Por Gabriel Paes Velloso (aluno do 1o ano do curso de jornalismo da PUCSP)

Responsável pela página Socialista Morena, que conta com mais de 500 mil seguidores no facebook, Cynara Menezes aponta os novos caminhos do jornalismo brasileiro, os desafios de manter um canal de notícias pela internet e comenta o atual momento político vivido pela esquerda.

Adepta do socialismo e militante de esquerda, já passou por Folha de S.Paulo, Estadão, revistas IstoÉ/Senhor, Veja, Vip e Carta Capital. Atualmente, mantém seu blog por meio de doações dos leitores e assina uma coluna para a revista Caros Amigos."

-Qual é o principal desafio de fazer jornalismo politico no Brasil?
CM: Fora dos grandes meios, o desafio é se manter, sobreviver de forma independente. Dentro da velha mídia, é conseguir fazer um trabalho honesto a despeito da posição ideológica de direita dos veículos de comunicação hegemônicos do país. -Os partidos que se diziam de esquerda e direita parecem estar moderados atualmente. Ainda existem partidos que seguem à risca seus ideais?

-Os partidos que se diziam de esquerda e direita parecem estar moderados atualmente. Ainda existem partidos que seguem à risca seus ideais?

CM: Sim. Acho que o PSOL cresceu nesta eleição justamente por não abrir mão de suas convicções todos estes anos, ao contrário do PT depois que chegou ao poder. À direita, acho que o partido mais orgânico é o PSC, que não disfarça suas teses reacionárias, diferentemente do PSDB e do DEM que, oportunisticamente, se aproveitam deste eleitorado na hora do voto. Eu acredito que, nos próximos anos, esta diferença entre esquerda e direita irá se acentuar.

-Como jornalista, você vê que o principal problema da população é o fácil acesso à informações falsas e, simultaneamente, a dificuldade em encontrar um conteúdo isento?
CM: O principal problema da população é ser bombardeada cotidianamente por veículos de comunicação que pertencem a meia dúzia de famílias e que reproduzem um discurso que interessa à elite. É uma falsa pluralidade, porque para ser plural não basta ter articulistas de esquerda e direita dentro de um mesmo veículo e sim veículos de esquerda e de direita, coisa que inexiste no Brasil. À exceção dos blogs, só existe imprensa de direita em nosso país. Tampouco acredito em conteúdo "isento". Acredito, sim, em jornalismo honesto e transparente.

-Qual é a perda, para o brasileiro, da ausência de um ministério da cultura eficiente? Você acha que a grande mídia dá a devida atenção a esse fato?
CM: A grande mídia nunca se importou com a cultura. Os cadernos de cultura dos grandes veículos só se pautam pela agenda e não por transmitir conhecimento, que é o que se devia esperar de meios de comunicação que possuem uma função social. Eu acredito que é proposital, porque não desejam compartilhar conhecimento. Conhecimento é poder. Eles preferem compartilhar ignorância, contratando articulistas que flertam com o fascismo.

-Você já trabalhou em diversos veículos de comunicação. Na Folha, disse em entrevista à "Escotilha" que tinha liberdade para escrever o que quisesse. O que vale mais na mídia: a imparcialidade ou o contraste entre diferentes opiniões?
CM: Como eu falei acima, não acredito em "imparcialidade". O que existe é honestidade. Acredito ser possível fazer jornalismo honesto independentemente de onde se trabalha, à exceção da Veja, que modifica o texto dos repórteres de forma editorializada. Este contraste entre diferentes opiniões é uma falácia da velha mídia para iludir as pessoas de que existe uma imprensa "plural" no Brasil. Isso é mentira. Todos os veículos pensam da mesma maneira e refletem o pensamento da elite.

-Como você analisa o papel da mídia internacional ao cobrir o Brasil em comparação com a imprensa nacional? CM: O El Pais tem feito um ótimo trabalho e tem mostrado que o problema da imprensa brasileira não é só ser ideológica. É uma imprensa fraca, mal feita, provinciana. Nosso jornalismo é pior do que o que é feito na Argentina, no Uruguai, no Chile, na Espanha. Nos Estados Unidos, então, nem se fala. O nível do que fazemos é pré-primário e a ideologia não tem muito a ver com isso. Existem jornais de direita excelentes no mundo, com ótimas reportagens. Infelizmente, a imprensa brasileira involuiu nos anos em que o PT esteve no poder. Se preocupou mais em fazer oposição, em ser um partido de oposição, do que em fazer jornalismo.Por isso temem a entrada da imprensa estrangeira no país. A mídia hegemônica brasileira é contra nacionalismos, mas se aferra com unhas e dentes ao protecionismo quando se trata dos meios de comunicação. Não querem concorrência, porque sabem que perderão não por ideologia, mas por qualidade.

-É difícil, para o jornalismo independente, encontrar espaço na imprensa brasileira? Você sente algum tipo de preconceito quanto ao fato de trabalhar dessa forma?
CM: Não me preocupo com isso. Sou muito lida, tenho números de compartilhamentos nas redes sociais superiores a muitos meios de comunicação hoje. E isso sem estar ligada a nenhum veículo. É claro que eles têm preconceito, mas isso está mais ligado ao espaço que sabem estar perdendo para nós.

-Pensando em toda a sua carreira, de que modo você vê seu blog 'Socialista Morena'?
CM: É o momento mais gratificante da minha carreira, onde posso escrever apenas o que desejo, sem chefes ou patrões além dos leitores. A essa altura da minha carreira, sei o que o leitor está interessado em ler e é isso que ofereço. Vou contra todos os dogmas de que o leitor não gosta de textos longos, de temas mais sofisticados. Alguns dos textos mais lidos do blog são longos e sobre temas considerados "difíceis". O contato direto com os leitores também é muito bacana, mesmo os haters... Antes, o jornalismo vivia encastelado nas redações. Hoje damos a cara a tapa, eu dou a cara a tapa diariamente. É ainda um desafio enorme conseguir me sustentar com o blog, mas felizmente todas as ideias que tive até agora foram bem recebidas pelos leitores. É fascinante.

-Que recado você deixa para os estudantes de jornalismo, a respeito das condições de trabalho dessa profissão?
CM: Que não se importem de trabalhar em qualquer lugar para ganhar experiência, cancha. É possível fazer jornalismo honesto em quase todos os veículos e não se pode recusar trabalho por causa de ideologia. Os jovens jornalistas também devem perseguir seus sonhos e escolher o lugar onde querem trabalhar neste sentido. Acredito muito em foco. Mas o futuro de nossa profissão é ainda uma incógnita e é preciso agarrar todas as oportunidades. Espero que dentro de pouco tempo eu possa também contratar jornalistas e crescer.

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