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Por Dora Abrahão “Cobertura esportiva não é para quem gosta de esporte, mas para quem gosta de democracia”. Está aí uma afirmação que os jornalistas esportivos gostaram muito de ouvir de alguém de peso na profissão. Jamil Chade foi um dos convidados da Semana de Jornalismo da PUC-SP, que ocorreu entre os dias 26 e 30 de setembro, e fez essa afirmação. Ao seu lado estavam Fabíola Andrade, Marcelo Gomes e Gabriela Moreira.

Diante de um auditório lotado, os temas do debate o jornalismo e as estruturas antidemocráticas do esporte. Com isso, os alunos de comunicação puderam ouvir diferentes opiniões e histórias dos quatro jornalismos já estabelecidos no mercado. Fabíola, repórter do SporTV, iniciou sua fala com um assunto cada vez mais relacionado ao esporte brasileiro: a corrupção. Para ela, não há uma federação no país que não tenha sido envolvida em alguma negociação por baixo dos panos.

Além disso, a jornalista comentou o forte preconceito que as mulheres sofrem na área. “Dentro do esporte existe muita política. As pessoas pensam que o jornalista esportivo vai brincar no campo, só se divertir, mas a gente rala muito! Eu e a Gabi temos uma deficiência, que é ser mulher. Comecei com 20 anos na área. Ah, ela é bonitinha, está no vídeo. Fui desrespeitada um milhão de vezes, tive vontade de desistir, mas amava o esporte e queria continuar”, declarou.

Em seguida foi a vez do jornalista do Estado de São Paulo, Jamil Chade, que explicou melhor sua afirmação inicial. “É para que a informação chegue aos torcedores. Não só para o torcedor saber a escalação do seu time, mas sim quem vai ficar com o dinheiro da bilheteria”, acrescentou.

Para os fãs de futebol, Chade não trouxe notícias boas. Atualmente morando na Suíça, o jornalista cobriu o escândalo dos mandatários da FIFA e conhece muito bem a entidade. “Na FIFA, a prioridade não é o futebol. É o marketing, o dinheiro, a política. O que mostra isso é a escolha da Rússia e do Qatar para sediar as próximas Copas. Uma decisão claramente política, comercial e corrupta. É literalmente o sequestro da emoção, o interesse do torcedor passa a ser interesse político e econômico da instituição. O objetivo é usar a emoção para transformá-la em dinheiro e poder”, contou.

Em seguida, a bola foi passada para a repórter da ESPN. Gabriela revelou que chegou ao jornalismo esportivo de uma forma diferente dos outros colegas que estavam ao seu lado. “Eu também via o jornalista esportivo como alienado. Sempre gostei de futebol, mas não queria ser aquela profissional que trabalha com marketing esportivo”, afirmou.

O interesse do torcedor

Passa a ser interesse político e

econômico da empresa”

Depois de se aventurar pelos bastidores do esporte, a repórter e blogueira disse ter se interessado pela quantidade de coisas que precisavam ser pesquisadas e explicadas na área e resolveu mudar de setor no jornalismo. “Não podemos mais tratar como diversão. Enquanto a corrupção continuar no esporte, o produto só vai diminuir. Temos o dever de tornar a nossa cobertura plural. O jornalista tem que apresentar uma visão democrática, diversa e mostrar para os amantes do esporte a realidade fora das quadras”, cravou.

Apesar de não aparecer nas telas, ou ter seu nome tão conhecido como o dos outros três, Marcelo Gomes está há 18 anos na ESPN, umas das maiores emissoras esportivas da atualidade, e gosta bastante de trabalhar por trás das câmeras. Há 26 anos na profissão, o investigador mostrou uma opinião um pouco diferente sobre o jornalismo esportivo. “Jornalismo para mim é jornalismo. Não gosto de separar em jornalismo esportivo. Para muita gente, ainda é tirar sarro, mas a partir do momento que comecei a trabalhar com José Trajano, a minha vida mudou”, disse.

Para finalizar o debate, a pergunta da plateia sobre o legado das Olimpíada Rio 2016 trouxe opiniões parecidas dos quatro da meda. “Acredito que seja um legado crítico. Depois dos jogos, os telespectadores estão enxergando mais, com olhares de quem quer entender o problema”, falou Gabriela Moreira.

“Não há bonzinho na história, não é pensado no desenvolvimento do esporte, nunca foi. Estão querendo tirar a educação física da escola. O Brasil não tem um projeto para o esporte e jamais será o país olímpico”, criticou Gomes, encerrando a mesa de forma que todos os futuros jornalistas pudessem refletir sobre a realidade do esporte brasileiro.

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