38ª Semana de Jornalismo PUC – SP Por Thalita Archangelo de Oliveira  Com o tema centra “O Jornalismo e a prática da democracia”, os organizadores do evento (alunos) levantaram questões de grande relevância social para debate com grandes nomes da imprensa, professores e intelectuais. A tradicional Semana de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC – SP) foi realizada entre os dias 26 e 30 de setembro de 2016 no período da manhã e da noite. Repórteres internacionais e a propagação da história foi o tema direcionador das discussões na mesa do dia 30. Os convidados foram: Kamil Ergin (“Agência Ciham”), Lourival Sant'Anna (“O Estado de S. Paulo” / “CBN”), Hélio Campos Mello (revista “Brasileiros”) e Patrícia Campos Mello (“Folha de S. Paulo”). Lourival Sant’Anna trabalhou por dois anos na “BBC Londres” e por 25 anos no jornal “O Estado de S. Paulo”. No fim do ano passado, Lourival deixou de fazer parte do corpo de funcionários do “Estado de S. Paulo”. Porém, no primeiro semestre deste ano foi convidado a preencher as edições dominicais com uma coluna na seção Internacional. Além disso, trabalha na “CBN”, é comentarista da revista “Exame” e está trabalhando em um projeto de produção de documentários. Ele foi o primeiro a fazer algumas considerações acerca do tema. Sant’Anna declarou que sua incapacidade de se maravilhar com a realidade ao seu redor o tornou repórter internacional. Depois de viajar mais de 60 países fazendo reportagens, notou que até mesmo na esquina existem histórias que valem a pena ser contadas. Cobriu como repórter conflitos no Afeganistão, Iraque, Líbano, Síria, Mali, Faixa de Gaza, Kosovo entre outros. Após o ataque às Torres Gêmeas, Sant’Anna entrevistou líderes do Taleban. A história dessa cobertura lhe rendeu o livro “Viagem ao Mundo dos Taleban”. Um de seus mais recentes e notórios trabalhos foi o que envolve a questão da Síria. Sant’Anna apresentou ao público um trecho de um trabalho feito no país, que mostra o descontentamento da população com o governo de Bashar al – Assad e o desespero diante do regime ditatorial em que o país vive. O bloco de perguntas da plateia foi aberto e a primeira questão direcionada a ele foi sobre a necessidade de um repórter internacional, que cobriu os principais conflitos do Oriente Médio, aprender árabe. Sant’Anna admitiu ter tentado aprofundar seus conhecimentos no idioma, mas infelizmente não obteve sucesso. São muitos dialetos diferentes num mesmo país, e ao menos que o repórter se especialize em uma única nação, é indispensável um intérprete local durante a cobertura jornalística. Com a resposta à segunda pergunta foi possível entender de fato, como Sant’Anna conseguiu contato com os grupos “vilões” (assim definidos por ele) de conflitos mundiais. Para ele, é necessário arranjar aliados que levem os repórteres até eles”, além, é claro, de inspirar confiança durante as negociações. A linguagem corporal tem um papel muito importante durante nesses momentos. Já no decorrer da entrevista, um fator decisivo à hora de extração de informações do entrevistado é o momento pelo qual ele passa. “As pessoas gostam de contar suas histórias, principalmente quando falam em um momento de estresse ou trauma”. A terceira e última questão feita a Sant’Anna foi sobre a qualificação, além do curso de jornalismo, que um jovem comunicador precisa ter para se destacar e se tornar um repórter internacional. Para o jornalista, o inglês e o espanhol são muito importantes e o francês abre muitas possibilidades. Não descartou, porém a importância de outras línguas como italiano, alemão e árabe. Além de cursos, Sant’Anna chamou atenção para as experiências individuais de cada um e como elas vão moldar o profissional. Viajar, conhecer o mundo e, se possível, morar fora do país são elementos que ajudam o estudante na sua formação. Ele concluiu sua participação e declarando que, para ser repórter internacional, é necessário ser capaz de traduzir o significado da cultura local nas coisas. Hélio Campos Mello foi o segundo a se posicionar sobre o tema. Já passou por grandes veículos de comunicação como o jornal “O Estado de S. Paulo” e as revistas “Veja” e “Isto é”. Atualmente é o responsável pela revista “Brasileiros”. Foi correspondente internacional em conflitos mundiais como a Primeira Guerra do Golfo, onde atuou como fotógrafo fazendo reportagens junto com o seu então colega William Waack. Para Hélio, sempre existiu e ainda está muito presente o conflito entre poder e imprensa. Ele notou isso muito claramente durante a cobertura da Guerra do Vietnã, que no começo foi apoiada pelos norte-americanos, mas, depois do relato da imprensa a respeito do massacre em My Lai, ela se modificou até surgirem os movimentos civis contra a guerra. “A mídia é um poder bastante letal para os mentirosos”, afirmou Campos Mello. Kamil Ergin é um jornalista turco, correspondente do Oriente Médio no Brasil. Quando ainda trabalhava para o jornal de maior circulação da Turquia, o “Zaman”, Ergin viu a publicação ser tomada pelo poder autoritário do governo de Erdogan. Atualmente existem 190 jornalistas presos no mundo e 120 estão na Turquia. Silenciar toda a voz crítica é algo muito forte e uma das principais maneiras de um governo, como o de Erdogan, consumar um golpe de Estado. Depois que o “Zaman” foi invadido e ficou sob o controle do Estado, Ergin deixou de trabalhar para a publicação. Antes escrevia sobre o Brasil e a América Latina para o Oriente Médio. Agora escreve sobre as questões do Oriente Médio para o público brasileiro no portal on-line “Voz da Turquia”. Patrícia Campos Mello, filha de outro jornalista da mesa – Hélio - trabalhou durante 12 anos no jornal “O Estado de S. Paulo”, pelo qual foi correspondente em Washington por quatro anos e meio. Atualmente escreve na “Folha de S. Paulo”. Fez coberturas em diversos países e recentemente esteve em Sirtre, na Síria, acompanhando os desdobramentos da presença do Estado Islâmico na cidade. Viajou com o fotógrafo André Liohn e os dois registraram o sofrimento da população, o Estado Islâmico, os militantes sem tecnologia ou armamento para lutar contra o EI, a escravização sexual de mulheres, por parte do grupo terrorista, e até mesmo o assassinato de um jornalista pelos extremistas. Depois que todos os jornalistas convidados fizeram suas considerações sobre o tema e contaram suas experiências na profissão, a plateia pôde fazer perguntas. A primeira foi a respeito da diferença entre a cobertura jornalística sobre a Turquia no Brasil e vice-versa. Ergin respondeu que a Turquia tem que ser apresentada aos poucos para o brasileiro. O jornalista turco ainda falou sobre a ausência de correspondentes de nosso país no Oriente Médio. Criticou o fato de nos veículos de comunicação do Brasil ter alguém em Londres falando sobre a Síria apenas reproduzindo o conteúdo das agências de notícias internacionais. A pergunta seguinte foi sobre a presença de preconceito de gênero na cobertura internacional de conflitos. Patrícia Mello disse que “ser mulher mais ajuda do que atrapalha”. Defendeu seu ponto de vista alegando que a mulher tem mais empatia, fator muito mais decisivo do que algumas limitações físicas que possam aparecer. Na sequência, os convidados foram questionados sobre o “olhar ocidentalizado” na cobertura de grandes fatos, o que pode prejudicar a reportagem. Para Patrícia Campos Mello, é indispensável um fixer – profissional responsável por traduzir não só o idioma como também contextualizá-lo à cultura local. Já para Hélio Campos Mello, é arriscado utilizar um fixer, já que ele pode entregar o jornalista para o Estado Islâmico, por exemplo. Um aluno de jornalismo levantou a questão das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Ele quis saber qual a visão dos convidados sobre a disputa entre Hillary Clinton e Donald Trump. Ergin vê com muito otimismo as relações internacionais, caso Donald Trump vença. Patrícia Campos Mello em seguida declarou que “Trump não domina a política e que sua retórica acirra ao radicalismo”. Porém reconheceu que o eleitorado de Trump é forte e vem aumentando. Segundo ela, por conta de sua política de isolamento, sem intervenção nos problemas mundiais. Ergin falou sobre a possível adesão da Turquia à União Europeia. Quanto a isso, ele disse se tratar de um sonho. O jornalista argumenta que para que isso acontecesse seria necessário que a Turquia estivesse vivendo uma democracia, portanto “chance zerada para adesão à UE”. A última questão levantada foi sobre a imprensa na Palestina. Hélio Campos Mello respondeu que o país sofre muita censura, mas que “sempre vai ter alguém colocando a verdade á tona”.  

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