Por Helena B Lorga

A Galeria Itapetininga aparenta ser um lugar como outro qualquer, mas é bem diferente. Ao passar pelo Centro de São Paulo, perto da Praça da República, na Rua Barão de Itapetininga, é possível fazer uma incrível viagem no tempo, mais especificamente à infância de cada um.  É quase impossível não se recordar da infância ao ver tantos brinquedos antigos nas vitrines, até porque abrange todas as décadas, mas, principalmente, as dos anos 80 para trás. Bonecas, Carrinhos, Jogos, Legos, Videogames, Forte Apache, enfim, são variados tipos de brinquedos do século XX, e alguns bem raros do século XIX. Ao se perder nas vitrines com tantas atrações, lembrar das histórias de nossos pais e avós sobre seus brinquedos, de como era o soldadinho de chumbo, o videogame Atari, o peão, a boneca Mãezinha, o navio de madeira, o jogo de batalha naval é uma experiência quase obrigatória. Quanto mais se admira, mais se relembra e mais emoção inunda a alma de quem visita o local.

          

Fotos: Helena B Lorga

Se prestar atenção em volta encontra-se o vendedor Paulo Rodrigues, que trabalha na galeria há dezesseis anos e é um dos três funcionários mais antigos que sobraram no local (os outros dois são o João e o Marcelo). Diz que tudo começou na década de 80, numa feira de brinquedos antigos que tinha na Praça Benedito Calixto, do bairro de Pinheiros. Algo que se iniciou de forma despretensiosa acabou rendendo muitos frutos e atraiu pessoas de várias partes, não só do Estado de São Paulo e do Brasil, mas também de outros países. Dessa forma, eles se mudaram para a Galeria Itapetininga no começo dos anos 90 e ainda permanecem no local. Diferente de barracas, os brinquedos ficam expostos nas vitrines, que sempre há alguma placa com os telefones dos vendedores e os horários que estão disponíveis. Alguns deles atendem diretamente na frente das vitrines, outros possuem escritórios. Sexta e sábado são os dias que mais tem gente. Também são possíveis a venda e a troca, mas isso depende muito do estado da peça, do brinquedo, bem como de sua época, que quanto mais antigo, melhor. “Não é tão fácil a troca, mas os vendedores sempre estão abertos à negociação”, afirma Paulo.

Ele diz ainda que já houve reportagens sobre a galeria em grandes emissoras de TV, bem como de rádios, jornais e revistas, inclusive do exterior, cujas matérias nos fizeram ter o conhecimento de que a Galeria Itapetininga é a única do mundo que vende brinquedos antigos. Inclusive, muitos estrangeiros foram no local, atraídos pelas notícias que leram. Uma história interessante é a de uma reportagem de um famoso jornal no Japão, cujos descendentes brasileiros conheceram a galeria e compraram vários brinquedos por causa de seus parentes da terra natal, que leram a reportagem e pediram para que seus parentes lhes comprassem e enviassem os objetos pelo correio.

         

Fotos: Helena B Lorga

Paulo explica que se essa galeria estivesse em algum país europeu, provavelmente ela seria bem mais valorizada, e fica triste dessa não ser a realidade do Brasil. Aqui, eles não têm nenhum apoio (nem de empresas, nem do governo), e o único incentivo é o dos jornalistas que fazem divulgação através de matérias. “A galeria faz parte da cultura de São Paulo e sempre atrai muitos colecionadores, compradores e mesmo só admiradores e curiosos, pois é legal passar o dia aqui. Creio que poderia ser mais valorizada”, desabafa. De fato, Paulo tem muitas histórias para contar de personalidades que já passaram por ali, como atores, comediantes, jogador de futebol, desembargador político, etc., cuja maioria é tudo colecionador. Alguns tiveram brinquedos na infância e querem relembrar ou completar a coleção já adquirida; já outros não nasceram em boas condições financeiras e não tiveram a chance de ter esses presentes, do qual adquirem agora para poder suprir essa falta.

A galeria se tornou um ponto para colecionadores, pois este tipo é a maior parte do público que a frequenta. Eles são variados: vai desde os que tem adoração por bonecas ou carrinhos, até os que adoram dinossauros. Paulo diz que coleciona tudo de astronomia, como foguetes, astronautas e até cápsulas japonesas dos anos 60. “Meu quarto é um verdadeiro planetário”, completa. Também afirma que os brinquedos mais procurados são os da marca Estrela (como o Falcon), os antigos autoramas, os batimóveis que aparecem Batman e Robin, as lanchas da Gulliver, os fortes apaches da Casablanca, as carroças e fortes de madeira (que eram feitos com bastante perfeição) e os variados brinquedos doas anos 80, tanto comerciais, quanto culturais, que tem bastante apelo.

             

Fotos: Helena B Lorga

Outro vendedor que conheci foi o Marcelo Patti, que faz parte da turma mais antiga. Ele afirma que o colecionismo é um mercado mundial e que o Brasil também faz parte dele: “Antigamente, os brinquedos brasileiros não tinham essa força que tem hoje, mas atualmente as marcas famosas, principalmente a Estrela e Metalma, são procuradas tanto no Brasil, quanto no exterior. Aliás, a Estrela é de 1937, ou seja, em 2017 ela faz oitenta anos, no qual relançará brinquedos que marcaram época”.  Marcelo também começou na feira de Pinheiros, em 1989, e entrou na galeria em 2001, se mantendo até hoje. Diz que a maior parte dos vendedores largaram o emprego que tinham e foram trabalhar na galeria porque são colecionadores e apaixonados por brinquedos, mas também por causa da crise econômica. “Para muitos, trabalhar com brinquedos era um plano B, mas agora se tornou o plano A. Eu, por exemplo, era professor de matemática, dei aula de 1987 a 2001, e trabalhava com brinquedos de forma paralela. Adorava dar aulas, mas resolvi abandonar e ficar somente com a venda de brinquedos, que também gosto muito e estou aqui desde 2001. Me adaptei a esse estilo de vida, ganhava mais antes, hoje está mais difícil, mas clientes sempre vão existir, basta ter boa mercadoria. No eixo Rio-São Paulo, sempre tem gente que quer completar a coleção”, conta Marcelo. Ele também comenta que apesar da crise econômica, os vendedores conseguem se manter na galeria, pois já se tornou um lugar conhecido por causa da divulgação das mídias.

Coleção de palhaços, esforço próprio e falta de infraestrutura no Centro
Ao entrar no escritório de Marcelo, vemos uma coleção de palhaços, sua verdadeira paixão. De todas as épocas e variados objetos, além de brinquedos (como relógios, discos, livros, porta-canetas, enfim), enchem as estantes e mesa do ex-professor de matemática. Aliais, há uma história muito interessante: Marcelo conheceu a sobrinha do palhaço Arrelia, Dayse Seyssel, que soube de sua coleção e presenteou-lhe com alguns objetos de seu tio. O de maior estimação é o livro “Arrelia e o circo”, com de dedicatória e autógrafo do próprio artista (conforme figura abaixo), que Marcelo guarda exibe com grande orgulho. Toda essa coleção de palhaços foi feita com o próprio esforço.

Fotos: Helena B Lorga

Tanto Paulo, quanto Marcelo dizem que ficam triste com a região central, onde a galeria está localizada, pois esta anda muito abandonada pelas autoridades. “O centro de São Paulo tem toda uma estrutura cultural, histórica e de infraestrutura física. Se a prefeitura investisse mais em sua conversação e segurança, poderia voltar a ter aqui mais empresas privadas e, consequentemente, compradores”, desabafa Paulo. Com relação ao incentivo do governo, Marcelo comenta: “Acho importante esse trabalho que nós fazemos de preservar a história, só que o problema de se fazer isso no Brasil é que precisa do incentivo municipal e estadual, e infelizmente o comerciante, o autônomo e o colecionador não tem incentivo nenhum por parte das autoridades. Acaba se tornando um trabalho solitário financeiramente, de esforço próprio, sem nenhum incentivo monetário”, considera.

Amor ao trabalho e aos brinquedos
É realmente admirável um negócio inovador como esse de vender brinquedos antigos. Não tem como a gente não sair outra pessoa depois de visualizar todas as vitrines, mesmo que não leve nenhum brinquedo para casa. Se levar, a emoção é maior ainda.

Com relação ao sucesso do empreendimento, Paulo afirma: “Trabalhamos com o emocional das pessoas, pois os brinquedos fazem lembrar de nossas infâncias, e isso é muito prazeroso, inclusive para nós mesmos (os vendedores) ”. De fato, o que mais se vê ali são pessoas que passam, olham por bastante tempo as vitrines e comentam com o colega: “Puxa, eu brincava disso quando criança, que saudade! ”, ou “Ah, tinha um desse aos dez anos. Que tempo bom aquele! ”, e coisas assim. Por fim, Marcelo completa: “Trabalhamos com cultura e arte, que é tudo o que se cria e preserva. A gente gosta do que faz, pois apesar de ser trabalho, também é uma paixão, e é isso que importa. Se a pessoa não tem paixão pelo que faz, não tem sentido, né!  Amamos trabalhar com brinquedos”, completa. *

Foto: Helena B Lorga

Para mais informações:
VENDA, COMPRA E TROCA DE BRINQUEDOS ANTIGOS
Galeria Itapetininga, Bairro da República (em frente ao metrô República):
-Há duas entradas: - Rua Barão de Itapetininga, 267
- Rua Sete de Abril, 356
Horário da galeria: de segunda a sexta, das 8h às 20h, e aos sábados das 8h às 16h (o horário varia para os vendedores)
Contatos:
Paulo Rodrigues: 2976-5088
Marcelo Patti: 3255-3236/ mapatti@ig.com.br/ pattitoys@gmail.com (site: www.pattitoys.com.br)

Foto: Helena B Lorga

 

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