PUCSP discute temas polêmicos na Semana do Jornalismo Por Julia Castello de G. Almeida e Beatriz Gimenez  A cultura brasileira já passou por diversas transformações com o passar dos anos e nem toda forma de expressão conseguiu garantir seu espaço nos grandes meios de comunicação. Pensando nisso, a 38ª Semana do Jornalismo aconteceu entre os dias 26 e 30 de setembro na PUC-SP, contou com a participação de convidados especiais, alunos da Faculdade e interessados na área e no dia 29 de setembro (quinta-feira) o tema abordado das 9 às 12h foi “Cultura Hegemônica - O Que Fica de Fora?”. Os convidados foram Daniel Benevides, formado em Jornalismo pela USP e editor da revista “Brasileiros”, Rosane Pavam, formada em Jornalismo também pela USP, autora de livros e editora de cultura da revista “Carta Capital”, Renata Prado, estudante de pedagogia, militante negra e organizadora do evento “Batekoo”, e Thiago Vinícius responsável pela divulgação do “Banco União Sampaio” que financia livros de autores das favelas de São Paulo, principalmente na Zona Sul. Rosane Pavam, com 35 anos de Jornalismo e doutora em História, iniciou o debate falando do surgimento do jornalismo. Segundo ela, o jornalismo nasceu na Europa para dar voz à burguesia insatisfeita com o governo monarquista. Os cafés, livrarias e outros locais públicos eram usados pela burguesia para discutir assuntos políticos e até mesmo literários. Mas, quando a burguesia tomou o poder, instalando o modelo capitalista, ela, que sempre foi uma classe revolucionária com relação aos costumes econômicos e políticos da época, passa a ser uma classe acumuladora e exclusivista. Assim, existe a imprensa hegemônica que seleciona os assuntos tratados, como se fossem de interesse de todos, excluindo e deixando de dar voz a muitos segmentos e movimentos da sociedade, negando o que acontece, como diz a jornalista, nas “franjas da sociedade”. Rosane fez também uma crítica à rede Globo, dizendo que “a Globo não nos abre as portas” ao manter sua linha editorial excludente. Segundo ela, é exatamente o que a “Carta Capital” faz de diferente. Tenta pegar assuntos que não estão na mídia dominante, agindo contra as imposições da indústria cultural. Assim, ela considera que esse tipo de jornalismo se opõe ao jornalismo de consenso — abordar temas que todas as outras mídias abordaram — se tornando assim um jornalismo crítico. Como ela mesmo disse: “se o jornalismo não for crítico, ele não é jornalismo. Ele é assessoria de imprensa, propaganda”. Já Daniel Benevides afirmou que é difícil definir o que é cultura, “mais fácil defini-la pelo o que ela não é”. Ele observou que a cultura independente como uma forma de resistência a cultura hegemônica teve início nos anos 80: independente do governo, das empresas, contava com produções caseiras, cultura de resistência a indústria cultural. Ironizou que hoje se tem muito mais acesso a tudo, por meio da internet, mas em contraponto é muito mais difícil de separar as informações boas das ruins. Ele, no fim dos anos 90, foi produtor da MTV que apresentava uma cultura de resistência, pois mostrava exatamente o que não era pauta dos outros programas de televisão. Ele se recordou que trabalhou em um programa chamado “DEMO MTV”. que apresentava vídeo clipes feitos em casa. Sobre o programa, que durou um ano e meio, ele disse: “Foi uma experiência sensacional. Mas acabou porque as pessoas não tinham materiais para ficar fazendo os clipes”. Em relação ao seu trabalho atual, Benevides diz que a revista “Brasileiros” tenta dar uma luz nas manifestações que estão ocorrendo em todo o Brasil. Para ele, elas não estão tendo o devido destaque na grande mídia. “Damos voz a quem é pouco divulgado”. Foi a partir de cortes de incentivo, do atual governo do Michel Temer, ao Ministério da Cultura, que nasceu a “Revista Cultural” vinculada com a revista “Brasileiros”. Ele mostrou que a literatura sempre foi um espaço de manifestação e de resistência. E argumenta: “A literatura já é uma cultura de resistência, pois cada vez menos as pessoas leem”, já que, como ele próprio afirmou, “vivemos à mercê do gosto dominante”.
Rosane Pavam ao lado de Daniel Benevides.

Rosane Pavam ao lado de Daniel Benevides.

  Renata Prado sentiu os reflexos dessa MTV revolucionária. Nascida no bairro Itaim Paulista, afirmou que por meio de sua televisão “à gato”, ou seja, com sinal de televisão a cabo roubado,  teve seu primeiro contato com programas que formaram o sujeito político que ela é hoje, assim como o programa Yo! MTV Raps, que reunia grupos de rap e hip hop, de estilos que têm como foco principal denunciar as condições vividas pela população periférica. Porém, atualmente, ela se diz decepcionada com aquilo que a MTV se tornou. Como uma das organizadoras da festa “Batekoo”, Renata disse que o principal objetivo do evento é fomentar a cena cultural negra e periférica, a qual não tem visibilidade por conta da cultura hegemônica “embranquecida”, ou, muitas vezes, não é nem mesmo considerada cultura. Produzida majoritariamente por homens gays e mulheres negras, a festa surgiu em Salvador, Bahia, mas atrai público de todas as cidades por que passa, conseguindo reunir de 2000 a 2500 pessoas na cidade de São Paulo. Renata complementou: “estamos aqui, também produzimos, trabalhamos e precisamos de espaço”. “Batekoo”, a convite do coletivo “Sistema Negro”, teve sua participação no “SP na Rua”, em que diversas festas  são trazidas às ruas de São Paulo em busca de visibilidade para essa cultura independente. A debatedora fez também uma crítica às mídias alternativas, que, de acordo com ela, muitas vezes são produzidas por jovens brancos de esquerda, os quais também não deram visibilidade ao evento, que foi um dos que mais atraíram público dentre todas as festas apresentadas no “SP na Rua”. Com a frase “estudo pedagogia em uma federal, sou pesquisadora e dançarina de funk”, Renata quebrou paradigmas e mostrou que, sim, todas essas atividades podem ser realizadas por uma mesma pessoa, sendo que uma não necessariamente excluirá a outra. “Batekoo” é considerado por ela um “espaço seguro para sermos o que, de fato, somos” e finalizou dizendo que “voz a periferia tem, o que precisamos é de ouvidos”.
Renata Prado ao lado do professor mediador.

Renata Prado ao lado do professor mediador.

  Finalmente, Thiago Vinícius disse um poema que, além de denunciar as condições vividas na periferia, foi escrito por um autor também morador da comunidade. Com frases como “a chibata está no cassetete” e “a minha arma é minha arte”, Thiago criticou a atitude violenta e racista da polícia na periferia, mostrando também que a arma de defesa que ela tem é a arte, a música, a poesia. A sociedade, como um todo, não tem olhos para a injustiça cometida nas favelas, já que, como o próprio Vinícius afirmou, “a sociedade olha para o umbigo e fala que não é comigo”. O debatedor também falou um pouco sobre a moeda Sampaio. De acordo com ele, uma vez que o dinheiro não chega na periferia, os moradores criaram seu próprio dinheiro e banco comunitário: o Banco União Sampaio. A moeda é aceita em diversos estabelecimentos da região, permitindo aos moradores melhor qualidade de vida, além de financiar livros de autores que moram na favela. “Nosso Produto Interno Bruto são as pessoas”, alega Thiago. Além disso, ele alertou sobre a falta de atenção em relação aos índios guaranis, de um povo e de uma cultura que também são deixados de lado na indústria cultural hegemônica. Buscando maior conscientização, é feito um percurso da defesa da identidade cultural, em que o grupo, juntamente com os índios, passa por várias cidades, sendo bem recebido em algumas e mal recebidos em outras. Outro exemplo de conscientização é o Festival Percurso, em que diversos shows ocorrem na Praça do Campo Limpo, de forma a arrecadar dinheiro para a comunidade, uma economia solidária que ainda conta com pouquíssima divulgação. Com todas essas críticas, Thiago Vinícius tem o principal objetivo de que sua cidade se conecte com a sociedade de forma que o preconceito não tenha espaço. Ele faz até mesmo uma crítica à forma como as favelas são vistas, cheias de “vagabundos que vivem no bar”, enquanto, logo à frente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, existem inúmeros bares que estão lotados de alunos desde as 10 horas da manhã.
Thiago Vinícius diz o poema ao lado de Renata Prado.

Thiago Vinícius diz o poema ao lado de Renata Prado.

  Thiago Vinícius diz o poema ao lado de Renata Prado. Com isso, Renata Prado vê que uma das únicas maneiras de dar visibilidade às culturas negadas pela sociedade, é “reeducar politicamente a esquerda branca”, de forma que os veículos de informação pautem assuntos presentes também nas favelas, uma vez que eles jamais chegam à periferia. Um desafio para os comunicadores é “como disseminar canais de qualidade” atualmente, não deixando nada de fora. Assim como disse Daniel Benevides, “a cultura é o espaço de resistência que assusta e provoca os conservadores”, devendo permanecer assim, buscando sempre o espaço daqueles que não fazem parte da cultura hegemônica, da indústria cultural dos dias de hoje.

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