Por Helena B Lorga e Lucas Estanislau

Qualquer um com o ouvido desatento que cruzasse a Rua Teixeira Leite ou caminhasse por suas calçadas, seria incapaz de distinguir a cantoria vinda daquela casa. Vizinha de um galpão de reciclagem e de duas oficinas mecânicas, o endereço é atacado ferozmente por uma fauna sonora inóspita à música. Porém, o casarão branco de janelas azuis com pinta de colonial entrega uma pista. Numa sigla entalhada em madeira, pendurada do lado de fora das paredes castigadas pelo tempo, que poderia facilmente ser confundida por olhares mais criativos com o código de socorro S.O.S, lê-se UCRAN – União dos Cantadores Repentistas e Apologistas do Nordeste.

 

Existem histórias que quase pedem para serem contadas. Quase entregam por si mesmas seus segredos. A existência desse “quase” é explicada pela incapacidade que as casas têm de falar. Mas dentro das casas, pelo menos na maioria delas, existem pessoas que com o passar dos anos, colecionam experiências e constroem memória. Ora, para a alegria dos repórteres, pessoas falam. Basta a pergunta.

 

-“Seu Sebastião está? ”, chegava aos ouvidos da senhora desconhecida que me recebeu naquela tarde cinzenta de Julho, na minha primeira visita ao casarão da UCRAN para entrevistar seu fundador,Sebastião Marinho. -“Deu uma saidinha mas não se demora”, respondeu a anfitriã, pedindo que eu entrasse para esperá-lo. Atravesso o corredor de entrada que leva a um grande salão e, antes que eu pudesse me acostumar ao ambiente, ela arrasta uma cadeira até ao lado de uma das janelas -a única aberta- e manda sentar. Conhecia então Tereza, prima do poeta-repentista-cordelista Sebastião Marinho.

 

Fico ali na penumbra, sob um teto que finge ser céu forrado de estrelas de papel brilhante, enquanto uma viola nordestina repousa em silêncio ao meu lado, sobre um palco de um homem só. Na parede oposta, um altar embutido e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. As cadeiras empilhadas diante de mim, que costumavam acomodar o público em dias de cantoria, e as bandeiras de São João penduradas ao redor, fazem guarda à sacralidade da atmosfera nordestina do lugar, onde nada parece ser capaz de violá-la.

 

-“Desculpe a demora garoto! A fila do banco tava horrível”, estremeceu pela sala a voz rouca de Sebastião Marinho. Corpulento, com traços típicos de homem nordestino, sua baixa estatura não faz jus àquele timbre marcante e enfático. Digo que não há problema e que não esperei por muito tempo. O poeta me estende a mão e pede que eu seja paciente só por mais alguns minutos, enquanto ele guarda as compras que trazia em duas sacolas plásticas. -“Vá se acomodando que não me demoro” me deixando sozinho com as ondas de sua voz reverberando pelo ambiente.

 

Dos fundos até o salão, o poeta vem caminhando na minha direção. A história caminha até o repórter. 11 discos gravados e uma versão em cordel da mais famosa peça de Shakespeare, Romeu e Julieta. Sebastião Marinho empunha a viola que descansava no palco ao meu lado e ponteia naquele braço, criando um som que maravilhosamente se expande pelo salão vazio: -“O que você quer saber?”.

 

De Solânea à São Paulo: a história

Natural de Solânea, Marinho é um paraibano que deixou sua terra pela música. Na Campina Grande dos anos 60, Sebastião apresentava um programa na antiga “Rádio Borborema”, principal emissora da capital paraibana, que pertencia ao grande conglomerado “Diários Associados”. Durante 15 minutos ininterruptos, duplas de repentistas se apresentavam ao vivo nos estúdios da rádio e, no tempo restante do programa que durava meia hora, Marinho tocava suas músicas e divulgava as últimas sobre o repente. Em algumas ocasiões, sempre que estava de passagem pela capital, o dono da rádio fazia questão de assistir ao programa de dentro dos estúdios. -“A fera está aí! ”, diziam os funcionários para avisar que Assis Chateaubriand havia entrado no prédio. Vitrine do repente e da música nordestina, a “Rádio Borborema” serviu para inúmeros cantadores encontrarem seu público e viver de sua arte, inclusive Sebastião Marinho, que recebeu um convite para se apresentar na Semana Nordestina em São Paulo, enquanto trabalhava na emissora.

 

Em 1976 pisou pela primeira vez em solo paulistano para cantar no evento que ocupou metade do Pavilhão de Exposições do Parque Anhembi e reuniu nomes como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Noca do Acordeon e outros ilustres. A semana passou, a festa acabou e Sebastião ficou. Fez família, filhos, empregos formais e nunca abandonou a música. Nos tempos de repressão da ditadura militar, ele e muitos outros cantadores sofriam com a presença constante da polícia nas festas e eventos da cultura nordestina, que frequentemente tinham um desfecho trágico, típico da relação entre fascismo e arte: camburão e delegacia. Sem espaços para se apresentar, a polícia nas ruas para reprimir e a hostilidade diária com que eram tratados, resolveram se unir.

 

Em 1º de maio de 1988, dia dos trabalhadores, a capital paulista recebia a primeira mostra da luta por sobrevivência da classe artística nordestina. Em um grande galpão no bairro do Campo Limpo, zona sul, 152 cantadores assinaram a ATA de fundação da UCRAN, a batizaram com uma grande festa e elegeram seu presidente: Sebastião Marinho. Porém as paredes do casarão da União não seguraram a viola de Marinho, que por vontade própria, pediu para cantar em outro casarão, hoje extinto. Entre os anos de 1989 e 1990, visitava mensalmente o presídio do Carandiru, sob a justificativa de que lá dentro existia um público para sua música. De fato, havia. Os detentos nordestinos agradeciam a Sebastião pelo alívio que suas canções traziam, ressuscitando lembranças de suas terras natais que ajudavam a suportar o cárcere. Das calças beges ao colarinho branco, a cantoria de Marinho era requisitada e apreciada. O empresário José Ermírio de Moraes Filho, irmão de Antônio Ermírio de Moraes, ligava para o cantador paraibano sempre que fazia aniversário e, como se não visse distinção, a viola de Sebastião chorava em festas milionárias, para um público seleto no Tênis Club.

 

Depois da festa de fundação, a sede da UCRAN funcionou durante um ano na Rua Galvão Bueno até se estabelecer no atual endereço. Nos anos 90, o casarão da Teixeira Leite viveu seus dias de glória e as festas que aconteciam todas as sextas, sábados e domingos superlotavam o salão principal. O político Aldo Rebelo e o ator Jackson Antunes eram frequentadores assíduos dos eventos que lançavam jovens cantadores, muitas vezes recém-chegados do nordeste, buscando visibilidade. Nesse sentido, a União dos Cantadores era fundamental para a sobrevivência desses artistas migrantes, oferecendo palco, reconhecimento e em diversas ocasiões, abrigo.

 

Entretanto, após duas décadas de intensa atividade, a União dos Cantadores Repentistas e Apologistas do Nordeste foi entrando em decadência. Não migravam mais tantos artistas para São Paulo, pois a cidade já havia se tornado o grande bastião do repente. Hoje, os trabalhos da UCRAN estão parados porque, segundo o próprio presidente, seu objetivo já foi alcançado: a música nordestina está protegida.



CORDEL SOBRE A UCRAN E A CULTURA NORDESTINA

 

(Autora: Helena B Lorga)

Olá, meu nome é Cordel
Sou feito de versos
E me apresento no papel

 

Muitos me confundem com o Repente
Falam que é tudo a mesma coisa
Mas, pera aí, a coisa é diferente

 

Eu, o Cordel, sou versos no papel
Meu criador pensa bem cada palavra
E minha estrutura não fica ao léu

 

Já o meu irmão Repente age diferente
Seus versos são improvisados
E cantados ao vivo para toda gente

 

Temos uma tradição nordestina
Povo rico e de cultura
Se espalhou pelo Brasil
Levando sua conduta

 

O Nordeste é muito rico
Diversificado, belo e atrativo
Mas por causa da seca e da fome muitos tiveram que sair
Se espalharam pelo Brasil, inclusive no Centro-Sul
E divulgaram sua cultura assim

 

A UCRAN, ou União dos Cantadores, Repentistas e Apologistas do Nordeste
Pois é, não é de lá
(Ahá, te enganei!)
Nasceu na cidade de São Paulo, no bairro da Liberdade
Mas é o povo do Nordeste que tinha de maioria lá

 

Sebastião Marinho é o seu fundador
Criou a UCRAN para mostrar essa rica tradição nordestina
Muito sucesso fez na década de noventa
Recebendo aplausos de gente pobre e gente rica

 

Teve muitos dias de glória
De grandes shows, repentes e gravações
Mas de uns anos para cá deu uma minguada
Diminuindo suas visitas e apresentações

 

Sebastião Marinho continua na UCRAN
A casa virou o seu espaço
Mas sua moradia está aberta a todos
Basta agendar para visitá-lo

 

Homem muito gentil
Respeitoso e anfitrião
Pega logo sua viola
E nos mostra sua criação

 

Paraibano de sangue
Levou essa riqueza para o Sudeste
Assim, a cidade fica mais graciosa
Com a cultura do Nordeste

 

Essa é a UCRAN, lugar vistoso e com muitas histórias para contar
Como agora a música nordestina está protegida
A União não canta mais tão alto quanto antes
Mas está com portas abertas para quem quiser visitar

 

E eu vou me despedindo
Lembre-se que sou o Cordel, e não o Repente
Esse quem faz é meu amigo Sebastião
Na UCRAN para toda a gente.*

 

 

(Este cordel foi registrado na Bilioteca Nacional, sendo proibida a cópia completa ou parcial sem citar o nome da autora)

 

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