que, mais tarde, o filme possa ser vendido ao cinema. Ela garante a exibição nos cinemas do país, mas o preço é alto. 70 por cento de todo o lucro fica com ela.

Para Lucas Durão, dono da distribuidora Maré Filmes, o cinema nacional é altamente dependente de incentivos governamentais e exibições em festivais. Segundo Lucas, isso faz com que “o sucesso do longa fique em segundo plano”. E ainda afirma que “isso acontece porque o produtor ganha dinheiro com a produção e não com sucesso de bilheteria”. Ele afirma que a dificuldade em conseguir grandes sucessos de público acontece por conta da competição desleal com os grandes filmes de Hollywood.

O caminho para que o filme chegue até as telonas é árduo e algumas concessões são feitas ao longo do caminho para captar recursos. “É a censura do capital”, define Andrade. Mas ele não credita todos os obstáculos enfrentados à baixa exibição dos filmes brasileiros nas salas de cinema. Guilherme Andrade acredita que as produções nacionais perdem para marketing dos filmes estrangeiros. Ele defende uma cota para os filmes brasileiros nas salas de cinema. “A realidade hoje pede isso, porque você não pode se guiar só pelo lucro”.


  Como funcionam as Leis de Fomento

  Lei do Audiovisual

Criado pela Lei 11.437/06 e regulamentado pelo Decreto 6.299/07 como uma categoria de programação específica do Fundo Nacional de Cultura (FNC), propicia investimentos em diferentes atividades do setor, desde a produção e comercialização de obras para cinema e televisão até a construção de salas de exibição.

Assim como na Lei Rouanet, o investimento é indireto. Ou seja, é feito por dedução no Imposto de Renda. Só que, nesse caso, o investimento é feito pelo próprio produtor. E não por terceiros.

Lei Rouanet

Política de incentivos fiscais que possibilita empresas e cidadãos descontarem parte do imposto de renda quando investidos em ações culturais escolhidas por uma bancada curadora.

O percentual disponível de 6% do IRPF para pessoas físicas e 4% de IRPJ para pessoas jurídicas. Em 2008, foram investidos em cultura, segundo o MinC mais de R$ 1 bilhão.
Para que um projeto seja aprovado uma proposta deve ser cadastrada junto ao Ministério da Cultura e ser aprovada em mais quatro etapas.

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