“Parque de Divisões”. Os desdobramentos econômicos do fechamento da rua Palestra Itália

Por Alex Tajra e Gustavo Saad

  Noite quente de quarta-feira nos derradeiros dias do verão paulistano. É a estreia do Palmeiras na Copa Libertadores da América e os arredores do estádio Allianz Parque começam a ser tomados pelos torcedores. O jogo é só às 21h45min, mas quatro horas antes, concomitantemente com a chegada dos primeiros fanáticos, trabalhadores terceirizados começam a montar as grades que em alguns minutos fecharão a rua Turiassu.

"Vai pra lá, vai pra lá!", brada um policial militar exaltado a um grupo de camelôs com isopores empanturrados de latas e garrafas de cerveja. "Agora todo o jogo é a mesma coisa, eles chegam aqui essa hora e falam onde a gente tem que ficar", diz Edson*, que já trabalha há uma década vendendo cerveja, refrigerante e água na porta de estádios, em shows ou jogos de futebol. Ele aponta então uma linha imaginária traçada pela PM, indicada pela posição de uma Base Comunitária Móvel, quase na divisa entre a rua Turiassu e a Avenida Sumaré. "Se a gente passa essa linha, eles tiram o cassetete e tomam nossas bebidas", emenda o vendedor.

Edson, que gastou em torno de R$ 400 no investimento para os produtos da noite, conta que está tendo um prejuízo, mesmo que pequeno, por conta das novas diretrizes da Prefeitura, mas que o real problema são as apreensões, que aumentaram exponencialmente. "É melhor deixar de vender uma cervejinha ou outra do que perder tudo, né?", explica o ambulante, revelando que alguns de seus companheiros de trabalho desafiaram as ordens dos militares e tiveram suas bebidas confiscadas.

A reportagem observou, mais de uma vez, alguns desses entraves protagonizados por policiais militares e ambulantes. Numa dessas, um policial expulsava aos berros, empunhando um cassetete, um camelô que estava próximo a entrada do Shopping Bourbon na Av. Francisco Matarazzo. Em outro momento, dessa vez na Rua Padre Antônio Tomás, um vendedor não teve a mesma sorte. Enquanto um soldado colocava latas de cerveja e refrigerante na viatura, outro revirava o isopor deixando cair todo o gelo no asfalto.

Os ambulantes são apenas uma parte do comércio informal que acabou sufocada pelas novas políticas adotadas pela Secretaria de Segurança Pública. Os costumeiros sanduíches de pernil, praxe pra quem acompanha os jogos nos estádios da capital paulista, também estão sendo minados pela Prefeitura. As ruas Caraíbas e Diana, travessas da Turiassu, e que sempre foram ocupadas por dezenas de vendedores da iguaria, agora amargam um vazio desolador, trancadas pelas grades da Polícia Militar.

Jorge*, que há mais de trinta anos prepara sanduíches de pernil e calabresa na porta do Palestra Itália não sabe pra quem reclamar. "Nesse ano cheguei aqui e a polícia avisou que eu não podia ficar mais onde ficava. Tenho que andar pelo menos dois quarteirões pra cima do estádio, perdi muito cliente.", conta o vendedor depois do jogo. Por não ter registro e "não pagar impostos", como disse, Jorge não é bem quisto pelos bares e restaurantes da região e, junto com os outros vendedores de pernil, acabou entrincheirado na briga contra a Prefeitura.

Foto: Alex Tajra

Os camelôs ainda reclamam muito de uma atitude contraditória da Polícia Militar: enquanto as saídas do estádio da Av. Francisco Matarazzo ficam livres para o trânsito dos vendedores, na Turiassu os policiais traçam uma espécie de linha imaginária e não permitem que os ambulantes a ultrapassem. "A gente tem que vender, ou a gente espera aqui ou vai andando até o outro lado, que é uma canseira. Agora da pra entender um negócio desses? Aqui não pode e lá pode. Por quê?", questiona Edson, já decidido que iria respeitar o espaço designado pela polícia.

No dia seguinte a reportagem foi constatar qual o impacto das novas diretrizes da SSP nos comerciantes da região, principalmente bares e restaurantes, que vêm enfrentando uma queda de movimento considerável. "Estamos desesperados, não sabemos pra quem correr mais. Não aguento mais essa história", lamenta Jairo Costa dos Santos, logo que adentro seu restaurante e conto a proposta da reportagem. Gerente do estabelecimento há 5 anos, Jairo conta que nunca sofreu tanto prejuízo quanto agora. "Tivemos que demitir dois funcionários por causa desse fechamento das ruas."

Ao contrário do que pensa o senso comum, não é só de bebidas alcoólicas a demanda nos bares em frente ao estádio. "Toda quarta e sábado nós servimos feijoada aqui, e vem gente de todo o canto da cidade, independente de ser palmeirense ou não. Agora, com a rua fechada bem nesses dias, não vendemos quase nada. Os clientes vêm pra cá e ficam assustados com as barreiras da polícia.", explica Jairo. "Outra coisa, os torcedores que não podem pagar ingresso vinham aqui pra sentir o clima, ficar perto do estádio. E agora não podem mais? Isso não existe.", completa.

De acordo com Jairo algumas reuniões entre os donos de bares da região já aconteceram, e ele garante que ninguém é a favor do bloqueio. "Não tem como ser a favor disso aí não, pode andar e conversar com todo mundo por aí que você vai ver, ninguém é a favor dessa medida da polícia." De fato, com uma única exceção, todos os bares que a reportagem conversou se declararam contra o fechamento das ruas "da forma que está sendo feito". Inclusive um dos proprietários, que pediu para ter sua identidade preservada, revelou que está estudando entrar com uma representação no Ministério Público Estadual contra o fechamento das ruas.

O ponto divergente nessa questão é Wilson Quirino, que dirige um pequeno bar na rua Caraíbas há cerca de 10 anos. "Pra mim melhorou tudo, ficou mais limpo, tirou esses camelôs daqui. A gente paga impostos, paga isso, paga aquilo e ainda tem que lidar com esses caras que não pagam nada?", questiona Quirino. "A melhor coisa que já fizeram foi isso, tem que fechar mesmo", bradou. Além dos bares e restaurantes que preenchem os arredores do estádio, a região também é conhecida por abrigar dezenas de salões de cabelereiros que também estão amargando grandes prejuízos com a restrição imposta pela polícia. Ednelson Custódio, há vinte anos cortando cabelos na rua Turiassu, conta que, nos dias de jogos, perdeu mais de um terço dos clientes. "Costumava cortar mais de trinta cabelos, isso aqui ficava cheio. Agora se corto dez é muito. Eu vou ser sincero, estou assustado com isso por que é um fogo sem saída", explica Custódio.

O cabelereiro ainda revelou uma situação constrangedora protagonizada pelos policiais militares: "No último jogo tive que buscar uma cliente na barreira da polícia, tive de discutir com o policial porque ele não queria deixar ela passar. 'Só com ingresso', ele ficava repetindo, e eu tentando explicar que ela só queria cortar o cabelo. E o pior de tudo, é uma cliente minha antiga, uma senhora de idade que teve de passar por tudo isso. No fim, depois de vinte minutos argumentando, o policial deixou ela passar. Agora imagina se eu tenho que fazer isso com todos os clientes? Vou ter que feixar o salão".

Funcionários tercerizados retiram as grades da rua após o jogo contra o Jorge Wilstermann - Foto: Alex Tajra

Há quarenta anos aparando cabelos nos arredores do antigo Parque Antarctica, o italiano Rafaele é taxativo quanto ao fechamento das ruas em dias de jogo. "Não foi ruim, isso foi péssimo. Já estamos numa crise difícil e ainda temos que passar por isso, não consigo trabalhar. ", conta o cabelereiro. Depois das medidas tomadas pela polícia, Rafa, como é conhecido nas alamedas do Palestra, nem se dá ao trabalho de abrir o salão. "Eu sei que não vai vir ninguém. Eu fazia uns dez cabelinhos antes, nos dias de jogo. Sabe quantos eu fiz ontem? Nenhum." No dia em que conversamos, um cliente aguardava Rafa na porta do salão, antes mesmo de abrir. "Achei que o senhor não vinha, tem dia que você não vem mais", disse.

Origens e contestações


"Não vamos deixar o futebol morrer". A frase do cabeça de área do Palmeiras, Felipe Melo, dita no apagar das luzes do clássico contra o Santos, na Vila Belmiro, condiz com o momento particular que o esporte vive no País. As relações entre clubes, torcedores e federações estão cada vez mais conturbadas, submersas por padrões morais próprios de uma sociedade que assumiu explicitamente sua faceta conservadora. Instrumentos e bandeiras estão proibidos em São Paulo, e a ideia prepotente de torcida única agora está sendo exportada para outros Estados.

O fechamento da rua Palestra Itália durante os dias de jogos foi uma decisão tomada no rastro desse contexto e ainda contou com o apoio da Diretoria do clube. Sem qualquer debate com os torcedores e comerciantes, a Polícia Militar agora decide quem pode entrar na rua do estádio com base na posse do ingresso. Se você não tem o tíquete, não pode ir e vir naquele espaço. Desde então torcedores e proprietários vêm sofrendo com o posicionamento unilateral da Secretaria de Segurança Pública; os comerciantes da região colecionam reclamações e, em termos financeiros, estão sendo os mais prejudicados com a decisão do Governo do Estado.

Antes mesmo desta decisão da SSP, o atual prefeito João Doria Jr. já havia comprado uma briga com os ambulantes, os quais foram ainda mais avariados com a decisão de fechar a rua em dias de jogos. Antes de ser eleito, Doria surfou no argumento de que iria "limpar a cidade dos camelôs", e que a cidade sofria com a "total falta de controle". O prefeito cumpriu a promessa, persegue os camelôs e os trata como criminosos.

Rua Caraíbas, que tradicionalmente abriga os vendedores de pernil, fica vazia depois do jogo da Libertadores - Foto: Alex Tajra

O prefeito passou por cima de tudo, inclusive da própria lei, para aumentar o encalço em cima dos ambulantes. A Lei 13.866 de 2004 garante que a fiscalização do comércio ambulante na cidade deve ser feita pela Guarda Civil Metropolitana. A portaria 108, baixada em 2010 pela Secretaria Municipal de Segurança Urbana, reforça esse entendimento:

1.1. – O controle do espaço público e fiscalização do comércio ambulante passou a ser atribuição da Guarda Civil Metropolitana por meio da Lei 13.866 de 2004, e desde então tem sido desenvolvida pelas Unidades da GCM, dentro da realidade de cada região, mas especialmente na área central da cidade, realizada junto com as subprefeituras. Em 2008 foi criado o Programa de Controle do Espaço Público pelo Decreto 50.030/2008 e posteriormente reorganizado pelo Decreto 50.448/2009, que criou e estabeleceu as atribuições da Coordenação do Programa de Controle do Espaço Público e Fiscalização do Comércio Ambulante vinculada a Superintendência de Planejamento da CGM.

Doria ignorou as regras e concedeu à Polícia Militar a competência para fiscalizar os camelôs da cidade. Não só alterou de forma brusca as regras do jogo, já que a PM não recebe treinamento nem diretrizes suficientes para lidar com esse tipo de situação, como militarizou um debate que deveria ser sobre a ocupação dos espaços públicos. Responsáveis por administrar esse tipo de conflito, as associações e instituiçoes que zelam pelos comerciantes nada fizeram para debater a situação. "Ninguém avisou a gente, simplesmente chegaram aí e colocaram as grades. Já nos organizamos pra marcar uma reuniçao, reclamamos pra Associação de Bares e Restaurantes, mas ninguém fez nada", explica Jairo.

Superintendente da divisão centro da Associação Comercial de São Paulo, Carlos Prisco confirma as palavras do gerente: "Eu sei que prejudica os bares e restaurantes, que estão tendo prejuízo, mas não podemos fazer nada. As pessoas têm que se organizar e entender as novas condições que estão sendo impostas. Têm que se adaptar", diz Prisco. O porta-voz da entidade, contudo, disse que não foram registradas reclamações na Associação Comercial, e que sem a manifestação dos bares é impossível tomar alguma atitude.

Procuradas pela reportagem, a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) não respondeu às questões. A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo e a Secretaria Municipal de Segurança Urbana também não quiseram se pronunciar em relação às reclamações dos comerciantes.

*Alguns nomes foram alterados à pedido dos entrevistados

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