Por Gustavo S. Cavalcante e João Miguel Lotufo

Espaço encontrado, bem calculado (região de muita circulação de gente), instrumentos montados, caixa ou chapéu para moedas e pronto, o show pode começar. Artistas de rua surgem em todos os lugares, mas é preciso saber como vivem e de onde vieram e se através do seu trabalho conseguem viver, ou é preciso trabalhar com algo além da sua arte para tirar seu sustento. Tocando um dia inteiro na rua para conseguir algumas moedas que às vezes não se paga o almoço torna complicado imaginar que possam viver da arte, e isso que alguns artistas nem se quer descolam algum dinheiro todos os dias. O músico orquestra seu som para que o máximo de gente possa ouvir e de modo que não perturbe aqueles que não querem participar, mas por se tratar de estar presente na rua, o acústico pode sofrer interferências com os diversos sons que vem de todos os lados como vozes, carros, ônibus, anunciantes, e até outros artistas presentes. Dessa maneira, o artista precisa lidar com as competições sonoras para que seu show seja ao menos ‘apresentável’ para agradar algum público e conseguir retribuições, porque se não de nada teria valido a pena. O artista surge, se instala e inspira o ar para dar nota de partida de sua nova e mirabolante apresentação, como uma peça teatral, o segredo é sacar os sentimentos expressos ali, no justo instante em que se destaca num uníssono o som das baquetas da bateria realçando a contagem: “1, 2 ,3 e 4” pronto. O show pode começar. Nas ruas do centro de São Paulo com os seus prédios altos existe uma cacofonia em harmonia com carros e barulho de pessoas circulando sem parar, mas no fundo soa uma flauta, e de repente um violão, mas de repente o freio do ônibus confunde tudo, porém segue a música, uma vez que esta tem seu tempo certo e também tem algum propósito por trás que pode ser alegrar o dia de alguém ou conseguir alguns trocados.

Visão do baterista da banda String Breaker

  Diante dos mais variados aspectos sonoros, a vida segue. O ônibus vai de sinal em sinal, percorrendo toda a Avenida Paulista até chegar ao Masp, e por ali, acusticamente se nota o som da rebeldia punk. Chiando a guitarra e com um cabelo espetado, a performance junto a mais outros dois integrantes era bravamente notada por muitos e muitos jovens que se reunia diante da banda. Uma quinta qualquer de fim de tarde onde nada se espera encontrar. De repente está sujeita ao som da revolução. Final da semana e corpos cansados se arrastam para lá e para cá no meio da cidade. O digníssimo ser que anda com pressa, parece estar sempre atrasado com o celular na mão e passos largos, mas algo o atrasa por alguns minutos, e não é o trânsito. O rapaz fora atraído pela voz doce de uma jovem e bela cantora cujo estilo soava um saudoso MPB no meio do dia de uma terça-feira, justamente. Passos leves, sorrisos altos, corpo solto, ela dançava ao ritmo do violão e tambor que compunha o conjunto musical. Sua voz era tão doce e relaxava como ondas binaurais, num dia quente como aquele, alguns loucos pairavam em volta para contemplá-la como estrela. E ela estava de corpo e alma exaurindo sentimentos para quem mais quisesse ver, ouvir e jamais tocar, jamais! Dizia o folheto entregue pela banda cujo intuito era o fim da cultura do estupro, e a causa prosseguia ao ritmo instrumental casando com sua voz que acompanhava suas feições pelo timbre, como a quem mostra ódio e nojo, mas também há de mostrar simpatia e ternura. Seguia a tarde nos arredores da Sé. Dia de domingo com sol e parque, tudo se combina, até o horário do encontro é combinado, famílias surgem e se aglomeram no gramado ou nos brinquedos e ficam a tagarelar de gargalhadas altas. Um breve devaneio descontraído e relaxado para se dizer que está aproveitando a vida. No meio das árvores do Ibirapuera, dois sujeitos de linguajar coloquial, põem a prova à cultura nordestina. Cada um com seu pandeiro, frenéticos, rítmicos e envolventes, tocam em harmonia, para em seguida cantar. Duas vozes que alternam a vez e fazem rimas piadistas muito bem elaboradas e com uma velocidade de criação espantosa, para nenhum rapper botar defeito. A dupla tira do pandeiro as batidas, e tira das pessoas gargalhadas, alegrando aquele domingo para também vender CD. “Cada um busca o sustento como pode, eu busco fazendo o que gosto e não levando lá muitas vantagens, sou feliz do mesmo modo” respondeu um deles quando questionado sobre o espaço da dupla no mundo artístico.  

Rock na Paulista

 

Cartão de contato da banda Pete Hassle & Screw´D

“Aonde prefere se apresentar, no bar ou na rua?” Foi perguntado a um dos músicos da banda Pete Hassle E Screw´D. “Prefiro a rua mil vezes. O bar tem o dinheiro garantido, mas a rua tem liberdade, e quando as pessoas param, elas param só para te ouvir” e assim segue a montagem dos equipamentos. Sob diversos arranjos e com um desempenho cheio de energia, a banda grita com seus instrumentos, solos bem elaborados do melhor do blues dos anos 60. Ali, na Paulista, eles roubam atenção. Uma banda formada por quatro integrantes, conta com o vocal do inglês Pete Hassles que na década de 60 abriu um show para os Rolling Stones. “Apenas isso”. Morando no Brasil a 15 anos, Pete com toda sua desenvoltura canta e toca gaita como garoto, com uma voz estridente que casa com o estilo musical da banda. O repertório é impactante com homenagens a Chuck Berry, músicas próprias e uma varrida em diversos músicos britânicos. Exatamente ás cinco da tarde aos domingos, próximo ao Masp, Pete e sua banda tocam blues. Impossível passar por ali sem ser contagiado. A classe sonora do grupo é de se admirar, com jogadas de um para outro, a bola passa do baixista para a guitarra, que junto a bateria monta-se uma orquestra até chegar a hora da voz de Pete que espera com sua latinha na mão. O baixista, de óculos escuros, organiza seus pedais, enquanto puxa com os dedos da mão direita as grossas cordas do baixo. Marrento, fuma um cigarro durante a apresentação. Pessoas vão chegando e sentando na escada que agora virou uma arquibancada improvisada, e nem conversam, prestativas ao solo de guitarra enquanto o vocal não começa. No tempo certo, a música prossegue, com variações de escalas, alto, baixo, o solo vai ficando mais agudo, juntando ao gravíssimo baixo e quando chega a hora de cantar, Pete entra junto a bateria, Show! Aplausos! Impossível não ser contagiado. Pessoas vão, pessoas vem, e o show continua, quase que unânime o som da banda naquele perímetro, onde pessoas do outro lado da avenida pode chegar a ouvir, e ouve sim, aqueles que param prestativos a banda, nem que seja por um minuto, leva consigo, um minuto de blues na cabeça, passos descontraídos, e um sorriso de lábios fechados de satisfação.

Pete Hassle & Screw´D

Antes do show, o baixista, cujo nome artístico é Castro Jr, respondeu a algumas perguntas numa breve entrevista enquanto esperava os demais integrantes chegarem. E dentro da sua opinião, essas foram suas respostas: “Quando você vai a um bar tocar, tem gente que ta lá para ouvir a música, tem gente que ta lá pela cerveja e tem gente que ta lá para comer. Então nem todo mundo ta lá pra te ver. Na rua só para quem quer te ver, então são pessoas que estão interessadas única e exclusivamente em ouvir a sua música, independente do que você esteja tocando. É a chance de você ver realmente quem é o seu público, quem é o cara que gosta do som que você faz, e quando tem bastante gente é a realização não financeira, mas a realização como músico” . “Arte de rua é algo que tem que ser efêmero mesmo. Se vai aprecia e depois some”. “Disputar o som com as ruas faz parte, então se eu to tocando na calçada faz parte ouvir uma buzina, sirene, pessoas falando é algo que você tem que se adaptar.” Esbanjando simpatia e sendo franco afirmando “em sua opinião” tudo que fora questionado, Castro desenvolve em si uma perfeita analogia das diferenças musicais de seu tempo para os dias de hoje. Um espaço-tempo difundido com estilos bem diferentes, mas ele ainda vê saída para o bom e velho rock matuto, aquele de raiz e original, e toca fazendo sua parte como se não dependesse de nada além do orgulho, sim, o orgulho de ser da velha vanguarda. Em seu rosto havia os traços do ethos ideal de um roqueiro ousado e sempre revoltado com o que não deve ser, mas é, e então se expõe como revolucionário, contra o sistema e usufrui no estilo a mais audaciosa campanha de guerrilheiro. O blues. Ouça a banda: Já lá nas alturas da Brigadeiro, em frente ao banco Itaú, em alto e bom som, o chiar da guitarra distorcida penumbra os ares da cálida tarde de mais um outro sábado. Completamente distorcida, estendida, uma stratocoaster tirando das cordas o rugir do mais grosso metal. Cabeludo, camiseta, calça boca de sino, bota e cigarros. Olhar perdido, quase que sem interesse pela guitarra, cigarro caído na boca e dentro dos movimentos dos dedos da mão, o mais complexo e elaborado solo distendido ao máximo, atraindo atenção de quem por lá cruza no momento. O público subitamente contagiado olha freneticamente para os instrumentos como se não acreditasse em algo, e em ritmo apoia o calcanhar no chão e bate a ponta do pé, em sinal de confirmação de que está satisfeito.

Banda String Breaker

É a banda String Breaker, com suas reviravoltas na bateria que passeia as baquetas pelos tambores intrigantes, puxa o ritmo lá de dentro para uma explosão por fora. Ácido e de enlouquecer os ouvidos numa fórmula de percussão ideal, encaixada e nada demais para improvisos. Tudo ensaiado. De canto o grave do mais singular baixo pesado representando o metal como este próprio. Baixo, de baixo, como a que vem das profundezas, o agouro estilo musical de maior repercussão da contracultura. Para os loucos, os desvairados, os “infernais”, os que se vestem de preto dia sim, dia também, o estilo musical mais concentrado de um público só. “Os que não gostam de metal, jamais irá gostar. O estilo é único, não muda com o passar do tempo. Já aqueles que curtem jamais deixarão de gostar e sempre que ouvir vai interpretar a mensagem. Algo que quem não gosta do estilo jamais irá entender” conta o guitarrista. A tarde caminha bem, aqui na plateia, na rua. Interessante mesmo, a banda tocava só músicas autorais. ouça a Banda: E o que dizer de um violino soando a brasileiríssima moda de Asa Branca no metrô na tarde de fim de semana? Ali como um trovador solitário perambulando de um lado para o outro do vagão, suas notas sobem e descem numa escala constante que ganha ritmo e também ganha atenção dos seres ouvintes ali por acaso. A classe de um instrumento muito utilizado em concertos eruditos ganha forma de “instrumento camponês” que fica a alcance de qualquer um. Uma quebra de cultura. Ao soar o som fino das cordas sensíveis de um violino, o músico que se dirige como apresentador do projeto “violino viajado” traz à tona ritmos brasileiros e ao mesmo tempo quebrando a barreira de aproximação com o público saltitando enquanto controla o instrumento no pescoço. No fim, sobrou até uma “brasileirinha” para não contestar. Música típica brasileira é música de classe. Ouça Victor com seu violão: Mais uma vez o metrô de São Paulo nos proporciona momentos de êxtase com o doce e suave som de um violão. Quando Victor o toca não vemos mais a imagem de um mero músico de rua, e sim, de um anjo dedilhando um violão como se fosse uma arpa. O tom melancólico, mas ao mesmo tempo alegre da música erudita, flamenca é o que soa no enorme e vazio corredor do metrô. “Comecei com essa experiência faz dois anos. Estava em um Domingo em casa sem fazer nada e precisava ganhar uma grana, aí fui arriscar tocar lá na Paulista, mais por diversão mesmo. Chegando lá, mal cheguei com o violão e já me deram uma moeda sem eu nem ter tocado nada”. “Aconteceu de há algum tempo, eu vim experimentando os ambientes de rua e vi que alguns músicos fazem isso constantemente e que até sobrevivem disso, não é o ideal viver da rua, mas em alguns momentos quando o financeiro aperta a rua salva a gente mesmo, financeiramente falando ela é sim um sustento” .

Victor em sua performance

Do fuzuê das ruas, a banda toca. Dá para ver da janela da sala, do carro, no fundo, na frente, e às vezes nem vê, basta ouvir. De família, de amigos e até sozinho, aquele som que mais combina com o momento, ou o momento passa a combinar com o som? Perspicaz, tanto quanto guardar o instrumento, pois já está começando a chover, e a chuva é tão involuntária quanto o motorista de ônibus que para logo atrás da banda e abre a porta para ouvir melhor, mas esquece de ver se o sinal já abriu. Casal de idosos nem pedem licença, se atribuem ao meio do povo para ouvir melhor e tirar fotos, registrar o momento, hoje em dia é assim, viciante, o celular não sai da mão do cara que passa e nem escuta o som, alienado com seu próprio dispositivo tornando o mundo em volta indiferente. Faz parte, assim como cultura faz parte, como a arte faz parte, como a música, qualquer uma delas, com letras de respeito ou até as que não tem o que cantar, apenas cintilando sons instrumentais, tudo se encaixa num ideal conjunto para quem se sensibiliza ter seu produto de consumo. A intelectualidade de se encontrar no bar, no parque, ou até nas ruas para ouvir e diferenciar aquilo que se toca, o som de domingo em meio avenida, passa carro, passa gente, cachorro, skate, bicicleta, o mesmo ambulante, policiais, banqueiros, oficiais, morador de rua, cabeludos, carecas, crianças, idosos, passa tudo e meio que de lado vê, a banda está tocando, devo parar ou prosseguir? No momento, não custa dar ouvidos a quem tem o que expressar. Segue a música bailando no ar barulhento das ruas centrais de São Paulo. Violino Viajado:

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