Por Gustavo S. Cavalcante e João Miguel Lotufo

Silêncio. Ninguém conversa no estabelecimento e o som parou de tocar. Alguém vira o disco, a vitrola procede e um blues preenche o espaço sonoro daquele que é um espaço de muito a se notar. Caixas empilhadas no chão e um homem de joelhos puxa uma fita e a marca diferenciando com adesivo colorido. Dentro das caixas velhas revistas que abordam política até comportamento de décadas passadas, um verdadeiro almanaque da história recente do País. Na loja há duas vistas possíveis, uma imediata que dá de cara com alguns caixotes cheio de livros e gibis e também uma distante, o horizonte daquele espaço, uma predisposição de enxergar uma grande carga de conhecimento escritos em folhas velhas e manchadas pelo tempo.


Trata-se de um velho sebo sem nome visível na av. São João que é um tradicional local de encontro entre pessoas amantes da literatura, mas não só, é também um lugar de encontro consigo mesmo. Ainda há livros com histórias extras, uma história além do escritor e da editora. Trata-se de longas dedicatórias e curtas também, uma prosa inteira dedicada ao conhecimento de uma pessoa só, uma frase de amor, uma frase de saudade ou saudações para um aniversariante, seguido logo abaixo com o detalhe mais interessante, a data. Uma data escrita a caneta na contracapa de um livro é uma viagem imediata que forma a imagem daquelas pessoas de acordo com a década preenchida. Ler um livro que foi lido por alguém a mais de 50 anos e abrir aquelas páginas é como suspirar a imaginação e o português daquela pessoa, que pôde, por acaso, ler aquela história em suas primeiras edições, e que agora, só se pode ler as primeiras edições em livros de sebo, os velhos, os rabiscados, os que faltam páginas, às vezes, mas o que são mais completos de histórias. E ainda mais barato.


Uma pessoa que vai consumir "entretenimento empoeirado" não liga muito para o conforto do novo, um produto pago em uma livraria que além de tudo, traz consigo a atualidade e uma maneira mais prática de leitura. Além do mais, revistas e jornais velhos são usados para caixa de areia de gatos e discos e filmes em fita-cassete, ninguém usa mais. Mas há alguns que sobressaem, prefere o velho, o empoeirado, as notícias antigas, há muitos anos antes de seu nascimento e para o senhor, o velho jazz que já não se escutahá 40 anos e ainda para ela, a Maria, sozinha, preenchida numa folha com data de 73, esperando ser lida por alguém na atualidade. O universo do sebo tem muita coisa para se olhar.


Filmes em fita cassete, caixas separando estilos musicais de discos antigos, revistas de esporte, de carro, política e lazer. Livros de romance, terror, ficção, crônicas, contos, poesias, burocráticos, técnicos e para desenhar. Relógios, quadros, pôsteres, vitrolas, vídeos cassetes, estantes, cômodas, bancos e corredores e mais corredores de livros e revistas. Pessoas e mais pessoas, jovens, idosos, sérios, descontraídos e outrora chocados por achar o que julgava impossível, uma revista em quadrinhos de um super-herói qualquer. Conteúdos diversos com pesos diferentes para cada consumidor. Uma história viva. Um ambiente repleto de mofo, de poeira e cheiro de vinil que até ardem os olhos quando passa pelo corredor dos livros mais velhos. As maiores relíquias do estabelecimento. Um gosto peculiar para cada consumidor daquele entretenimento velho, porém vivo e cheio de histórias para contar.


Corredor de fitas em um sebo na Av. São João


Corredor de revistas no Sebo do Messias


Dentro de um sebo é possível esbarrar numa caixa cheio de fitas. Filmes de atores conhecidos e novos, em outros tempos, hoje estão velhos ou mortos, porém imortalizados a preço de cinco moedas cada. Fitas e mais fitas, rebobinadas na caixa original, o peso do conteúdo cheio de histórias e inspirações. O novo cinema depende das velharias soadas no fundo de uma caixa chutada no canto das prateleiras de revistas de futebol. Futebol: quem era o craque do Santos nos anos 90? Os almanaques contam. Capas divertidas e coloridas, desenhadas e reconhecidas pelo torcedor que coçava o bigode nas bancas esperando a nova edição, a de novembro, fim de campeonato, todo mundo apreensivo para saber o desfecho daquele pênalti que não foi. O campeonato está acirrado, está decidido, foi pênalti ou não foi, está marcado, fim de campeonato e o campão vai levar na marra, ou ajudado. Ainda mais velho, a libertadores de 66 é do cruzeiro. A capa da ‘Placar’ informa: “Cruzeiro agora é Brasil”. Pra todo gosto, todo time, tem por lá uma história a contar. Quem diria, não? A Portuguesa já foi gigante em outros tempos. Comportamento, entretenimento, política! Extra! Extra! Carlos Lacerda conta tudo pra ‘Manchete’. Na capa, Carlos está com seus filhos. No canto da página, edição de abril de 1967, ele sorridente, mas por normas do sebo, ‘revista encapada se abrir paga’, então vamos adiante.



Décadas e décadas. 50, 60, 70, 80 , 90.... a Manchete foi contando ao longo dos anos a história desse Brasil mais do que nunca brasileiro e patriota, tem por lá, no meio de páginas cheirando a poeira, marcadas e rasgadas pelo tempo, o depoimento do jovem censurado pela ditadura, o jovem que há muito não dá notícias, mas esteve lá, jovem e hoje vivo ou não, mas velho, seus sussurros estão registrados, lê quem quer, faz parte, um pouco de cada brasileiro contado em décadas, ano após ano pela organização do sebo. Plaquetas separam rivais de edição. De um lado Manchete, do outro "O Cruzeiro" e todas se entrelaçam e vão evoluindo com os anos a grafia da sua edição. O Cruzeiro era mais simples, suas cores simples contavam o que as moças deviam usar caso queriam estar na moda. Cada mulher na capa intimida, moça bonita de chapéu e batom. Seu nome está lá embaixo, dentro da revista, e na capa, o ano é 1953. Tão velho e quem diria, de lá pra cá mudou-se o mundo. Reinventou-se. Faliu, abriu, curtiu, morreu, tudo passou e ainda passa, mas de lá pra cá, o mundo será que melhorou? Essa edição não conta, vai lá ver nos almanaques atuais. Hoje já não tem "O Cruzeiro", nem "Manchete", ou como era antes pelo menos. Mas elas suspiram, respiram, capa por capa, a cada edição um marco, são tantas histórias que vale uma matéria pra cada uma. Devia mesmo é entender o poder de quem escrevia naquele tempo, o melhor entretenimento, o mundo inteiro lia e jornalista era rei. Não era furo, era matéria aprofundada, era romance que ele escrevia na velha máquina de escrever aposentada e a venda no mesmo sebo, está lá na estante à venda, esperando como uma moça na janela o seu romancista chegar. Escrever para apresentar quem tu és e mais, contar quem os outros são. Comportamentos costumeiros a muito aprendido e adaptado, hoje nada é novo, é tudo adaptado. Os senhores é quem contam, lendo velhos jornais e saboreando a notícia que leu no justo dia tomando café e conversando com a esposa falecida, conta para o amigo. Dois senhores conversando no espaço dos jornais, questionando o tempo atual e sua política combalida, quem cai, quem não cai, “mas no meu tempo era assim”, eles vão contando, entendidos do assunto, que sabem o que falam, vão prescrevendo em linhas abstratas o que passaram, o que acompanharam, e “como era bom naquele tempo” e o que não era também. Jornais antigos, as letras eram outras, mas velhas notícias trás para hoje uma discussão. Eles se apossam e passam anos em alguns minutos, toda a vida, vem o silêncio, o óculos recostado no nariz, suspiro e de nostalgia solta: “ é tudo bagunçado, mas a vida é boa”.



Revista O Cruzeiro encontrada numa coleção de um sebo na Av. São João



Mas hoje em dia o que se tocava nos anos 70 é tão vivo como nunca. Veja um pôster do Led Zeppelin, Robert Plant com toda sua desenvoltura jovial e sexy da época em que vislumbrava aos seus pés multidões de alternativos e ditava no coro e nos movimentos, uma cultura que apaixonava e aquela foto registrada num show peculiarmente viva e traz à tona o contínuo gosto de quem se apega aos detalhes do roqueiro ditador de um estilo, o estilo da juventude amarrada e sofrida que no Brasil, naqueles anos, apanhava e sangrava, mas com o Rock´n´Roll gritava. Sua liberdade o pertencia, calada e intimidada, mas nos cabelos cumpridos, calça boca de sino, cinto e cigarro na boca, nesse solo de tantos e tantos e tantos minutos, repete o som naquele sebo pra contar uma história outa vez.


Gente entra, gente sai. Moços e moças, senhores e senhoras, asiáticos, latinos, fazendeiros e italianos, contam, divergem, folheiam livros, analisam os discos, respiram o ar empoeirado, o cheiro de cigarro que entra da porta e pregados, concentrados leem, ouvem e também se admiram. Moço barbudo, estudante de matemática que conta: “sebo tem de tudo, tem coisa que não acho em livraria, tem conteúdo a mais e melhor ainda, tem até mais do que eu preciso”. Segue a procura, a teoria de mecânica, cálculo na cabeça, semblante sério, conta, desconta, pede desconto pra levar os três, não consegue, estrala os lábios de chateação e pede pra embrulhar, vai levar assim mesmo.



Discos, Pôsters e livros de um sebo na região da Mooca


No outro canto dois sujeitos procuram revistinhas e gibis de "Conan, o bárbaro" e comentam alto a cada achado sem estar perdido. Viajam a cada folhagem, revistam, trocam o personagem, tem de tudo, de agora e de antes, heróis coloridos na capa e edições pra coleção, "pra se empilhar na prateleira de casa, o doce sabor de dizer que tem consigo o verdadeiro marco do seu entretenimento particular, para o intervalo, no almoço, no ônibus, pra ler antes de dormir e pegar no sono durante a leitura, pra cada situação, não importa, lê e diz o que acha e em seguida guarda pra ler de novo".


A moça que chega sozinha, seu vestido varre o chão, anda de bolsa e de cabelos soltos e vai pedir informação. “Não trabalho aqui, perdão, pergunte a aquele cara” e lá vai ela, no meio dos livros de filosofia contentar parte do seu tempo matutando sua procura, sabe-se lá o que ela quer ler, mas deve ter bons fundamentos para a procura, aliás, qualquer leitura é bem-vinda, dizia por aí um cartaz otimista. Ela diz: “ Ah.. sebo.. sebo é isso, é o velho, é um gosto particular. Tem gente que prefere produto novo, mas eu prefiro isso, o velho porque pra mim tem mais graça, acho mais fácil o que quero, conheço outras coisas que me interessam, e também são mais baratos”, ela dobra os joelhos e repousa a procura e vai procurando e procurando e procurando. Sabe-se lá o que ela quer ler.



Salas e mais salas, espaços espalhados em São Paulo cultuam boas-vindas a leitores assíduos, curiosos e até quem não tem o que fazer, que entra e sai sem ver nada, sem levar nada, passou por lá, na Avenida São João, nos Arredores da Sé, nos cantos da Mooca, Ipiranga e bibliotecas e sebos de bairro, passam por lá e veem o que querem, o que não querem e o que nem esperavam ver e se impressionam, vislumbram, acham um tédio, mas acham, se acham, e outrora, se perdem no meio de corredores de estantes que quase falam por si, coleções de crônicas de Machado de Assis.

Prédios que já foram moradia em outros tempos. Espaços abandonados, reformados e cheio de histórias pra contar. “Aqui morava uma família que veio da Europa. Naquela época a Praça da Sé, as pessoas iam pra passear, pra se encontrar, pra conhecer gente. Era um espaço de lazer” conta um senhor que frequentava naquele instante o sebo do Messias. Estrutura antiga, salas fechadas, trancadas, inexistentes. Prédio divido, metade sebo, metade brechó, do mesmo dono, do mesmo fascínio, do mesmo gosto. Sobe e desce escadas e a cada escada, um corredor de assuntos requintados, exclusivo e que talvez por lá se acha uma nova história a se prender, a se amarrar, a se apaixonar e depois contar que leu e gostou e que novamente voltará, vai procurar um novo romance, uma literatura pra se ver dentro do conto a história e semelhança e a cada personagem, um pouco mais de si mesmo.


No corredor do segundo andar frequenta os livros de literatura nacional. Manuel Bandeira que conta, seus livros existem aos montes por ali, vizinho de Machado e José de Alencar. Cada conto, Brás Cubas postumamente conta e salienta a procura do jovem que foi lá só por ele, e feliz, recolhe o que já é seu, predestinado, paga e leva, pra contentar horas do seu dia, seja qual for o assunto, o conteúdo, terá por lá a satisfação de pelo menos ter lido mais, ou pouco mais, dizer que leu e falar se vale apena ou não ser lido, pagando de crítico, de historiador, fez seu compromisso e levou adiante pra não morrer o que deve ser patrimônio e conservado para toda história.


Nesses cantos da cidade, nessas salas, nessas casas de bairro e até em barracas de rua, uma história bem contada em páginas quer ser conhecida e os leitores que perambulam sordidamente procuram um devaneio, procuram por satisfeito uma leitura cheia de pormenores pavores, ou romance, querem um encontro, um "encontro marcado" de Fernando Sabino para se encontrar nessa vida e quem sabe, para o jovem que o recolhe, o personagem dessa vez, Eduardo Marciano seja para ele a resposta do que será daqui adiante, antes que o mundo acabe uma solução pra si mesmo, um passeio de melancolia até euforia, verá o mundo acabar diante dos seus olhos como fez outro Eduardo, o Dussek que enquanto tocava ‘Nostradamus’ o sebo se recolhia, hora de fechar, deixar a procura para outro dia, não importa o que seja ou quando seja, por lá, em sebos por assim dizer, há sempre o que se procurar em uma tarde de devaneio.

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