38a Semana de Jornalismo da PUC-SP teve debate sobre jornalismo de guerra. Por: Luiza Amaral Guimarães   “As pessoas se encantam em vir falar com a gente”, disse o jornalista Lourival Sant’Anna, sexta-feira (30), enquanto se apresentava na 38a Semana de Jornalismo, na PUC-SP. O evento se iniciou na segunda-feira (26) e teve, em cada dia da semana, diferentes convidados – jornalistas e representantes de grupos sociais –, que falaram sobre seu trabalho e projetos aos alunos da universidade. Todo dia foi discutido um tema diferente, desde jornalismo esportivo, até moda. Para o penúltimo debate (30), que começou em torno das 9h e terminou às 12h, os organizadores do evento escolheram o tema jornalismo de guerra. Quatro jornalistas internacionais estiveram presentes. O primeiro a falar foi Lourival Sant’Anna, que passou 25 anos no “Estado de São Paulo”, foi demitido no ano passado, mas retornou nesse ano com uma coluna. Ficou dois anos na BBC de Londres e já fez rádio. Hoje também trabalha na revista “Exame”, é comentarista na BBC Brasil e está criando uma empresa de documentários, para formar fotógrafos. “Não me maravilho com o cotidiano, o que está ao meu redor. Por isso fui ser correspondente internacional”, disse o jornalista. Sant’Anna, além de tudo, ainda se especializou em cobertura de guerra, com foco no Oriente Médio. De 2001 a 2014, esteve em países como Iraque e Afeganistão, mas, ao todo, já foi repórter em 60 países. Durante o debate contou como foi recebido na Síria, junto aos observadores da ONU, considerados heróis pelos representantes do país, que deteriam o ditador Bashar Alassad. Sant’Anna mostrou um documentário simples que fez sobre essa viagem, em que há pessoas chorando e se queixando da pressão que sofrem com o regime. “Quando as pessoas estão sob pressão, elas querem contar suas historias e ser ouvidas”, disse o jornalista. Após a manifestação de Sant’Anna, os organizadores da Semana de Jornalismo deixaram que a plateia fizesse perguntas ao jornalista, que teria que ir embora mais cedo. Umas das questões foi como Lourival havia se comunicado com os sírios. Sua resposta foi: “há dialetos para cada região da Síria, portanto, ao menos que seja correspondente só nesse país, é impossível aprender seu árabe. Precisei de um intérprete.” Além disso, ele explicou que é muito importante manter uma atitude adequada diante do interprete, para passar confiança a ele. Outra questão foi quanto à importância de se saber outras línguas para um repórter internacional.  Sant’Anna deu enfoque ao inglês, o espanhol, e o francês, mas disse que o principal de tudo é saber traduzir o verdadeiro significado das coisas, e isso depende do contexto do país em que você está. Para ele não existe maniqueísmo, mas a preferência é dar ouvidos aos supostos vilões. Por isso, seu grande desejo é entrevistar o EI (Estado Islâmico), para tentar entendê-lo. Porém ainda não teve essa oportunidade. O segundo convidado a falar foi o jornalista Helio Campos Mello. Trabalha na revista Brasil, no “Estado de São Paulo” e na “Veja”. Cobriu as invasões da PUC-SP – durante a ditadura militar –, a invasão do Panamá e a Guerra do Golfo. Campos Mello contou que até a 2a Guerra Mundial a Indochina (atual Vietnã) era propriedade da França que, em 1954, a abandonou. Em 1964 foi invadida pelos norte-americanos, que com seu patriotismo e imperialismo arrogantes, acabaram matando milhares de vietnamitas, além de muitos de seus próprios soldados. Isso gerou uma guerra, que terminou em 1968, quando os Estados Unidos fizeram um massacre no vilarejo de Milai, no Vietnã, deixando mais de cem pessoas mortas. A notícia desse  acontecimento se espalhou pelo mundo, abrindo os olhos das pessoas para a verdade sobre os assassinos norte-americanos. Foi uma grande derrota para os militares que lutavam para manter uma boa imagem dos Estados Unidos, mas uma enorme vitória aos jornalistas que desmascararam essa nação de narcisistas. Os norte-americanos perderam seu espaço militar no Vietnã e a guerra. “As relações entre imprensa e poder são conflituosas, pois a imprensa quer passar a verdade à sociedade. A guerra entre jornalistas e militares começou no Vietnã”, assim Helio finalizou seu discurso. Kamil Ergin foi o terceiro a falar. Ele é um dos únicos jornalistas turcos na América Latina. Disse que veio para o Brasil para conhecê-lo melhor, pois na Turquia era visto apenas como o país do futebol. Aqui tornou-se jornalista. Kamil contou que seu país antes era conhecido por  ter uma economia forte, mas isso já não é mais real, desde que levaram a Primavera Árabe para a Turquia. Hoje, jornalistas passam por situações críticas no país, que tem a maior quantidade desses profissionais presos. Erdogan, presidente da Turquia, ataca todos que vão contra suas ideias. 98% da mídia turca é controlada pelo governo, o que só foi possível a partir dos atos violentos da polícia, contra os jornalistas. “A polícia violentou os jornalistas, arrastou-os para fora de seus escritórios, e a imprensa ficou sob controle desse magnata, Erdogan”, disse Kamil. A última a falar foi Patrícia Campos Mello, filha de Helio e também repórter internacional. A jornalista levantou a questão sobre “o que leva alguém a ser terrorista do EI?”. Ao mesmo tempo procurou esclarece-la com o comentário que ouviu de um muçulmano: “os Estados Unidos e a França estão matando nossas mulheres e crianças. Por que as mulheres e crianças deles são mais importantes?”. Patrícia falou sobre suas viagens, como correspondente, ao Oriente Médio. Na Líbia existem três governos separados, o que já é o suficiente para causar inúmeros conflitos. Outra questão, que torna a situação do país ainda mais complicada, é a migração de refugiados da África Subsaariana ao território líbio. “Vão para lá arrumar trabalho para pagar por um bote e ir com ele até a Europa”, explicou a repórter. Na Turquia, hoje, existe até um mercado para refugiados, onde há comércio de objetos para salva-vidas, como bóias. Patrícia teve a oportunidade de conhecer os avós de Alan Curdi, a famosa criança síria que se afogou numa travessia, pelo mar, até a Europa. “Se a gente fica ou a gente foge, corre perigo de morrer do mesmo jeito”, comentou o avô do menino. A repórter também falou sobre o jornalismo “embedded”. Foi inventado durante a Guerra do Golfo. É quando um jornalista vai como parte das tropas, para uma guerra, e fica bem na frente dos fronts. Patrícia disse que um jornalista “embedded” cria empatia pelos soldados e eles por você. “O acordo é que não se discute política nem guerra, o soldado está lá porque foi mandado”, explica a jornalista. O debate terminou com aplausos e agradecimentos dos alunos, aos convidados. Houve também a entrega de um livro, sobre jornalismo de guerra, ao vencedor de um sorteio feito durante o debate. Os outros alunos também tiveram a chance de adquirir seu livro sobre jornalismo de guerra, à saída do auditório foi posta uma mesa com vários deles, de diferentes autores. Mas os preços não eram muito em conta. Em geral, foi um tempo bem aproveitado, graças à disponibilidade e boa vontade dos organizadores e convidados. Muito conhecimento foi compartilhado, agregando ao currículo e à vida dos alunos.  

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