Por Ariela Vasquez

A Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA) contabilizou, em 2013, 2 milhões de cães e gatos que estão abandonados nas ruas de São Paulo. A principal razão pela qual tantos animais estão sem um lar é a falta de responsabilidade dos seus (ex)donos. Muitos são abandonados quando chegam a uma idade mais velha, sem contar com a falta de castração que também se converte em problema também.  A falta de condições econômicas de pessoas que não têm dinheiro para custear despezas decorrentes de crias,  também se converte em motivo e eles acabam largando nas ruas por falta de condições para sustentá-los. Algumas ONGs vêm fazendo eventos de castração solidária que isentam os donos de pagamento, pois o dinheiro para as cirurgias é arrecadado através de doações. Mas ainda sim não é uma solução.

A revista Veja São Paulo fez um levantamento e cerca de 500 animais são resgatados por mês pelas ONGs, resultando em 6 mil resgatados por ano. E mesmo com tantos animais sendo retirados das ruas, não parece que vai existir um “fim”. A maioria dos bichinhos vivem em lugares precários, terrenos baldios, onde se acumula lixo e com fácil acesso a água, sendo ela suja ou não. Alguns são deixados em estradas ou avenidas para morrerem. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 30 milhões de animais estão abandonados no Brasil. Ao redor do mundo o número é ainda mais assustador, 600 milhões de cães e gatos vivem nas ruas. Em Portugal, a Direção Geral de Alimentação e Veterinária registrou um aumento de 134% de bichos largados nas ruas, mais de 32 mil deram entrada em canis, entre os anos de 2008 e 2014. Em São Paulo as cidades menores são as que mais sofrem, lugares onde a situação é precária tanto pros humanos e pros bichos. Existe um forte desequilíbrio, pois a quantidade de cachorros e gatos sem um lar é enorme, e o número de pessoas que podem cuidar financeiramente de um animal de estimação é muito pequena. E muitas podem cuidar, só não se dispõem por motivos a parte. A formas como eles são abandonados são as mais cruéis, os mais velhinhos que adoecem com facilidade, alguns internam e não voltam mais para buscar, outros descartam em lugares públicos, como praças e parques. Com o aumento e a popularização das ONGs, elas também sofrem, todos os mês pelo menos um cão ou gato é deixado na porta do sítio onde se localiza a ONG. Por muitas pessoas, elas são vistas como “descartes”.

As épocas festivas do ano são as piores, quando as famílias vão viajar e largam o amigo de quatro patas pois não podem levar junto, ou vão ficar muito tempo fora, não tem com quem deixar, as desculpas se repetem. São quando os pedidos de resgate aumentam e posts no facebook de pessoas que querem doar o animal. Muitas pessoas apelam para protetores mais conhecidos como a Luiza Mell, protetora e ativista, recebe inúmeros pedidos todos os dias de resgates e ajuda, mas a colaboração é necessária, pois é responsabilidade de todos. A dica que os veterinários dão é dar água e alimentar o animalzinho, seja com pedaço de pão, ou se for possível, a ração mesmo.


Três vira-latas da mesma ninhada foram abandonados em uma estrada em Itapecerica da Serra.

Para Letícia, 36, protetora há 4 anos e trabalha voluntariamente em feiras de adoção, a procura por um animal de estimação está aumentando. “Já participamos de algumas feiras e ultimamente elas têm sido mais agitadas, recebendo mais pessoas, a crise econômica não tem ajudado, mas a tendência é sensibilizar as pessoas a optar pela adoção e não a compra, isso tem aumentado bastante, pois as pessoas tem tido mais consciência. Porém o mercado sempre vai ter, acho que elas vão por conta da raça, por ser mais “chique”, por ser mais famoso, também por preferirem cachorro pequeno, como se tamanho fosse diferença. Não querem porque o cachorro vai ficar em um lugar pequeno e vão ficar com dó, mas triste mesmo é eles ficarem presos em um canil. E existe o mito também de preferirem adotar filhotes a animais adultos, porque querem que o animal cresça junto com o filho, quer “conhecer a personalidade do cachorro”, “o mais velhinho não vamos passar tanto tempo juntos”. O preconceito também é sempre visto nas feiras, com os vira-latas, animais pretos, principalmente gatos, mas também tem muitas pessoas que adotam justamente eles pois são deixados de lados. Mas entre gato e cachorro, as pessoas procuram mais os cães mesmo. Agora casos de tutores que tiveram que se mudar e largaram o bichinho pois iriam para um lugar menor, isso não existe, você adotou ele e tem que encaixá-lo na sua vida sempre, mas eu já recebi casos que quiseram devolver o cachorro, mas felizmente eu consegui convencer a pessoa a manter-lo”.

A compra e venda de filhotes é uma das causas do problema, os animais são vendidos a preço de luxo, principalmente os de raça, que o valor chega a quase 3 mil reais. Muitos optam pela compra, a preferência por um cachorro de raça, e a visão preconceituosa contra “vira-latas” também implica na escolha. Os que mais sofrem são os gatos, principalmente os da cor preta pela superstição que traz “azar” ou “coisas ruins”. Em contrapartida, os números de ONGs e protetores de animais vem aumentando, colaboradores e doações também. E para aqueles que não podem abrir as suas portas para os amigos peludos, têm a opção de “apadrinhar”, todo mês ele deposita uma quantia no banco, que vai para cuidar do animal.


Foi abandonada no meio do mato junto com os seus irmãos e sua mãe. Porém já conseguiu um novo lar.

O “descarte” dos animais ainda gera um problema para a saúde pública, podendo transmitir doenças e passá-las para as pessoas. A melhor maneira de conter o volumoso número é a castração, ela ainda evita doenças e previne de futuros acidentes. Protetores, petshops e veterinários individuais abrem as portas para a castração, alguns fazem mutirão e conseguem castrar mais de mil animais, outros colocam um preço fixo de baixo custo para aqueles que não podem pagar muito pela consulta. Outra maneira de combater o abandono é sensibilizar e compartilhar informações sobre os benefícios da adoção, fazer com que as pessoas optem por adotar um animal do que comprar, pois a raça é o que menos importa, você vai ganhar um amigo, e ele vai te amar de qualquer forma. Não existem leis rigorosas contra o abandonado, mas para denunciar maus tratos: ligue 190 para Polícia Militar. 0800-132060 para Polícia Ambiental. O disque denúncia 181. Ou a Guarda Civil Metropolitana tel 153.

Leave a Reply