Por Helena B Lorga

O passeio de Maria Fumaça, do trecho Campinas-Jaguariúna, é rico em cultura e história, além do trem passar por paisagens lindíssimas. Tudo começa na estação Anhumas (em Campinas) com uma atmosfera do início do século XIX. Músicas antigas que os violeiros tocam no lugar (mais especificamente as de Adoniran Barbosa, Chiquinha Gonzaga entre outras), com os funcionários vestidos à caráter, além do delicioso e tradicional café e pão de queijo, que são vendidos na cafeteria. Até mesmo os banheiros têm o seu charme, com a separação de “Damas” e “Cavalheiros”. Depois de entrar no clima retrô do local, os maquinistas explicam como funciona a locomotiva a vapor, a preparação da Maria Fumaça, a queima da lenha, o movimento das braçagens, a importância da areia nas ferrovias para que o veículo não derrape, e o mais emocionante: o sino e o apito.


Foto: Divulgação

A bordo dos carros de madeira (é assim que se chamam os vagões de passageiros) a viagem realmente começa. Primeiro passa-se por várias paisagens rurais com animais pastando, cavalos, fazendeiros e todo aquele clima de interior. Porém, infelizmente isso está acabando, pois já é possível notar vários condomínios fechados onde antes eram fazendas.  É meio melancólico, mas a viagem segue.

Ao longo do trajeto os monitores explicam sobre os locais onde o trem está passando, os principais pontos de interesse, a história de Campinas, das estações de trem, das sedes das fazendas, bem como aspectos interessantes das plantações, do gado leiteiro, dos vaqueiros e da modernização da região. Uma verdadeira aula de história sobre o oeste paulista.


Foto: Helena B Lorga

Algo muito interessante que ocorre na viagem é a passagem por uma antiga fazenda de café, que já tem quase três séculos, chamada “Fazenda Engenho das Palmeiras”, onde foi gravado filmes e novelas nacionais e internacionais, como a “Rei do Gado”. A história desse local é bem peculiar: foi criada em meados do século dezoito pelo capitão José dos Santos Cruz, sendo uma das primeiras fazendas da região (aliais, a única que funcionou um antigo engenho). Começou com a cultura do açúcar, passando pelo algodão e depois o café. Na época áurea do ciclo cafeeiro, os escravos faziam o trabalho completo, desde o plantio, passando pela colheita, secagem e ensacamento, do qual o produto já pronto era levado pelas estradas de terra, através de carroças, até chegar ao porto de Santos para exportação. Por isso que foi criado, mais para frente, as linhas de trem: para que houvesse um transporte mais rápido e seguro das sacas de café.


Foto: Helena B Lorga

No século VIII havia o costume dos nobres darem uma muda de palmeira, vinda de Portugal, para cada filho que nascia na família do barão. Por isso que há várias delas bem na frente da casa, para que o presente fosse exibido a todos. A fazenda passou a ser propriedade de vários capitães, mas atualmente pertence a Aloizio Queiroz Teles. Ela possui um lago, alguns alqueires de mata original, galpões, móveis antiquíssimos, antiga senzala, um casarão centenário, grande terreio de café, moinho e toda uma estrutura colonial.

Na continuação da viagem, as ferromoças andam de carro em carro do trem para vender inúmeros tipos de presentinhos, como: camisetas, brinquedos, doces, enfeites, lápis, etc. Assim, você já compra alguma lembrança do passeio. Ao olhar pela janela, a paisagem já está bem mais rural do que antes, além de passarmos pela ponte do rio Atibaia.

           
Fotos: Helena B Lorga

O trecho passa por seis estações, que são (por ordem de chegada): Anhumas (de onde parte o trem), Pedro Américo, Tanquinho, Desembargador Furtado, Carlos Gomes e Jaguariúna, que é o ponto final. Com relação à Tanquinho, os funcionários explicam o funcionamento do trem a vapor, apelidado pelos portugueses de Maria Fumaça. Também é possível ver peças do veículo expostas na estação, bem como um telefone centenário que funcionava a manivela.

A viagem tem prosseguimento e o trem é preparado para ajudar a matar a fome. No primeiro carro há um restaurante com mesas, onde são vendidos vários tipos de lanches. Aliás,  pode-se andar tranquilamente entre os vagões enquanto o veículo está em movimento. Carlos Gomes também merece ser citada, pois não tem esse nome por acaso. Foi dado em homenagem ao compositor campineiro, nascido em Campinas no ano de 1836 e considerado o mais importante compositor de ópera brasileira da Era Romântica. Seu principal trabalho foi “O Guarani”. Teve destaque na Europa, cujas obras foram apresentadas no Teatro alla Scala. Além disso, é o patrono da cadeira número 15 da Academia Brasileira de Música.


Foto: Divulgação

Essa estação também é mantida pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF) e abriga as oficinas de restauração das ferrovias. De acordo com o site Wikipédia: “A estação Carlos Gomes substitui uma estação homônima, quando da mudança do traçado da linha-tronco da Mogiana. Sua utilidade estava no embarque de café e gado das fazendas da região. Em 1968, a estação foi transformada em parada e em 1977 foi desativada. A partir de 1981, a ABPF reativou a estação, utilizando-a como oficina para restauração de carros de passageiros, vagões e locomotivas.”.


Foto: Helena B Lorga

Com a viagem já bem percorrida, aparece o Trio Maria Fumaça, um grupo de violeiros que canta uma variedade de nostalgia musical, com clássicos da música brasileira, como o “Trem das Onze”. Dessa forma, eles percorrem todo o trem, divertindo os visitantes com boa música.

Por fim, chegamos ao viaduto “Maria Fumaça”, que marca o ponto final, na cidade de Jaguariúna. Essa última estação foi desativada na década de 70. Conhecida como a “Estrela da Mogiana”, é muito importante, pois é daí que partem os trens para Pedreira. Além disso, há a feira de artesanato, além do museu ferroviário que mostra o retrato do início do século XX. O público também pode tirar fotos com roupas antigas nesse museu, além de apreciar seus elegantes bares. A viagem termina, mas suas lembranças permanecem.

         

Fotos: Helena B Lorga

CONTEXTO HISTÓRICO

A sensação de nostalgia é muito clara nessa viagem ao longo da ferrovia Campinas-Jaguariúna, com locomotivas à lenha do final do século XIX. Antigamente, o objetivo principal desses trens era transportar o café até o porto, cuja malha ferroviária de Campinas estava em plena expansão, considerada na época o maior entroncamento de trilhos da América Latina. Hoje, sua missão é conduzir os turistas ao longo de suas linhas.

Mas a história começa mesmo é na economia cafeeira, que trouxe muita riqueza para o Brasil. Entre a segunda metade do século XIX e início do século XX, a região de Campinas concentrava boa parte da cultura do café, o que era considerada uma cidade muito próspera por conta disso. Dessa forma, surgiu a malha ferroviária com 36 estações de trem, para facilitar o transporte do café.

Uma curiosidade é que as estradas de ferro de Campinas formavam o desenho de uma estrela de cinco pontas, onde cada uma chegava a qualquer lugar do Estado de São Paulo, além dos estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Goiás e Rio de Janeiro. Das seis maiores companhias férreas de São Paulo, duas nasceram em Campinas- a Paulista e a Mogiana. O trecho percorrido de Campinas – Jaguariúna é remanescente da ferrovia que saia de Campinas e ia até Araguaia (MG). A Companhia Mogiana de Estrada de Ferro foi fundada em 1872 e desativada em 1971.

(Café sendo embarcado no porto de Santos em 1880, por Marc Ferrez)

Atualmente, o passeio de “Maria Fumaça” é realizado pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), uma ONG fundada em 1977 e que trabalha pela preservação, conservação e reforma da memória ferroviária do país. Assim, toda a renda obtida com os passeios serve para a manutenção da associação, bem como restauração dos veículos e de seus componentes.

Nas locomotivas restauradas, a Maria Fumaça número 302 é a mais antiga, da qual foi fabricada em Manchester, na Inglaterra, em 1896, e hoje em dia é usada na gravação de novelas e comerciais. Entre os carros de passageiros, o mais antigo é o de 1893 e aposentado em 1968, com 75 anos de uso. Ele foi construído nos Estados Unidos.

Hoje, o trecho Campinas-Jaguariúna é dedicado somente ao turismo, onde o veículo anda a 40 km/h e passa por fazendas centenárias de café, antigas estações, campos, uma parte do Rio Atibaia e lugares onde a modernização tomou conta. Esse trecho é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc: http://campinas.sp.gov.br/governo/cultura/patrimonio/index.php).


Foto: Divulgação

 

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