Cultura jornalística em transformação: a relação entre assessorias de imprensa e redações

O campo jornalístico está em constante transformação. Desde a revolução industrial, alguns pontos marcaram fundamentalmente a forma de se produzir e transmitir notícias. Adventos como o telégrafo, o telefone, o rádio, a televisão, e agora a internet, reconfiguraram as redações e criaram novos modelos de produção e de negócio. Concomitante às mudanças da ‘era digital’, entrou em cena outro fator importante a essa nova etapa de mudanças: a ascensão das agências de comunicação corporativa. Para Paulo Araújo, jornalista com mais de 10 anos de carreira e passagem por veículos como Folha de S. Paulo e Gazeta mercantil, além de agências de comunicação, o crescimento deste mercado tem pontos positivos, mas há muito o que se melhorar na relação entre a redação e a assessoria. “A relação ainda é muito de desconfiança. O jornalista tende a achar que o assessor está lá para esconder algo dele, e o assessor sempre fica na cabeça que o jornalista pode enganá-lo na pauta e publicar uma matéria negativa que o deixará em má situação com o cliente”, explica. Desde que começou sua carreira, Paulo percebe que o tempo é cada vez mais curto dentro das redações, e a apuração por telefone ou e-mail vem ganhando cada vez mais espaço. “Dificilmente o jornalista consegue algum tempo e apoio da Redação para fazer algo de fora, com mais investigação”. Este cenário é propício para a atuação do assessor, e pode explicar o crescimento do setor nos últimos 25 anos. “Vejo que hoje as Redações são muito mais pautadas pelas assessorias do que acontecia antes, e isso se deve um pouco a essa falta de tempo que mencionei. O jornalista está cada vez mais pressionado e sem tempo de sair em busca das informações, então quando a informação chega a ele mastigada por meio de um assessor, facilita a vida”, conclui. Helena Prado, jornalista com mais de 10 anos de atuação e proprietária da agência M2 Press, concorda que a falta de tempo tenha contribuído para este cenário, mas vê os assessores como parceiros dos repórteres. “As assessorias conseguem de fato ajudar os jornalistas com apuração e disponibilidade de fontes”, pondera. Entretanto, Helena entende que há um viés não necessariamente negativo às redações, mas desafiador, que é a questão dos Media Trainings, treinamentos de comunicação voltados a porta-vozes. “As fontes estão mais treinadas, o que dificulta ao jornalista captar um furo ou uma informação que a fonte não esteja querendo passar”. Mais experiente dentre os três, Zanone Antunes, jornalista com 35 anos de atuação e passagens em jornais como O Globo, Correio Brasilense, Estado de São Paulo, Gazeta mercantil , TV globo e Valor Econômico, entende que as assessorias tem uma importância muito grande para o exercício do jornalismo em decorrência da dinâmica atual das redações, mas vê com preocupação a relação entre as duas partes. “A assessoria não deve ser uma fonte de informação por que a mídia coorporativa privilegia o negócio. Uma coisa é informação e outra informação comercial. O papel do jornalismo é informação e essa não pode ser de forma alguma tendenciosa”, explica. Outro impacto apontado por Zanone refere-se à mão-de-obra. Em um contexto de redações mais enxutas, com menos profissionais fazendo mais tarefas, muitos profissionais buscam emprego em outras áreas, como na comunicação corporativa. “É um mercado de trabalho. Cada vez mais a mídia coorporativa absorve a mão de obra, é uma questão matemática, uma vez que não existem tantos postos de trabalho em jornais e revistas para o tanto de profissionais que estão se formando”, conclui.

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