A ex-pixadora Agatha Rodrigues fazendo o chamado "pé nas costas" para atingir um lugar privilegiado no muro.

Por Aquiles Rodrigues e Maria Tereza

Na cidade de São Paulo o grafite e o picho são considerados as mais populares formas de expressão que se manifestam através da apropriação do espaço urbano. Seja colorindo a favor da estética ou atendendo à necessidade de protesto ambos os movimentos têm uma importância singular para a sociedade, podendo serem estudados a fim de entender melhor o momento que vive a população da metrópole. A pichação, característica da capital como se conhece hoje, não foi a primeira forma a surgir. Na década de 1960 o que marcava os muros era a pichação de cunho político. Simples de ler e de entender, a mensagem era feita quase sempre como forma de protesto à ditadura militar. Em dado momento o movimento chegou a ganhar uma vertente poética, mas seu caráter de protesto voltou a ser reforçado nos anos 1970 com o surgimento do movimento punk. Na época, inspirados pelos logotipos de bandas de rock e pela escrita rúnica dos povos europeus, os praticantes começaram a desenvolver a estética que se manifesta hoje nas paredes e muros da cidade.

Um dos precursores da pichação moderna foi Antenor Lara Campos, dono de canil e criador de cães da raça fila. Antenor ficou famoso por espalhar pela cidade a assinatura “Cão fila km 26”. A ditadura ainda estava presente e a misteriosa inscrição confundia os militares e a população. O autor ficou famoso e espalhara a inscrição até mesmo em outras cidades da grande São Paulo. Inspirados pela assinatura de cão fila, em busca de reconhecimento e resistência, novos pichadores começaram a surgir colocando seus nomes nas paredes, seus logotipos pessoais desenvolvidos a partir de uma estética que os transformavam em verdadeiras cifras secretas. Assim surgiu o picho moderno de São Paulo.

Ao contrário do que acontece no Brasil, nos outros lugares do mundo a pichação e o grafite são a mesma coisa e são denominados apenas como grafite. Ele surgiu na década de 1970 no Bronx, bairro de Nova York, como forma de expressão artística e  protesto dos moradores do bairro. Veio para o Brasil na década de 1980 como um ato político ainda considerado ilegal. Nos muros de São Paulo começaram a aparecer os primeiros desenhos de Alex Vallauri protestando contra a censura imposta pela Ditadura Militar.  Até então, tanto o grafite como a pichação eram considerados crime de vandalismo. Apenas em 2011 foi sancionada a lei que permite que o grafite seja feito, considerando-o como arte urbana. Mas a pichação, seja como frases de protesto ou como marca dos pichadores, ainda é considerada crime.

Após a polêmica causada pelo prefeito João Dória (PSDB) que deu o comando para que uma parte do painel de grafites da Av. 23 de Maio fosse pintada de cinza para cobrir as pichações, foi aprovado em primeira discussão o projeto de lei que endurece a multa e a pena para quem for pego pichando. A polêmica trouxe à tona algumas questões, como a importância que o grafite e a pichação têm para a cidade de São Paulo como organismo vivo, do ponto de vista estético e social. O arquiteto Luiz Henrique Dias considera tanto o grafite como a pichação benefícios para a cidade. “A arte urbana paulistana é feita sobre o concreto das construções: superfícies dos viadutos, muros, empenas cegas - as medianeras - e paredões. Sempre houve um respeito entre as duas expressões e, ao mesmo tempo, uma combinação sustentável e boa para ambas. A arquitetura da São Paulo desenvolvida é predominantemente brutalista, cinza, expressa no concreto, e o grafite, como arte urbana, ameniza isso”, disse. Ele dá o crédito às cores dos grafites: “Nossa cidade, uma das mais severas do mundo, aprendeu a incorporar a arte urbana, em especial a arte pintada nas ruas, e dar um colorido a nossa cidade cinza. Assim, acredito ser esse protesto contra a dureza urbana, que é a arte, um alento a São Paulo”.

O estudante de design e grafiteiro, Marcelo Lima, acredita na força da arte urbana como forma de expressão. “Eu sempre admirei muito a arte urbana. Eu já conhecia muito por pesquisas. Já tinha feito stickers e conhecia a técnica de lambe-lambe. Tudo isso foi me levando até eu achar que era a hora de fazer grafite também. Gosto muito de todas essas expressões artísticas. Na época da escola tinha um colega na minha sala que era fissurado em pichação. Ele pichava a escola toda. Era uma coisa chocante para mim e para a maioria das pessoas, mas de alguma forma eu o entendia, entendia o fato dele gostar de se expressar daquela maneira, mesmo eu não praticando o picho, mas pelo fato de eu gostar de desenhar tinha isso em comum com ele. E através dele eu também conheci o grafite”, contou. Mas há também o ponto de vista de quem já esteve no mundo da pichação. Agatha Rodrigues, técnica em eletrônica, já foi pichadora e relatou suas experiências. “Comecei a pichar quando estava na 5ª série. Havia dois meninos na sala que pichavam. Eu não era nada na escola. Eu só achava aquilo interessante até que fiz meu primeiro. A escola toda ficou sabendo e de ‘nada’ eu virei a ‘famosinha’. A única coisa que eu queria naquela época era chamar atenção, tinha a necessidade de ser reconhecida. Depois de uns dois anos pichando, o que me motivava era a adrenalina. Ela era tão grande que a única coisa que eu ouvia enquanto pichava eram as batidas do meu coração. Eu respirava a pichação. Acordava e dormia pensando em pichar. Eu era capaz de subir até o 3º andar de um prédio, já subi em telhado de mais de 4 metros de altura, já quebrei a perna, não me importava”, confessa.

Agatha mostra que a pichação é um artifício de fuga usado por pessoas que são invisíveis socialmente. “A única coisa que eu queria fazer era rabiscar parede, mas vi gente morrendo por causa disso e gente matando também. Eu me relacionei muito profundamente com pessoas assim. Conheci muita gente que morreu ou pichando ou pelo envolvimento com o picho. Percebi que aquilo era ridículo. Lembro de uma cara mais velho que já era pai e foi pichar, caiu e abriu a cabeça. Ele foi para o hospital e mesmo assim ficava falando para a família que queria pichar. Vi o quanto aquilo era importante para as pessoas, quanto mais elas pichavam, mais eram vistas. A pichação era a vida deles”, contou bastante emocionada.

Como já foi dito, o Brasil é um dos poucos lugares onde a pichação é separada do grafite em sua definição. Nossos entrevistados, ao serem perguntados sobre essa diferença, dão respostas diferentes, de acordo com a realidade de cada um. Luiz Henrique diz que “se trata de uma expressão. Mesmo a pichação, tão criticada por muitos, é boa para a cidade, porque serve de válvula de escape à expressividade e fornece informações importantes a respeito do momento social em que vivemos”. Marcelo, morador da periferia da Zona Oeste, acredita que são a mesma coisa no sentido de serem formas de expressão: “Ambos são intervenções urbanas efêmera e expressões de transgressão. Como o Mauro, um grafiteiro de SP disse recentemente? ‘quando se gosta é chamado de grafite, quando se gosta muito é chamado de mural, mas quando não se gosta é chamado de pichação’. Mas as pessoas leigas apenas julgam esteticamente segundo o seu próprio gosto. Não entendem que são duas manifestações artísticas que surgiram do mesmo princípio”. Já Agatha, moradora da  Zona Leste, acredita que são coisas distintas. “O grafiteiro coloca o valor dele no grafite. São pessoas de classe mais alta porque se gasta muito mais dinheiro com a tinta. Pichação é diferente, a gente gosta da tinta preta, do sujo, a gente quer mostrar algo que é ruim. Existe até rixa entre grafiteiro e pichador. A gente briga por território. Como dizem: a gente é arteiro, não artista. A gente não é artista e não é para ser”.

Independente de se acreditar na diferença entre pichação e grafite, é inegável a importância que ambos têm para a formação cultural e estética da cidade de São Paulo. Não é possível se pensar em São Paulo sem lembrar das paredes pintadas ou com mensagens. É assim que os artistas ou manifestantes da cidade mostram que a cidade está viva, que respira e que pede por atenção.

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