Por Caio Anzei Gonsales e Júlia Cabral Mathias Pereira

 

O sol já era aparente, apesar de serem 8h da manhã; Próximo a uma oca de concreto, crianças brincavam, sorriam e conversavam em sua língua mãe, o Guaraní. Era uma típica manhã na aldeia Tekoa Pyau, exceto pela presença de dois estranhos que buscavam conhecer o dia-a-dia daquela gente.

Dias antes, esses mesmos estranhos – estudantes de jornalismo – procuravam um estudioso ou especialista em causas indígenas, encontrando assim uma professora de Ciências Sociais da PUC-SP que se disponibilizou a conversar e contar um pouco da situação desses povos.

 

O olhar de uma “especialista”

Lucia Helena Vitalli Rangel, é doutora em Ciências Sociais – focada em Etnologia Indígena e Assessora do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Sendo questionada sobre como os povos indígenas remanescentes vivem no seu território e com a influência de uma grande cidade, como a capital paulista, a professora respondeu que a população indígena brasileira, no geral, perdeu muito espaço, e ficou acuada em determinadas regiões. Deste modo, vem sofrendo muito com a falta de terra; mesmo que em, algumas áreas, possuam terra demarcada suficiente para reproduzir a vida social.


Foto: Júlia Cabral

“Quando a terra demarcada para a aldeia é suficiente para a reprodução social e biológica da aldeia, naturalmente a população indígena tende ao crescimento, eles vivem em paz e com terras férteis”. Porém, quando “a população indígena vive em um local em que a terra não é suficiente, ocorre um inchaço populacional; assim começam as migrações para as cidades ou outros locais e quem fica na aldeia se esforça para sobreviver naquele espaço”, completou.

Alguns dos problemas que Lucia destacou como mudanças que influenciam negativamente a vida de uma aldeia e os força a alterar seu cotidiano, são o desmatamento no entorno da área indígena (prejudicando a caça e a pesca), contaminação da terra por agrotóxicos e contaminação das águas.

Contou também que há populações indígenas que vivem em áreas urbanas, mas a convivência nem sempre foi pacífica. “Esse fenômeno de migração para as cidades já é antigo, mas em uma determinada época os indígenas iam para a as cidades e ocultavam sua situação, escondiam ser indígenas, para fugir do preconceito nas grandes cidades.”

Esses indígenas habitantes de zonas urbanas vivem sobre todo tipo de situações e modos de vida, porém “viver na cidade não significa deixar de ser índio, eles não precisavam mais se ocultar, esconder a situação indígena. Na cidade de São Paulo a população indígena é grande e os povos originários daqui são os Guaranis que vivem em aldeias urbanas, têm três em Parelheiros, duas no Jaraguá. Os Guaranis têm suas peculiaridades de viver do seu jeito mesmo, falar sua língua, manter sua religião. Agora no restante, eles se adaptaram, andam de roupa, vão a escola seja ela na aldeia ou fora, trabalham e vão para universidades. E o restante da população indígena que é a maioria, estão vivendo em favelas”.

Há ainda uma grande demanda por educação. “A associação SOS Pankararu trouxesse aqui para nós na PUC uma demanda para estudo universitário, no qual a proposta foi encaminhada e depois foi criado o Programa pindorama, que abriga os estudantes indígenas. Os alunos não pagam a faculdade, até porque eles não têm condições financeiras e, além disso, precisam trabalhar para ajudar a família e se sustentar”, disse a professora .

Questionada sobre a tecnologia e como interfere nas tradições e costumes tradicionais dos povos, Lucia respondeu aos estudantes que esta tem sido apropriada, principalmente, pelos jovens indígenas e o que torna isso interessante é o fato de usarem muito a internet, blogs, sites, facebook, “para divulgar a sua cultura, os seus objetos, para vender artesanatos e também para fazer discussões políticas. Não tem essa de que a tecnologia vai lá e descaracteriza a população indígena, a tecnologia é necessária mesmo que ela seja supérflua, ela é um produto de obsolescência muito rápida, está sempre em mudanças para estimular o consumo. Se pensarmos bem, motor de barco, caminhão, automóvel, fogão a gás, geladeira, computador, celular, é o padrão tecnológico atual, no qual ajuda na comunicação e no dia a dia das pessoas. Não é algo que vai acabar com as culturas tradicionais da sociedade indígena.”

 

Tekoa Pyau

A partir das informações recebidas pela socióloga, os jovens entraram em contato com um Guarani Mbyá e marcaram uma visita a aldeia Tekoa Pyau, no Jaraguá (SP), para conversar sobre os efeitos desse contraste e quais suas opiniões sobre as mudanças no seu cotidiano.

David Karai Popygua, 29 anos, morador da aldeia e liderança indígena brasileira, ficou disposto a conversar sobre a história e situação de seu povo.

Foto: Júlia Cabral

Ao chegar à aldeia pela simplicidade do local. Crianças brincavam, sorriam e conversavam em sua língua mãe, o Guarani, e estranharam nossa aproximação. Logo David veio nos receber e nos guiou à casa de reza, para seu povo Opy.

Pediu licença para fumar seu cachimbo, alegando ser algo feito todas as manhãs e após acendê-lo, ainda um pouco nervoso com a presença dos estranhos, iniciaram a conversa.
Contou que atualmente a comunidade tem 700 pessoas e eles tem uma vida difícil por ser uma aldeia tão próxima à cidade. “Para nós não é a aldeia que entrou na cidade é a cidade que entrou na aldeia. Para os Guarani a história do Brasil que é contada não representa em momento algum a realidade que nós enfrentamos para que hoje tenhamos nossa língua, nossa cultura e ter o nosso conhecimento.”

 

A relação com o juruá

David, relatou que hoje em dia recebem as pessoas na aldeia, mas o lugar que estávamos, a casa Sagrada, por exemplo, até uns anos atrás ainda não entrava o Branco, apenas indígenas.
Falou que não gostam de ser chamados de “índios” e como cada povo chama o homem branco e determina a relação com o colonizador.

Indignado, reclamou que toda a “sabedoria do não indígena é a partir de 1500, quando Pedro Álvares Cabral ‘descobriu’ o Brasil, foi o início da colônia e o Brasil hoje é um país grande, em desenvolvimento um país do futuro, a gente ouve muito isso. Mas qual é o Juruá que pode contar a história antes do ano de 1500? Que pode contar a história da existência dessa terra, nós temos essa sabedoria e não somos valorizados, quando o Juruá chegou aqui ele encontrou uma terra muito protegida, com a natureza bem cuidada, diversidades de fauna e animais, águas limpas. Nesse período no século XVI a europa já estava devastada, a natureza já não era a mesma.”

Por isso, acha que hoje seja necessário que as lideranças indígenas contem para os não indígenas a história como foi de verdade, “porque nunca houve uma atenção no processo de formação dos jovens brasileiros e da universidade de trazer essa realidade para suas grades curriculares, essa verdade foi ocultada durante muito tempo”, mas sabe que esse seria um processo lento, “pois muitas universidades são conservadoras e a gente precisa trabalhar uma forma de dar voz aos povos indígenas, ao verdadeiro povo da terra, a luta mais antiga de resistência desse País.”

 

Luta por terras

Alegou que ainda os indígenas lutam por liberdade, pois “o estado ainda não conseguiu se desenvolver a ponto de respeitar o direito dos povos originários.”

“Aqui no Jaraguá é a menor terra indígena do país, aqui no Brasil existe mais de 680 terras indígenas. Possuímos aqui 1,7 hectare de terra, menos de dois campos de futebol, para um povo ter a sua língua, sua cultura, sua agricultura, a pesca, caça e toda a sua forma tradicional de vivência”, disse. Continuou dizendo que “o povo Guarani está presente no ES, RJ, SP, PR, SC, RS, Paraguai, Uruguai, Argentina e Bolívia. Nós somos o maior povo indígena da América do Sul, no Brasil é o quinto maior povo e é o que menos possui terra demarcada. Muito dessa pequena terra demarcada se dá pela nossa forma de resistência, que é a de evitar o conflito, a guerra.”

Disse ainda que, na cidade de São Paulo são “o único povo que permanece e que possui terra demarcada, estamos lutando para manter nossa forma de vida, nossa cultura, língua. Existem ações do Estado contra a nossa existência, nossa luta pela demarcação de terra já é antiga. O governo do estado de São Paulo entrou com uma ação contra nós, para nos tirar daqui. Aqui na nossa aldeia nós temos o maior índice de mortalidade infantil de São Paulo. Nós também sofremos com os impactos urbanos na nossa forma de viver. A poluição do nosso lago, na época dos meus avós, eles bebiam dessa água utilizavam essa água para cozinhar e agora está totalmente poluído e cheio de esgoto, ainda mais depois que criaram esses bairros aqui perto: Jaraguá, Sol Nascente, Perus…”

 

A resistência

A resistência dos Mbyá é feita na Opy, casa de reza. Eles se reúnem “para rezar, cantar, pedir para Nhanderu, ‘O Nosso Pai’, e para nossas divindades para nos dar força para continuar lutando pelos nossos direitos é assim que a gente faz a nossa luta. Primeiro a gente fortalece nosso espírito, para depois conseguir sucesso. Enfrentamos muita dificuldade, porque parece que cada vez mais o não indígena vive de uma forma inconsequente e não querendo prever o que vai acontecer com essas ações que são tomadas atualmente.”

 

Relação com o meio ambiente

O desmatamento, e modo de vida capitalista, em sua visão, acaba com a fauna e a flora das terras. “Nosso modelo de vida ameaça o capitalismo, pois é um modelo que não depende da produção em massa, e não estimula a acumulação de capital. É um modelo de vida onde todos têm as mesmas oportunidades e ninguém tem mais direito que ninguém.”
Um exemplo disso é eles não comerem a carne do açougue, “porque essa carne foi abatida de forma cruel e o espírito dele repercute. Nossa caça é só para o consumo imediato, para subsistência, não estocamos carne ou caçamos para vender. Você se alimentar de um animal matando ele de uma forma brutal, o espírito dele, o sangue dele envolve seu organismo.”

Outro é o impedimento de destruir a terra por ser esta que mantém o povo, pois acreditam ter ter vidas passadas. “Nosso tempo é diferente do não indígena, nós não vivemos olhando somente para frente, nós olhamos muito para o nosso passado e para o que o nosso povo já passou. Em uma aldeia Guarani não tinha fome, não tinha hospital, não tinha doentes e em uma aldeia Guarani todo mundo comia a mesma comida. Comiam carne, cereais, bebiam água e viviam bem de saúde.”

Há ainda o consumo consciente de alimentos, cultivar em tempo certo, apenas alimentos e sementes orgânicas e o uso de tempo certo para trabalho e lazer. “Nós temos tempo para ficar com a nossa família, de manhã cuidamos da roça, na volta ficamos com a família, fuma um cachimbo, toma um chimarrão, fica na fogueira. A nossa forma de relação com o tempo é diferente e a gente vive muito mais a família, muitas vezes o não indígena não entende isso e nos rotula como “preguiçoso”. Mas sabemos que o sonho de todo Juruá é ter uma terra, uma parte de mata, com um rio para aproveitar e passar o tempo com a família. Qualidade de vida não é estar na cidade, não é ter dinheiro e sim ter tranquilidade, ter um ar puro para respirar, um rio limpo para poder pescar e ter uma relação com a terra melhor.”

Ao fim da entrevista, o Guaraní Mbyá agradeceu a visita e a oportunidade que teve de contar sobre seu povo e mostrou aos jovens um pouco da aldeia enquanto iam em direção a saída da propriedade. Neste percurso passaram novamente pelas crianças, que brincando, rindo e conversando estranharam a presença dos “intrusos”.

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