Por Isabella Mariano e Júlia Assef

Ken Atherton que foi preso em 1954 por crime ao pudor. Hoje é a mais velha Drag Queen de Melbourne.

Há quem diz que a arte de cross-dressing teve início em 1800, criada única e especificamente para designar homossexuais de forma depreciativa. Contudo, há também especulações que acreditam que sua origem foi no teatro. Um pouco mais adiante, no século 19, quando as mulheres ainda não tinham espaço no mercado de trabalho, homens vestiam-se do sexo aposto para atuar em papéis originalmente femininos. Ai nasceu o termo que é usado até hoje, drag queen. Mesmo tendo propósito cultural, o ato de um homem travestido de mulher não fora bem aceito na sociedade. Sem nenhuma lei contra isso, eram presos por sodomia e prostituição. E só em 1880 que as drag queens começaram a serem aceitas no meio teatral, mais ainda do que as mulheres. Quando os horizontes dessa cultura foram se expandindo através do globo, a atenção e o preconceito que a rodeavam também cresceram. Sempre associado com o movimento LGBT, o cross-dressing era, às vezes, julgado como crime ao pudor, o que levou ao encarceramento de vários artistas drags.

Desde a sua criação, a cultura drag queen vem ganhando mais vertentes e aumentando sua diversidade. O programa Rupaul's Drag Race ajudou a apresentar os outros tipos de drag. Deprendendo-se do original que conhecemos, as comedic queens, que são artistas da comédia, há mais de dez tipos de drag queens. Dentre essa diversidade, existem onze tipos mais comuns de drag, como listados pelo site americano queerty. Um deles é a faux queen, que quando traduzido para o português bruto significa rainha falsa. Essas são artistas biologicamente femininas, o que inclui as mulheres no mundo drag. Há também as androgyny, ou genderfuck( que são artistas que utilizam fatores de ambos os sexos na formação de suas personagens). As drags "fish" são aquelas que se montam como mulheres autênticas. Elas são conhecidas na cultura drag por levarem o movimento muito a sério, e também há casos de se sentirem como o único tipo válido de queen. Como mostrado na sexta temporada de Rupaul's Drag Race pela participante Gia Gunn.

Parada Gay de 2012 em Roma

Um dos ápices da cultura drag aconteceu por conta desse programa, onde Rupaul, uma das principais drags mundiais junta um grupo de personas para eleger a próxima estrela drag dos Estados Unidos. Não só uma boa fonte de entretenimento, o programa também abriu espaço midiático, que antes era quase inexistente. O show apresentou a arte drag para as novas gerações, não só a montagem, mas também a diversidade de estilos. Foi também uma abertura para o mundo heterossexual, quebrando a barreira de ser apreciada exclusivamente pelo meio LGBT.

No Brasil o grande destaque é a cantora drag Pabllo Vittar, que começou a trabalhar quando conheceu o programa de Rupaul. O garoto pobre, nascido no Maranhão, lançou seu primeiro hit "Open bar", uma versão em português da música "Leon on", do Major Lazer. O sucesso foi tanto que a artista fez uma turnê por 24 estados do Brasil e foi convidada para ser vocalista fixa na banda do programa global Amor e Sexo. Pabllo Vittar foi uma figura notória do carnaval de 2017 com o single "Todo Dia", que não saía da boca do povo. A cantora foi convidada para participar dos blocos de Daniela Mercury e Anitta.

Mas nem sempre o sucesso é alcançado de forma astronômica. As drag queens passam por inúmeros problemas na confecção da sua persona. Apesar da convicção do processo criativo, o Brasil persiste sendo um país com predominância de classes inferiores e a grande maioria das artistas encontra dificuldade para achar materiais de qualidade com preços acessíveis. Nina Fur, uma das principais drags de São Paulo se monta há três anos e ainda encontra dificuldade. "Minha maior dificuldade sempre foi, e ainda é, com figurinos. Não uso roupas compradas em lojas, não acho que sejam o suficiente para estética que eu proponho, então fazer e achar quem faça meus figurinos é a parte mais trabalhosa.

Como todo movimento social, a cultura drag lutou pelo seu espaço na sociedade. A representatividade dessa cultura se expandiu agora, porém, todos os dias, enfrentando um forte preconceito, principalmente na família. Pamela Star, que se monta desde os 18 anos, acha que a aceitação familiar é fundamental para as drags, porém ainda sofre intolerância no antro pessoal. "Eles não aceitam. Sofro muito com isso, porque drag é quem eu sou e eu queria que eles me vissem na minha essência". O preconceito, que é um dos maiores obstáculos em suas carreiras, vem também do meio LGBT."  

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