Glauco Mattoso, poeta “deshumanista”; Uma conversa com o autor sobre a trajetória de sua vida e obra.

Luciana Dal Ri

Por Aquiles Rodrigues

Poeta, no auge dos seus 65 anos, Pedro José Ferreira da Silva, conhecido por Glauco Mattoso, mantém-se a todo o vapor em uma intensa produção literária. O escritor que ficou cego aos 40 anos de idade devido um glaucoma, doença congênita que inspirou o seu nome artístico, é autor de mais de 5 mil sonetos, diversos livros em prosa e um dicionário de palavrões. Glauco possui estilo próprio, que explora a crueldade universal e a barbárie dos tempos modernos, tudo através de temas como a cegueira e a podolotria, seu icônico fetiche por pés.

Em entrevista ele nos conta um pouco da sua trajetória, de 1995, ano em que perdera completamente a visão, a 2016, intervalo denominado pelos acadêmicos como sua "Fase Céga".

"Eu tinha uma rotina basicamente normal, quando não era totalmente cego. Tinha uma certa autonomia para me virar sozinho. Depois da cegueira total, que me forçou à aposentadoria por invalidez, eu perdi o pouco que tinha dessa autonomia. A minha sorte foi que em 1998 eu comprei um computador falante, dos primeiros que surgira na época. Eu me apaixonei tanto por esse computador, por que ele era tão amigável, tão fácil, que eu vi que podia voltar. Foi o computador que me trouxe de volta à literatura."

Glauco comprou seu computador falante com o dinheiro do Prêmio Jabuti, que ganhara pela participação na tradução completa da obra de Jorge Luiz Borges, escritor argentino com quem compartilha uma trajetória semelhante, marcada pela superação da cegueira através da literatura.

"Eu interpreto isso como sobrenatural, porque foi o Borges, um autor cego já falecido, que me trouxe de volta com o computador. Com esse retorno eu comecei a produzir muito mais do que quando eu enxergava. Porque na época anterior eu escrevia meio relaxadamente. Eu tinha informação dos clássicos, cheguei a fazer um romance autobiográfico, que falava do meu passado como abusado sexual, que me levou ao sadomasoquismo, e o fetiche com os pés. Mas era uma produção mais desregrada."

O "Manual do Podólatra Amador: Aventuras e Leituras de um Tarado por Pés" foi escrito antes que Glauco atingisse a cegueira total e fala do glaucoma no desenvolvimento da sua vida e do seu fetiche por pés, desenvolvido a partir dos traumas e abusos sofridos quando criança. Antes da sua "fase cega", Glauco também tinha ficado conhecido pela sua participação no movimento dos poetas marginais durante os anos 1970, período em que o Brasil ainda se encontrava sob a ditadura militar.

"Eu tinha sido um daqueles da geração marginal de poesia. Naquela época nós éramos os poucos que podiam resistir culturalmente. Qualquer coisa que você fizesse poderia ser censurada. Então eu fiz o que todo o mundo fazia na época: eu comecei a publicar de forma independente. Mas era uma coisa muito precária, se comparada com o que, por exemplo, a gente pode fazer hoje nas redes sociais. Mesmo o "Jornal Dobrábil", meu principal fanzine, não tinha tido tanta repercussão. Só com o “Jornal”, o “Manual do Podólatra” e mais algumas coisas avulsas eu já era um pouco conhecido mas não tinha grande repercussão. Depois do computador, eu comecei a produzir de uma forma muito mais disciplinada e obsessiva."

Hoje em dia a rotina de Glauco se concentra nessa produção literária que ele considera um verdadeiro vício.

"De 1999 até 2006, mais ou menos, eu produzi os primeiros mil sonetos. Daí para frente eu comecei a produzir praticamente mil por ano. Era uma forma de produção obsessiva, tanto que eu até parei agora em 2012."

Glauco escreveu mais de cinco mil sonetos antes de parar de produzir poesia nesse formato, o que considera seu verdadeiro fetiche literário. Hoje sua produção se concentra um pouco mais na prosa, ainda conservando seu estilo único. Glauco se baseia sobretudo no trauma da cegueira e o converte em uma ferramenta de uso geral para a abordagem múltiplos temas próprios à natureza humana.

"A grande diferença que as pessoas ignoram é que para quem nasceu cego é mais fácil se adaptar com o desenvolvimento dos outros sentidos. Agora, a pessoa que já enxergou, que sabe como é a visão, se abate e deprime muito. Não é um processo tranquilo como as pessoas querem fazer parecer. Aí que tá, como a maioria das pessoas que ficam cegas não são escritores, elas não tem a oportunidade de fazer o que eu fiz. Eu transformei a literatura numa forma de desabafar. Foi uma catarse."

Glauco usou seu passado traumático relacionado ao abuso, e seu gosto adquirido pelo sadomasoquismo para criar uma literatura crua, sem temperos desnecessários ou disfarces. O autor aborda os temas e tabus mais temidos pelos que sentem a necessidade de uma literatura "bem-comportada"

"Os sonetos falam sobre tudo de cegueira e sadomasoquismo. São os temas mais recorrentes. Se as pessoas olharem à primeira vista, elas vão ver apenas isso, mas numa segunda leitura elas vão ver que por trás desses temas de fachada estão todos os problemas sociais humanos. Todos os problemas do indivíduo e do coletivo. Falando da escrita em si, um dos requisitos necessários para se considerar literatura é você conseguir universalizar sua obra. Você precisa conseguir falar das coisas essenciais da humanidade, os problemas realmente importantes."

Sem dúvida, sua obra é única e universal. A estética de Glauco, os temas abordados e mesmo a maneira peculiar com que escreve, utilizando a ortografia antiga como expressão poética e protesto contra a reforma feita pela ditadura, tornam sua literatura um exemplo de difícil enquadramento nos movimentos literários. Um caso semelhante e muitas vezes comparado ao de Augusto dos Anjos.

"O que eu faço ainda não entrou no cânone literário. Embora já existam muitos estudos, muitas teses sobre min, até mesmo no exterior, eles ainda não me enquadraram. Porque o que a universidade faz? Ela procura um 'ismo' para te encaixar. Eu estou sendo considerado para os universitários, críticos e professores mais teóricos uma espécie de 'caso literário' "

Aproveitando que ainda não foi classificado, o poeta brinca criando seus próprios "ismos". Ele se considera "barrockista", pela sua história rebelde ligada ao rock'n'roll, e "pornosiano" por ter as características metódicas de um parnasiano voltadas a serviço da pornografia. No entanto o mais icônico dos seus termos de autoclassificações é "deshumanista" que adota quando fala dos temas da crueldade.

"A minha intenção não é que os homens se matem ou se torturem. Eu estou denunciando isso por que não podemos separar essas coisas da humanidade. Faz parte, temos que conviver com isso sem hipocrisia. A barbárie não é o oposto da civilização, ela está junto dela."

Glauco tem planos para continuar escrevendo e publicando de maneira independente com ajuda de terceiros para diagramação e produção de seus livros. As impressões de suas obras são geralmente feitas a partir de tiragens por demanda e seu público, um pequeno ciclo de amigos e admiradores, sempre termina satisfeito. Seu último lançamento foi o livro "Contos Quânticos", lançado nesse mesmo formato independente. O autor não pretende jamais parar, afinal, a literatura é o que o move, o motiva para prosseguir com a vida.

No fim da entrevista perguntamos a Glauco sobre o que achava de uma famosa frase de Clarice Lispector em resposta a uma pergunta da entrevista para a TV Cultura em 1977 (No fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um jeito ou de outro;) ele respondeu:

"Essa frase para mim é muito verdadeira. Não que o escritor não possa ter uma ambição social de querer contribuir com o coletivo. Mas na minha visão a literatura é sobre tudo autobiográfica. Ela é verdadeira na medida em que dá um testemunho da vida do autor. Por isso alguns livros, como os de youtubers, por exemplo, são vazios. Não é por que eu fui abusado sexualmente que eu vou transformar isso num grande problema da humanidade mas na medida em que eu conseguir transmitir isso de uma forma bem comunicada e participativa, as pessoas vão perceber que isso é uma das muitas formas de vitimização do ser humano, que este é muito frágil, muito inseguro e competitivo. É fácil sermos abusados por um semelhante. Se as pessoas puderem fazer isso, se universalizar, eu estarei contribuindo com a minha parte.

Posso mesmo encaixar a frase da Clarice no contexto de dois pensamentos que são fundamentais para mim, o espiritismo e o existencialismo. Ambos reafirmam o indivíduo. A pessoa se realiza ao aceitar o que ela é, e não o que os outros acham que ela deve ser. E isso é uma forma de desabrochar."

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1 comment

  1. Hércules

    Linda matéria Aquiles, parabéns.