A coleta de vítimas de um dos assassinos mais procurados dos EUA Por Julia Fregonese O Silêncio dos Inocentes, escrito por Thomas Harris em 1988, e adaptado pelo o cinema em 1991 com os atores Jodie Foster e Anthony Hopkins deslumbrou o mundo. Não havia outra obra tão visceral e violenta como a que relata a história fictícia de Hannibal Lecter, um serial killer canibal que mata e janta pessoas rudes, e Clarice Starling, uma agente do FBI designada para achar um serial killer conversando com outro. Algo sobre a ideia de um assassino em série e a violência intrínseca de alguns homens conseguiu causar encanto entre aqueles que vivem suas vidas rotineiramente. No entanto não foi a primeira vez que o mundo presenciou a brutalidade humana. Refiro-me mais especificamente aos assassinatos que abalaram a Califórnia, EUA, nas décadas de 1960 e 1970. Reprodução O assassino do Zodíaco cometeu seu primeiro assassinato em 20 de dezembro de 1968, em Vallejo, Califórnia, quando matou a tiros o casal de namorados David Faraday e Betty Lou Jensen em um carro estacionado. Na época, ninguém cogitava da hipótese de evento ser o trabalho de um serial killer. Em 4 de julho de 1969, também em Vallejo, Darlene Ferrin e Michael Mageau foram atacados. Darlene morreu devido aos ferimentos a bala, mas Mageau sobreviveu e conseguiu descrever o assassino: jovem, branco, entre 26 e 30 anos de idade, grande, rosto largo e cabelo castanho encaracolado. Alguns dias mais tarde, a polícia recebeu a ligação de um homem que dizia ser o responsável pelos dois assassinatos. O serial killer ficou conhecido quando os jornais San Francisco Chronicle, San Francisco Times e Vallejo Times Herald receberam cartas no dia 1 de agosto de 1969 endereçadas aos seus editores com descrições dos casos que apenas a polícia e o criminoso teriam conhecimento. As cartas foram assinadas com um símbolo que lembra um alvo (ver imagem ao lado) e três mensagens criptografadas diferentes cada que diziam revelar a identidade do criminoso e que deveriam ser publicadas no dia seguinte, ou então o assassino mataria mais pessoas. Tanto por não querer sangue nas mãos quanto pela notícia, os editores decidiram publicar o que o homem pedia. Três dias depois novas cartas foram recebidas, dessa vez iniciando com “Esse é o Zodíaco falando”. Essa foi a primeira vez que o assassino referiu a si mesmo como Zodíaco. Quatro dias depois da segunda carta, um casal decodificou as mensagens.images Elas diziam: “Eu gosto de matar gente porque é tão divertido. É mais divertido que matar animais selvagens na floresta porque o homem é o animal mais perigoso de todos. Matar coisas me dá a experiência mais prazerosa, é ainda melhor que ficar com uma garota. A melhor parte é que, quando eu morrer, eu irei renascer no paraíso e todos aqueles que eu matei se tornarão meus escravos. Eu não lhe darei meu nome porque você tentará me atrasar ou me impedir de colecionar escravos para meu pós-vida”. No mês seguinte, o casal Cecelia Shepard e Bryan Hartnell foi atacado em Lake Beryessa por um homem que usava um capuz de execução com o símbolo do Zodíaco no peito. Os dois foram esfaqueados repetidamente, mas apenas Hartnell sobreviveu. No carro da vítima foi encontrado um cartão com as datas dos crimes anteriores e do novo, com os dizeres “por faca” no final. Hartnell descreveu o homem como alto, pesado e com cabelo castanho encaracolado. O próximo crime ocorreu em 11 de outubro do mesmo ano. O taxista Paul Stine arthur-leigh-allenfoi assassinado por um passageiro com um tiro na nuca. Duas crianças que observaram a cena da janela da casa em frente ao carro ligaram para a polícia e descreveram o homem bastante similarmente as descrições que os sobreviventes Michael Mageau e Bryan Hartnell deram anteriormente. No entanto parte da equipe havia entendido que o criminoso era negro. Uma patrulha que estava rondando a área próxima à cena viu um homem descendo uma rua, porém, como era branco, os policiais não o detiveram. Em uma das diversas cartas que o Zodíaco enviou à polícia, ele descreve que dois policiais estúpidos passaram por ele mas não o pararam. Também relatou que ele era o assassino do caso e enviou um pedaço da camisa ensanguentado de Paul Stine. Há três suspeitos de terem sido o Zodíaco, mas nenhum deles foi provado de ser o assassino. O primeiro suspeito foi Arthur Leigh Allen. Essa teoria é de Robert Graysmith, cartunista político do San Francisco Chronicle, que se tornou obcecado pelo assassino e escreveu dois livros sobre o caso. O filme “Zodíaco”,zodiaco_t6547_m8yjidf dirigido por David Fincher e estreado em 2007 nos EUA foi baseado nessa teoria. No dia em que Cecelia Shepard e Bryan Hartnell foram atacados, Allen havia comunicado a sua família que iria mergulhar em Lake Beryessa e voltou para casa ensanguentado e com uma faca ensanguentada no carro, mas se negou a contar o que havia ocorrido, o que rendeu um interrogatório da polícia. Pouco tempo depois, um amigo de Allen relatou que o suspeito havia se chamado de Zodíaco antes mesmo que o assassino em suas cartas. Ele também comentou que Allen havia dito certa vez que queria caçar pessoas com uma arma e uma lanterna, o que fez com que a polícia o interrogasse mais uma vez. Durante a entrevista Allen disse que seu livro favorito era “Zaroff, o Jogo Mais Perigoso” (The most dangerous game, de Richard Connell), livro que foi citado pelo assassino em uma de suas cartas à imprensa. Allen também usava um relógio da marca Zodiac (ou Zodíaco), que continha o mesmo símbolo que o assassino usava como assinatura. Em uma busca no trailer em que morava, a polícia encontrou animais dissecados e facas ensanguentadas, mas nada que ligasse Allen diretamente aos crimes.   Arthur Leigh Allen havia sido acusado de molestar uma criança em 1974, crime pelo qual passou três anos preso. Coincidentemente, nesse período nenhuma carta do Zodíaco foi enviada. Em 1987, um companheiro do presídio contou à polícia que Allen havia confessado matar Paul Stine. Em 1991, um investigador mostrou diversas fotos a Michael Mageau e lhe pediu que apontasse o assassino. Mageau indicou Arthur Leigh Allen. Mais uma revista foi feita na casa de Allen e dessa vez encontraram esquemas de bombas, bombas e fitas sobre o Zodíaco. Allen negou qualquer envolvimento. Porém alguns fatores indicam o não envolvimento de Allen. Sua amostra de DNA não batia com a amostra de saliva que a polícia encontrou em um selo. No entanto, acredita-se que o assassino tenha pedido a outra pessoa para lamber seus selos de carta. A caligrafia de Allen também não bateu com a das cartas enviadas pelo Zodíaco e, por fim, Allen não se parece com o retrato falado feito pela polícia. Em 19 de agosto de 1992, Arthur Leigh Allen foi encontrado morto em seu trailer, possivelmente vítima de um infarto. A segunda teoria é do policial aposentado Harvey Hines, que acredita que Lawrence “Kane” Kaye é o Zodíaco. Kane sofreu em 1962 um acidente de carro, que resultou em danos neurológicos, tornando-o agressivo. O apelido pode ser encontrado em uma das cifras enviadas pelo assassino. A irmã da vítima Darlene Ferrin disse que Kane a havia perseguido poucos dias antes de seu assassinato. Outro fator que sustenta essa teoria é o fato de que um dos policiais que cruzaram com o Zodíaco sem saber na noite do assassinato de Paul Stine indicou que Kane era o suspeito que mais se parecia com o homem que havia visto. Kane também morava seis minutos de distância de onde Paul Stine foi encontrado. 5712815 Em 1970, Kane se mudou para South Lake Tahoe onde no mesmo ano Donna Less foi encontrada morta, o que muitos pensaram ser mais um crime cometido pelo Zodíaco. A vítima trabalhava no mesmo hotel que o suspeito. Porém a evidência mais chocante é a vivida por Kathleen Johns, que, junto com seu bebê, foi enganada a pegar uma carona com o assassino. Ele disse que iria matá-la e depois jogaria seu bebê. Johns conseguiu fugir e se esconder até que outra pessoa viesse a ajudá-la. Johns teve tempo extendido com o Zodíaco e pode ver seu rosto mais do que outras vítimas. Tempos depois, Kathleen Johns disse que o homem que havia lhe dado uma carona tinha sido Kane. Não há registro de testes de digitais ou DNA, porém o teste de caligrafia não bateu, mas também não pode ser descartado. Ao todo, a polícia registrou cinco vítimas envolvendo o assassino. No entanto o Zodíaco afirmava ter matado trinta e sete pessoas. Até hoje não se sabe a verdadeira identidade do homem que aterrorizou a Califórnia. Pessoas até hoje surgem com novas teorias sobre quem seria o assassino. Como por exemplo Gary L. Stewart cuja teoria era de que seu próprio pai, Earl Van Best Jr. era o Zodíaco. Um livro foi lançado em 2014 com o título “O animal mais perigoso de todos” (The Most Dangerous Animal Of All, em inglês). Van Best realmente se parecia com o retrato falado feito pela polícia, e o número de letras de seu nome se encaixa no número de cifras de uma das mensagens do assassino. Porém a descrição de um homem largo e pesado não bate com Van Best. Essa é uma das teorias consideradas fictícias, porém a terceira mais aceita. Gary L. Stewart afirma que essa é uma tentativa da polícia de abafar o caso. Apesar das inúmeras hipóteses sugeridas pela população e pelas autoridades, é possível que jamais saberemos a verdadeira identidade do Zodíaco. O assassino pode estar morto, ou se estiver vivo, estará inativo devido à idade avançada. Serial killers são muito mais aterrorizantes na realidade do que na ficção, onde canibais e ladrões de peles acabam tendo um lugar especial na mente dos leitores e cinéfilos aficionados. Mas mesmo o Zodíaco possui suas extravagâncias, como uma crítica sobre o filme “O Exorcista” escrita em uma das cartas para a polícia, em que descreve o filme como “a melhor comédia satírica que eu já vi”.

Leave a Reply