Música e mídias sociais: uma cultura em movimento

A consolidação das mídias sociais impactaram objetiva e subjetivamente a forma como nós nos relacionamos conosco, com o outro, com o conhecimento e as expressões artísticas, dentre tantas outras influências diversas. Sobre a arte, especificamente sobre a música, além destas manifestações intra e interpessoais, o desenvolvimento de novas tecnologias, plataformas e mecanismos refletiram sobre toda uma cadeia produtiva que há muito não sofria interferências. Pode se questionar a diferença de qualidade de gravação, em termos técnicos, entre um vinil, uma fita e um CD, mas os três compartilham de uma mesma forma de se produzir, vender e consumir música. O que mudou a partir da invenção do YouTube, do Spotfy, entre outros? Segundo a cantora e compositora Laura Lavieri, a visão sobre estas novas plataformas deve ultrapassar um  juízo de valor dicotômico. "Acho bobagem classificar como bom/ruim. É o que é. A internet está aí e precisamos aprender a usufruir dela, contornando os perigos”. A cantora percebe, no entanto, que há falhas que devem ser corrigidas, especialmente no que diz respeito à valorização artística. Segundo ela, a remuneração dos músicos que trabalham por intermédio destes mecanismos não é tão transparente como deveria ser, mas o caminho está se aperfeiçoando. “Algo muito importante de ser revisto, e num ótimo momento para tal, é a questão de direitos autorais e reconhecimento das produções: a questão das fichas técnicas e a distribuição da remuneração ainda está caminhando a passos lentos, mas vejo muito trabalho sendo feito e muita gente lutando para que isso se equilibre", afirma.

Laura Lavieri

Laura atua profissionalmente há 13 anos, e seu trabalho mais conhecido teve início há 10, ao lado de Marcelo Jeneci, com quem gravou dois álbuns e excursionou pelo Brasil e pelo exterior. Sua paixão pela música, no entanto, a acompanha desde a infância. "Começa com meu pai, músico e cantor, autodidata, tocava vários instrumentos. Me passou o amor pela música. Não demorou para eu começar a aprender um instrumento. Dos 7 aos 19 estudei violoncelo. Toquei em quartetos e em orquestras", lembra Laura. Apesar disso, seu caminho sempre rumou em direção ao vocal. "Sempre sonhei em ser cantora. Aos 14 me apresentei pela primeira vez "profissionalmente" cantando. Aos 16 integrei minha primeira banda, e aos 17 comecei um trabalho com o Marcelo". Hoje, aos 27, está gravando seu primeiro disco solo. O multinstrumentalista Rodolfo Rodrigues, mais conhecido como Rods, compartilha desta visão sobre a remuneração, mas também elenca outros fatores que, em sua visão, trouxeram uma mudança positiva de cenário, como o acesso à música fora do circuito mainstream. “Eu sou adepto dos aplicativos de streaming. Sei que o repasse para músicos que não fazem parte do mainstream é mínimo, mas em termos de democratização da música e discos, eu acho demais. O acervo de arte e música no seu bolso é uma parada que não tem como ser fã", afirma. Como músico autoral, no entanto, lembra que o cenário não se resume ao consumo de música online, cujo impacto dessas plataformas foi positivo. No que se refere a shows e espaços, o músico afirma que os reflexos esperados dessa democratização de acesso à música não se concretizaram, e os músicos independentes e/ou menos conhecidos ainda tem uma árdua batalha pela frente. "(Sobre o mercado de shows) eu tenho uma percepção um pouco mais pessimista. Percebo que as casas de shows pequenas e que batalham pela música autoral estão minguando, sobrando espaço somente para aqueles que já tem um público conquistado", lamenta. Atualmente, Rodolfo integra a dupla City DC junto a Gabriel Altério. Ambos acabaram de produzir o primeiro álbum, Rods nos teclados e Gabriel na bateria, mas a música já integra há tempos a vida de ambos. "Venho de uma família muito musical, mesmo que nenhum membro da família tenha se profissionalizado. A música entra de vez na minha vida aos 12 anos quando começo a cantar e tocar as músicas que gostava no colégio, aquelas bandas de rock da adolescência são importantes demais. De lá pra cá nunca parei de fazer música" lembra Rodolfo, que profissionalmente já gravou outros dois trabalhos com Dalai, músico da cena independente brasileira, além de ter escrito e apresentado programas sobre música, cinema e artes plásticas.

City DC - The Unbelievable

Há muito tempo colecionador de vinis, Rods entende que um dos impactos destas novas tecnologias é justamente a diminuição no consumo de outras plataformas. "Os discos físicos vão diminuir, isso já acontece. Eu era comprador de discos e com a chegada do streaming percebi que diminui muito o meu consumo", afirma. Mas, ao mesmo tempo em que compreende esta mudança, Rodolfo acredita que o público em geral ainda não está totalmente familiarizado e não as utiliza em seu pleno potencial. "Eu gostaria que o público fosse curioso o suficiente para interagir com essas ferramentas. Descobrir novos sons e querer escutar ao vivo. Seria ideal. Um nicho faz isso, mas acho que o grande público ainda não interage assim e não tem o interesse em descobrir o que foge do seu cotidiano", pondera. Laura, por outro lado, entende que ainda estamos em um momento de mudança e adaptação. "O mercado hoje está num processo confuso, como o mundo todo, na verdade. Estamos todos aprendendo a viver num novo mundo, que tem outro tempo e outros meios”, afirma. Ainda assim, a cantora vê de maneira otimista este processo, pois abre as portas para uma liberdade muito maior. Segundo Laura, a partir do momento em que já tivermos amadurecido e criado consciência do que é possível atingir com estas mudanças, o mercado musical se transformará completamente. “Quando se consegue isso, pode se alcançar os céus. Há uma brecha pra que se construam novos caminhos, sustentáveis, rentáveis, livres e criativos, mas isso demanda um grande trabalho e coragem", pontua. A cantora, que assim como a dupla do City DC também em um processo novo com seu primeiro álbum solo, lembra ainda que a forma com a qual as pessoas se relacionam com a música também está em transformação e há um universo a ser explorado, caso seja compreendido e bem trabalhado. "As ferramentas digitais refletem e estimulam esse novo tempo: a música agora tem outro tempo: o que antes era o tempo de achar um disco, tirar da capa, botar na vitrola, virar o lado, ouvir um disco todo, hoje é navegação em abas, shuffle, singles, nuvens, multimídia, vídeos, disco-filme. Temos que abraçar essa amplitude e aprender a navegar nesses novos mares", defende. Gabriel Altério, baterista do City DC, compartilha da visão otimista de Laura, e pontua também outros benefícios, como a liberdade criativa. "Acredito muito no independente, acho que as redes sociais acabaram com a obrigatoriedade de se vincular a qualquer gravadora. Estou vendo muita gente boa aparecendo na cena no mundo todo, e as produções estão cada vez mais criativas e com uma impressão digital muito forte", afirma. Além disso, o baterista traz ainda a questão sobre o acesso e as influências em nível global que foram possibilitadas a partir da internet, bem como a ampliação de possibilidades culturais dos ouvintes. "Acho genial e essencial as plataformas digitas, hoje podemos ter acesso ao trabalho de alguém que está em qualquer lugar do mundo, isso é maravilhoso. E o público também tem um leque muito grande de opções musicais para acompanhar", conclui. O produtor musical Pedro Botto, da Área 51 Studios, compreende estes pontos positivos, mas não vê este fenômeno de forma tão otimista quanto os outros. Apesar de perceber que existem músicos que conseguem ganhar dinheiro sem vínculos com grandes gravadoras, Botto entende que há ainda um abismo entre os dois mundos: mainstream e underground. "De fato, há artistas que vivem da renda que conseguem de visualizações no Youtube, mas é muito desproporcional o retorno financeiro que um artista independente obtém em comparação com pessoas que muitas vezes tiveram apenas uma música de sucesso, elevadas a tal condição pela atuação de algum produtor envolvido nos principais meios de comunicação", pontua.

Pedro Botto (esq.) na Área 51

O principal paradigma, segundo Pedro, ainda está distante de ser quebrado: centralização do mercado da música. A disparidade na remuneração entre os dois "tipos" de musicista e a falta de espaço que o independente tem nos meios tradicionais, como o rádio, se dá pela monopolização deste mercado. "Uma pequena quantidade de produtores estão por trás de praticamente todos os artistas da cena estabelecida, no Brasil e no mundo. No final das contas não é exagero afirmar que as músicas que escutamos nas rádios e na televisão não chegam a traduzir os sentimentos e a criatividade dos artistas em si", explica Botto.  "A quantidade de vezes que determinadas músicas se repetem nas rádios é exemplo desse fenômeno". Além disso, continua Pedro, há ainda a questão do suporte à música independente, que depende majoritariamente de apresentações ao vivo. "É comum escutar de novos artistas que seus amigos pagam R$ 300 para ver bandas de sucesso, mas não pagam R$ 30 para irem aos seus shows". A Área 51 Studios foi idealizada, em parte, para contribuir com a mudança deste cenário. O estúdio, que já recebeu ensaios que vão desde grupos acústicos, passando por trios de jazz, bandas de rock e o de reggae de  Dada Yute e Royal Reggae Band, foi construído do zero por Botto e um amigo, que hoje é seu sócio. Uma das principais diferenças é que os dois prezam pelo desenvolvimento máximo do potencial dos artistas que recebem. Ao invés de tentar enquadrar os músicos que recebem em um formato pré-determinado que já faça sucesso, a dupla é que tenta se adequar às necessidades do artista. "O primeiro passo é a anulação do que chamamos de “taxímetro” dentro do estúdio, que é a cobrança por hora. Ao invés disso, trabalhamos lado a lado com eles, nos dedicando ao máximo para que o trabalho saia como o artista sonhou, propondo mudanças apenas onde enxergamos potenciais melhorias", avalia o produtor. Dentre os trabalhos já realizados em seu estúdio, estão a produção de parte do trabalho autoral do Pedro Batistélla para o álbum “Lúcido”, que vai ser lançado ainda em 2017 e já está disponível nas plataformas digitais, além da gravação de Marília Calderon, compositora que integrou a banda Teko Porã. Como podemos perceber, o surgimento destas novas plataformas exerce um impacto inédito sobre toda uma cultura que vinha se manifestando da mesma forma desde seu surgimento. Para o músico, ampliam-se as possibilidades, e a independência de uma grande gravadora torna-se aparentemente viável, mesmo que ainda estejamos distantes do cenário ideal. Ao mesmo tempo, abre-se a possibilidade para o público mergulhar em um universo de artistas que dificilmente teria acesso se dependesse dos meios tradicionais. Por outro lado, este se segmenta cada vez mais e nichos cada vez mais rígidos se formam. Os quatro artistas entrevistados têm históricos, especializações, áreas de interesse e visões muitas vezes distintas, mas concordam com um ponto: o mercado está se transformando em decorrência destas novas plataformas. É notório que estamos diante de um processo de mudança, mas este ainda emperra nos antigos entraves de centralização e massificação da indústria. Resumidamente, podemos dizer que a revolução que as plataformas digitais promoveram se manifesta mais do ponto de vista da pluralidade do que o público tem acesso do que na independência financeira e estrutural dos artistas independentes. Se trata, portanto, de um fenômeno de quebra do oligopólio da informação e da arte sem, no entanto, instrumentalizar efetivamente a maioria desses movimentos.    

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