Por Aquiles Rodrigues e Maria Tereza

Mais do que uma cidade musical, São Paulo é famosa pela sua diversidade cultural e convergência de estilos. E lugar nenhum representa mais isso do que a famosa Galeria do Rock, onde diversas “tribos” urbanas encontram tudo o que precisam para compor seu modo de vida.

O nome é menos conhecido do que seu apelido. O “Centro Comercial Grandes Galerias” é um prédio com 450 estabelecimentos localizado entre a Rua 24 de Maio e o Largo do Paissandu no centro da urbe paulistana. No fim da década de 1970 diversas lojas de disco começaram a se instalar no edifício ondulado de quatro andares projetado pelo arquiteto Alfredo Mathias. Aos poucos, o público frequentador foi se consolidando e o edifício ficou conhecido como a “Galeria do Rock”.

Mas nem só o rock domina o espaço, muitos outros estilos compõem o cenário do centro comercial e muito embora seja algo raro de se ver atualmente a Galeria já foi palco de brigas e disputas entre tribos urbanas. “Nos anos 80 eram tribos de verdade, os caras te batiam no corredor se você não fosse da tribo deles”, afirma Caroline Calanaca, vendedora da tradicional loja de discos “Baratos e Afins”. “Hoje eu acho que as tribos são mais ecléticas, eles já não são mais tão fechados no seu estilo. Pelo menos aqui na Galeria eu não vejo mais essas rixas acontecerem”. Caroline também afirma que os conflitos entre tribos são resultado de um comportamento infantil que não está mais presente no público atual, “a molecada cresceu”, e parece ser uma opinião comum a de que a chegada da internet ajudou nesse processo de amadurecimento. Ricardo Gouveia é formado em História, apaixonado pelo gênero metal e frequentador do local, afirma que as relações entre os estilos mudaram com o passar do tempo: “Ainda existem algumas pessoas que gostam de arranjar confusão, mas é diferente daquela época (anos 80). O uso das redes mudou isso. Hoje em dia o pessoal ainda briga, mas atrás da tela do computador”, diz.

A Internet certamente trouxe uma nova visão do mundo musical, influenciando o comportamento do público geral e do específico também. Rodrigo Peres, atendente da loja “13 Profecias”, especializada no movimento gótico, afirma que “com a chegada da Internet ocorreu uma maior miscigenação, então há pessoas que vem de fora do estilo e que também agregam elementos aqui e ali.” Como resultado de um processo de amadurecimento através do compartilhamento de ideias e informações, as tribos adquiriram um comportamento muito menos radical se comparado aos anos 70 e 80, dando assim espaço para um fenômeno de convergência e coexistência entre os diferentes gêneros musicais que habitam o espaço. Basta uma rápida caminhada por qualquer um dos sete andares do prédio para observar esse fenômeno.

No térreo, encontram-se lojas de tênis e “skate shops”; no primeiro e no terceiro andar, ficam as lojas de roupas, bottons, bijuterias, mochilas e outros acessórios consumidos por dezenas de estilos diferentes. Gerente da loja de camisetas Rockland, Sandro Oliveira reafirma: “Antigamente era uma coisa mais restrita, o público era menor. Hoje praticamente não tem tribo, né? Tinha até um certo atrito, mas hoje em dia não tem mais. Acho essa mistura muito bacana. O legal da Galeria é isso, se tivesse só um tipo de gente e só um tipo de comércio não seria legal”, considera.

No segundo andar, estão as famosas e ainda muito ativas lojas de discos e no quarto andar encontram-se espaços comerciais de arte e serigrafia. Há também os salões de cabeleireiro e diversas outros estandes que atendem desde o público geek e fãs de anime até tribos mais alternativas, isso tudo sem contar a imensa variedade de estúdios de tatuagem que se espalham por todos os andares. “Eu gosto daqui porque você encontra de tudo! Eu posso vir, terminar minha tatuagem e na saída eu ainda compro um acessórios legais ou uma camiseta nova. Dá até pra tomar uma cerveja nos barzinhos aqui dentro”, afirma Letícia Silveira, estudante de Publicidade e grande fã do gênero hard rock.

No subsolo em particular encontram-se produtos voltados para os fãs de esportes e o público hip hop. É lá que fica a loja “Players”, onde trabalha Felipe Lisboa. Ele diz que a procura por artigos da cultura negra é tão grande quanto os outros produtos que são encontrados na galeria. “O público da loja é a molecada que gosta de basquete, futebol americano e rap. A galeria do rock tem suas divisões. Aqui embaixo é a galera que gosta mais de cultura negra. São as lojas que mais vendem. A procura maior é mais pro lado do rap que pro rock. Tem ‘rockeiro’ que gosta de esporte também. Quando se fala de esporte agrega muita gente, então não tem isso de estilo musical. Acho importante porque acaba com o preconceito. É válido, é boa essa mistura”, opina.

O encontro de tantas “tribos” em um mesmo lugar é reflexo da grande mistura de culturas que é a cidade de São Paulo. A Galeria do Rock faz parte da história e é marco turístico indispensável para quem visita a cidade, sendo sempre lembrada como lugar onde todos os estilos são bem vindos.

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