Por Beatriz Ramos

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O Brasil enfrenta hoje uma grave crise econômica, social e política, que se contextualiza dentro do sistema capitalista financeiro originado no séc. XX. Caracterizando-se por haver uma maior subordinação dos meios de produção para a acumulação de dinheiro e obtenção de lucros por meio do mercado financeiro (ações, produtos financeiros, títulos, derivativos e mercado cambial). No Brasil do séc. XXI o capitalismo monopolista ou financeiro não vive seus melhores dias. A crise é marcada por uma forte desindustrialização, desemprego, desinvestimento público e privado e uma enorme dívida pública.

O ano de 2008 foi marcante para compreender a situação mundial dos dias de hoje. No período citado uma crise econômica com epicentro nos Estados Unidos e Europa alastrou-se para outros países rapidamente, gerando uma enorme polarização social. As revoltas do mundo árabe e da Grécia foram exemplos que contextualizam os protestos de 2013 a 2016 no Brasil. Em síntese, vivemos uma nova situação mundial desde a queda do Muro de Berlim, com a eclosão de movimentos sociais e de diferentes identidades culturais que buscam seu espaço dentro da ordem estatal, determinada pela crise da democracia representativa.

Foi no ano de 2013 que as manifestações de rua tiveram seu reinício, posto que o Brasil possui um longo histórico de lutas e marchas populares nas ruas, desde as campanhas pela abolição da escravidão, passando pelo período da ditadura militar, até as manifestações contra e pró impeachment da presidenta Dilma Roussef. Nelas a juventude e principalmente os estudantes sempre encabeçaram ou tiveram forte presença nos atos, sobretudo a partir da era virtual.

A evolução dos protestos no período pós-ditadura

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O Movimento das Diretas Já teve seu início em 1983, em adesão à Emenda Constitucional do deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT), já faltando pouco tempo para o fim da ditadura militar. A Emenda tinha como missão o voto direto para presidente do País. Com a possibilidade de Paulo Maluf suceder o general João Batista Figueiredo na Presidência, as manifestações logo começaram em Goiânia e Curitiba, assim que o senador Teotônio Vilela manifestou-se na televisão.

Os protestos tiveram seu estopim em 1984, quando ganhou maior aderência popular nas capitais e cidades do interior. No dia 25 de janeiro mais de 1,5 milhão de pessoas se reuniram para apoiar a pauta das “Diretas”, com a soma dos 22 Estados da federação estimasse que foram em média 3,6 milhões de cidadãos.

Lideranças políticas oposicionistas ao regime militar estiveram presentes, alguns deles são figuras conhecidas no cenário político atual, como Luiz Inácio Lula da Silva, Eduardo Suplicy, Roberto Freire, Fernando Henrique Cardoso e muitos outros. Por fim, a Emenda Constitucional não foi aprovada, entretanto os levantes mostraram que a estrutura do atual regime não tinha mais base de apoio para continuar e, em 1985, o Brasil adquiriu o direito ao voto.

Movimento dos Caras-Pintadas (1992)

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A grande mobilização ocorreu devido a denúncias de corrupção contra o então presidente Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito após a ditadura militar. O movimento encabeçado pela UNE juntou milhares de estudantes universitários e secundaristas, que tomaram as ruas das capitais para exigir a renúncia do presidente alvo de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito).

O dia 25 de agosto daquele ano foi decisivo para a articulação dos atos, pois se concentram em média, 400 mil jovens no Vale do Anhangabaú, cerca de 100 mil no Recife e 80 mil em Salvador. No dia 26 de agosto o relatório foi aprovado com 16 votos a 5 votos contra. A Câmara dos Deputados começou a preparar o pedido de impeachment.

A intensa pressão popular marcou o período, já que a ocupação do espaço público era frequente e contínua, ao início da votação de abertura do processo de impeachment, milhares de jovens em seus trajes pretos e com as caras pintadas voltam a ir para às ruas no dia 18 de setembro. Somente em São Paulo estima-se que estavam presentes cerca de 750 mil pessoas. O fim do processo se deu no dia 29 de setembro, quando a Câmara dos Deputados votou a favor da saída de Collor. O Brasil era ocupado quase que por inteiro por pessoas de todas as idades buscando um Brasil sem corrupção.

O professor da PUC-SP, José Salvador Faro, sente uma enorme satisfação de ter atuado nesse momento pós-ditadura e pré-internet, além de ter orgulho por ter visto a sociedade em movimento, assumindo novas reinvindicações. Entretanto, continua afirmando que “nenhum desses movimentos chegaram ao ponto de provocar mudanças estruturais no País. Isso significa uma espécie de reversão de expectativas a cada ciclo de manifestações. Entendo que esse fato – que representa a existência de uma prática conciliadora na política brasileira que herdamos das nossas elites -foi o resultado de uma composição partidária inexpressiva diante da complexidade do País e também o papel regulador da mídia, que age nessa mesma direção conservadora. Daí meu otimismo relativo quando vejo as redes sociais procurando romper com os limites da política tradicional do Brasil”, disse. Sobre o papel da mídia naquele o período Faro afirmou que ela “advoga em nome de um liberalismo mitigado, isto é, ela proclama a democracia, mas tem receio de seu aprofundamento, o que a faz assumir uma posição ambivalente – como foi o caso da Diretas Já ou o afastamento de Collor”.

O enigma de junho de 2013

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Em 2013 o Brasil viveu uma experiência democrática que não se vivia há muito tempo com as manifestações promovidas pelo Movimento Passe Livre (MPL). Os principais objetivos dos protestos foram à redução do custo da tarifa de transporte público em São Paulo e ainda promover o debate sobre o direito à cidade. Os atos que começaram pequenos, com cerca de 500 pessoas, cresceram e chegaram a atrair mais de 200 mil em diversas cidades do País, sobretudo em Brasília, que se tornou emblemática para os ativistas das jornadas de junho. Não significa que antes disso ninguém ia às ruas. Mas os movimentos nas ruas estavam mais ligados a reivindicações trabalhistas, como greves, por exemplo, lideradas por sindicatos e marchas organizadas por partidos e categorias profissionais, como metalúrgicos, por exemplo.

Devido ao caráter “novo” das jornadas de junho diversos acadêmicos se debruçaram sobre o assunto, o que gerou inúmeras análises sobre o período em que se fez evidente a existência de uma polícia política no Brasil e, sobretudo, no Estado de São Paulo, os atos que tiveram um início extremamente violento por parte dos policiais, sensibilizaram milhares de jovens a lutar por um transporte público de qualidade e de baixo custo. O professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, Pablo Ortellado explica em seu livro Vinte Centavos: a luta contra o aumento” como foi importante o mês de junho de 2013. “A dupla vitória de reduzir o custo das passagens e trazer para a centralidade do debate político a tarifa zero por meio de uma ação autônoma com uma estratégica clara é o mais importante legado dos protestos de junho. Ele não é apenas um novo paradigma para as lutas sociais no Brasil, mas um modelo de ação que combina a política horizontalista e contracultural dos novos movimentos com um maduro sentido de estratégia”, reflete.

O fenômeno da tática “Black Bloc” chamou a atenção nos atos de junho. Corretos ou não, as ações dos chamados “vândalos” pela grande mídia forçou um debate intenso sobre o uso da desobediência civil e da ação direta nos movimentos sociais, além do questionamento da mobilização pelo próprio sistema representativo. Tal técnica tinha por objetivo – segundo os próprios jovens – quebrar os símbolos da sociedade capitalista através de performances depredando tais símbolos e não adotando a violência contra pessoas.

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Em meados do final de junho, a tarifa dos transportes públicos foi abaixada através de protestos nas ruas. Após isso as manifestações continuaram com bandeiras difusas e reinvindicações mais amplas o que gerou um abandono popular, posto que o Movimento Passe Livre não teve interesse em adotar demais pautas e organizar outros eventos.

O professor Faro é enfático ao analisar os movimentos de rua recentes. “O que existe hoje são conjunturas em que a sociedade civil põe para fora suas contradições, amplia suas demandas e constrói sujeitos políticos coletivos (e também individuais). Se você observar os momentos em que eclodiram os protestos de massa no país desde o fim da ditadura, vai perceber que eles se estruturaram em reivindicações muito sérias e concretas, especialmente as de natureza política, embora possam ter adquirido uma cara econômica, como foi o caso do passe livre”, entende.

 

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Os (in)conformados de 2014 a 2016

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O ano de Copa do Mundo no Brasil (2014) não foi dos mais calmos. Os protestos organizados pelo Comitê Popular da Copa no Brasil, uma articulação horizontal e apartidária de movimentos sociais, organizações, coletivos e indivíduos, tomaram conta das ruas, para denunciar os gastos exacerbados com as obras do evento, em que muitos operários morreram. Com intervenções artísticas e bombas de gás lacrimogênio no começo do movimento. O sentimento ali era muito semelhante ao de 2013. Pessoas descobriram nas “Jornadas de junho”, as mazelas do sistema representativo em que vivemos e que não concordavam com medidas tomadas por governantes, voltando às ruas com esperança de mudança e de aderência popular.

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Dois anos após as jornadas de junho, vive-se um período de intensas investigações e divulgação sobre crimes de corrupção, na esfera pública e privada. Em função disso consolida-se uma enorme descrença política que desencadeia na aderência de pautas de movimentos políticos e partidos de vertentes neoliberais e/ou conservadoras. O ódio toma as ruas.

O antipetismo deve ser observado como um fenômeno no Brasil, visto que já existem âmbitos expressivos do eleitorado que se decretam por ser antipetistas. Esse antipetismo é conservador. E às vezes pode ser interpretado como uma resposta às reformas graduais que o lulismo fez.

“Basicamente as manifestações, em minha opinião, decorrem de uma contradição histórica: as elites brasileiras, especialmente a burguesia industrial e a tecnocracia que gerencia o capital, não admitem que nossa sociedade se tornou moderna e exigente em direitos sociais e de cidadania”, explica Faro, que completa “ao invés de reconhecerem essa nova realidade social, essas elites querem manter o País como uma entidade privada. Isso vem transcorrendo dessa forma desde o fim do Império”. A respeito da força da internet nesse processo cultural de efetivação da cidadania dos brasileiros, o professor afirma que: “O impacto da internet faz parte disso: como é possível imaginar que em plena explosão das informações digitais, da modernização dos padrões de comportamento, da expansão das redes e da construção de novas identidades, como é possivel imaginar que caras como o Paulo Skaf ou o Eduardo Cunha, o Temer, o Jucá e etc, possam se arvorar no direito de governar o país. Tem que ter protestos a toda hora, mas não como cultural e sim como exigência de democratização e socialização da riqueza”, diz.

Sobre a esquerda nesse momento de polarização o professor da USP, Vladmir Safatle, afirma que falta um posicionamento mais claro da esquerda em relação ao governo federal. “A gente está completamente desarticulado pelo fato de não explicitarmos qual é a nossa postura em relação ao governo. Enquanto a gente ficar numa situação muito ambígua, isso vai ser muito ruim para o resto da população…”, comenta.

Segundo ele, essa ausência de posicionamento pode prejudicar a formação de uma nova frente de esquerda para conseguir canalizar as demandas dos manifestantes que foram às ruas contra o governo federal em 2015 e 2016.

O ano de 2016 é alvo de uma série de protestos desde seu inicio por parte de grupos que reivindicavam a queda da presidenta Dilma Roussef, além dos que queriam a saída do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e de demais políticos. Com pautas desvinculadas de boa parte da população o “Movimento Brasil Livre”, “Revoltados Online” e “Vem pra Rua”, conquistaram uma boa parte de adeptos e ainda a abertura do processo de impeachment da presidenta, que além de ter o peso da população anti-petista se deu prioritariamente devido a um Congresso que busca o poder sob qualquer preço.

Para além dos contra e pró impeachment nas grandes metrópoles do Brasil, o País se vê cercado de diferentes movimentos sociais que são em grande parte apartidários e que lutam em torno de identidades culturais como o movimento feminista, movimento LGBT, entre outros. Ainda segundo José Salvador Faro, na sociedade contemporânea – não só no Brasil – todos os movimentos integram o processo de identidade cultural, que acabou se tornando algo inseparável da política.

 

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1 comment

  1. Vivi Costa

    Ainda bem que hoje podemos ficar por dentro de tudo, já que a tecnologia nos ajuda muito p isso! P mim o melhor protesto dos ultimos tempos foi a retirada da Dilma do poder, essa que era um fantoche do Lula e PT! E gostaria muito que pessoas como o Paulo Skaf assumissem o poder, pq acho que ele é um cara íntegro, que só luta por coisas boas para o nosso país!