A Inteligência do Orientador, pelo Prof. Antonio Valverde (Filosofia, PUCSP)

Antonio José Romera Valverde:
Professor do Departamento de Filosofia da PUC-SP e do Departamento de Fundamentos Sociais e Jurídicos da EAESP-FGV: valverde@pucsp.br

Texto apresentado ao Evento “Homenagem a Maurício Tragtenberg”, realizado dia 06 de novembro de 2000, promovido pelo Departamento de Fundamentos Sociais e Jurídicos da Administração, da Fundação Getúlio Vargas, São Paulo. Publicado originalmente na RAE, volume 41, n. 3, 2001, pp. 60-63.


“Il reste d’un homme ce que donnent
à songer son nom, et les ouevres qui font
de ce nom un signe d’admiration, de haine
ou d’indefférence. Nous pensons qu’il
a pensé, et nous pouvons retrouver entre
ses ouevres cette pensée qui lui vient de
nous: nous pouvons refaire cette pensée
à l’image de la nôtre.”

(Paul Valéry – Introduction à la méthode de Léonard de Vinci)

 

Maurício Tragtenberg foi meu orientador para dissertação de mestrado, que uma vez pronta transformou-se, com adaptações necessárias, em tese doutoral, defendida pela Unicamp.

Maurício ingressou nesta Universidade, como professor convidado, durante o segundo semestre de 1976. Anteriormente, perdera cargos da Rede Pública, vítima da “redentora”, e fora boicotado em vários concursos da Unesp, mesmo tendo sido aprovado em primeiro lugar em todos eles. Uma vez na Unicamp, ofereceu um curso sob o título aparentemente rotineiro de “Metodologia Histórica”. Ensinou a ler Marx, O Capital, e Weber, A Ética Protestante, com rigor e pontualidade, porém sem o ranço do método estruturalista ainda em moda na Academia. O substrato do curso era a junção entre esses autores, que já havia estudado em sua obra mais conhecida, Burocracia e Ideologia. Contudo, por aquela porta de entrada para o mundo da Filosofia Política e da História forneceu munição teórica para muito mais que o curso exigia. Sugeriu Paul Mattick, Karl Korsch, Alexandra Kollontaï, Lucien Sebag, Anton Panneköek, Marcuse, Linhart, Guy Debord, Tocqueville e, até mesmo, Ibn Khäldun, o Maquiavel árabe. Para o meu caso, egresso da Filosofia com um porre de Fenomenologia, indicou-me dois antídotos homeopáticos: Fenomenologia y materialismo dialéctico, do vietnamita Tran-Duc-Thao, e Introduction à la Phénoménologie, de J. T. Desanti. Funcionaram como tábua de salvação.

A marca essencial do Maurício Tragtenberg –que me deixou siderado- era sua inteligência, tudo mais acidentes e derivações. Inteligência como Otto Maria Carpeaux reconheceu em Maquiavel ao afirmar: “A inteligência é coisa mais rara do que se pensa. E Maquiavel foi um dos homens mais inteligentes de todos os tempos.” (CARPEAUX, 1999, p. 778) A do Maurício sempre evoca algumas passagens tópicas da Filosofia que se encontram –de certa forma- na contramão do próprio desenvolvimento da História da Filosofia. Matizo, inicialmente, com uma passagem de A Gaia Ciência. Nietzsche escreveu: “O intelecto, através de descomunais lances de tempo, não engendrou nada além de erros; alguns deles resultaram úteis e conservadores da espécie: quem topou com ele ou os recebeu como legado combatia seu combate por si mesmo e por sua prole com maior felicidade. Tais errôneos artigos de crença, que eram sempre legados mais adiante e afinal se tornaram quase o espólio e o fundo comum da humanidade, são, por exemplo, estes: que há coisas que duram, que há coisas iguais, que há coisas, matéria, corpos, que uma coisa é como sempre aparece, que nosso querer é livre, que o que é bom para mim também é bom em e para si. Só muito tarde vieram os que negavam e punham em dúvida tais proposições –só muito tarde veio a verdade, como a forma menos forte do conhecimento. Parecia que com ela não se conseguia viver, nosso organismo era feito para o contrário dela; todas as funções superiores, as percepções dos sentidos e toda espécie de sensação em geral cooperavam com aqueles antiqüíssimos erros fundamentais incorporados. Mais ainda: aquelas proposições se tornavam, mesmo no interior do conhecimento, as normas segundo as quais se mediam ‘verdade’ e ‘inverdade’…” (NIETZSCHE, 1978, p. 200)

Outra recorrência -ainda na contramão- é a oitava tese de Ad Feuerbach, em que se lê: “Toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios, que induzem às doutrinas do misticismo, encontram sua solução racional na praxis humana e no compreender dessa praxis.” (MARX, 1978, p. 52)

Estas passagens ilustram meu preito de gratidão ao Maurício, pois, como orientador, me fez cair na real. Puxava-me para a terra, como a dizer quanto mais próximo dela, da realidade, tanto mais humano, verdadeiro, científico. Fora com os falsos brilhos da linguagem empoada dos filósofos da moda. Isto não quer dizer que fosse empirista, nem cético. Foi um pensador inserido na melhor tradição do pensamento negativo, de matriz hegeliana. O pensar, a abstração, a elevação conceitual, tinham um nexo dialético com a história presente e seus “horizontes de negação”. Não às alturas metafísicas –às altitudes escorregadias do Ser- mas, contraditoriamente, o grande mundo, o universal soerguido das profundezas efêmeras do cotidiano, da tragédia humana diária. Entre o ontológico e o ôntico, reconhecia o valor do primeiro mas privilegiava o segundo –a participação do homem na história. Este aprendizado devo a ele.

Devo a ele também o redigir notas de rodapé weberianas, que não somente fundamentassem o texto escrito, mas que dessem porosidade ao mesmo. Há uma anedota corrente no meio acadêmico, de que um orientando apresentou uma tese com notas de rodapé tão expressivas, que outros pós-graduandos puderam utilizá-las como fonte de temas e problemas para outros tantos trabalhos. Psicologia do rumor à parte, a precisão da pesquisa e sua indicação, foi uma constante no trabalho sob orientação de Tragtenberg.

Pela Literatura, Maurício iniciara o conhecimento do grande mundo. Lera bastante Dostoiévski, desde a adolescência. Empapou-se de literatura russa, mas não só de Dostoiévski e Gorki e nem só de literatura russa. O dilema da liberdade absoluta da personagem Raskolnikov, a volúpia do ato impulsivo de delegar a liberdade -como suposta necessidade humana- na palavra do nonagenário cardeal inquisidor dos Irmãos Karamazov, e os heróis absurdos como Kirilov, de Os Possessos, eram recorrências constantes em suas preleções.

Por ser autodidata, os aspectos libertários de sua vida e obra são plenos de características bastante particulares, tanto do ponto de vista teórico quanto histórico. Tragtenberg descende de imigrantes judeus ucranianos, que chegaram ao Brasil, fugidos “das perseguições da Rússia czarista e dos progoms da década de 10”. (TRAGTENBERG, 1999, p. 11) Sua família residiu, de início, no Rio Grande do Sul, mais precisamente “na zona da colonização de camponeses de origem judaica” (Idem, p. 11) em Erebango, depois chamada de Erexim, atualmente Getúlio Vargas. Em seguida, mudou-se para Porto Alegre e mais tarde para a cidade de São Paulo.

Órfão de pai, desde a primeira infância, como tantos outros pensadores -Rousseau, Sartre, Darcy Ribeiro…- livre das injunções paternas, diluiu outra parte do superego, aos quinze anos, quando frente ao dilema: judeu ou cristão, tomou-se por ateu. “Por eu ser ateu…” (TRAGTENBERG, 1991, p. 85) Dizia de si mesmo: “Ateu, graças a Deus!”. Mas, nunca deixou de ser judeu, talvez como Einstein escrevera: “A natureza da concepção judaica da vida se traduz assim: direito à vida para todas as criaturas. A significação da vida do indivíduo consiste em tornar a existência de todos mais bela e mais digna. A vida é sagrada, representa o supremo valor a que se ligam todos os outros valores. A sacralização da vida supra-individual incita a respeitar tudo quanto é espiritual –aspecto particularmente significativo da tradição judaica.

O judaísmo não é uma fé. O Deus judeu significa a recusa da superstição e a substituição imaginária para este desaparecimento… Compreende-se claramente que ‘servir a Deus’ equivale a ‘servir à vida’. Com esta finalidade, as melhores testemunhas do povo judeu, em particular os profetas e Jesus, se bateram incansavelmente… O judaísmo não é uma religião transcendente. Ocupa-se unicamente da vida que se leva, carnal por assim dizer, e de nada mais. Julgo problemático que possa ser considerado como religião no sentido habitual do termo, tanto mais que não se exige do judeu nenhuma crença, mas antes o respeito pela vida no sentido suprapessoal… Com efeito, Deus não existe para o judaísmo, onde o respeito excessivo pela letra esconde a doutrina pura. Contudo considero o judaísmo como um dos simbolismos mais puros e mais vivos da idéia de Deus, sobretudo porque recomenda o princípio do respeito à vida.” (EINSTEIN, 1981, pp. 114/115)

Também não abandonou o viés sapiencial do judaísmo, mesmo sem a prática, sem a exterioridade da religião. Por certo, reconheceria como o pai da teoria da relatividade: “A paixão pelo conhecimento em si mesmo, a paixão da justiça até o fanatismo e a paixão da independência pessoal exprimem as tradições do povo judeu e considero minha pertença a esta comunidade como um dom do destino.” (Idem, p. 113)

Morador do bairro paulistano do Bom Retiro, tradicional reduto judaico, aliviara ainda outra parte do superego: a tendência familiar, digamos, mais mercantil, através de leituras de romances de cunho social, jornais operários e revistas de divulgação científica. Com um pequeno detalhe: em iídiche, que é o “jargão do alemão medieval, que o judeu da Alemanha desenvolveu em função da integração na sociedade alemã.” (TRAGTENBERG, 1999, p. 16) Aprendeu sozinho francês, inglês, alemão. Para a aprendizagem do italiano, os Abramo colaboraram. O catalão veio da freqüentação do Centro de Cultura Social, no Bairro do Brás, em que refugiados da Guerra Civil Espanhola compareciam, local também de ensino mútuo. Desenvolveu um método próprio de aprendizagem de línguas. Reunia por ordem alfabética as palavras conhecidas e pesquisava em dicionários da Biblioteca Mário de Andrade o significado das desconhecidas. Registrou: “Já possuía a essa altura uma espécie de ‘capital lingüístico’ que dava para o gasto; do conhecimento da língua iídiche por via familiar cheguei ao alemão e às traduções de Weber… o francês aprendi com minha companheira, que fora professora de francês do 2º grau. A língua inglesa, através da consulta direta ao dicionário na formação de um vocabulário inglês especializado na área de ciências sociais.” (TRAGTENBERG, 1991, p. 86)

Tarefa árdua, mas logo traduziu Freud, “O Parricídio”, para o jornal Vanguarda Socialista, órgão de publicidade do Partido Socialista, liderado em São Paulo por Antonio Candido e Phebus Gikovate. Aliás, o primeiro, Florestan Fernandes e Hermínio Saccheta, “orientaram” seu autodidatismo. Caso contrário, dizia, todo seu esforço redundaria num “saber selvagem”, ou, como queriam os gregos, em polimatia, saber de coisas desconexas. Como lembrou, reiteradas vezes, a família Abramo, o Centro de Cultural Social, a Biblioteca Mário de Andrade, o Partido Socialista, foram “minhas universidades” –parafraseando título de romance homônimo de Máximo Gorki. Praticou autodidatismo, com recorrência ao “ensino mútuo”, prática comum nos meios libertários. E como queria Proudhon, “todo autodidata é um livre pensador”. Maurício pareceu personificar à medida esta sentença.

Era de uma autenticidade incrível, que fazia dele pessoa ímpar, diferente de todos os professores que tenho conhecido na Academia. Mesmo tendo se tornado intelectual sobejamente reconhecido, galgado a carreira acadêmica em instituições de ponta -titular da Fundação Getúlio Vargas, da PUC-SP e da Unicamp-, publicado obras fundamentais e oportuníssimas, nunca adentrou o universo ideológico/consumista da classe média. O que provocava admiração e, no mesmo passo, um certo desconforto nos colegas.

Se como quer o poeta “a viagem é um vácuo no tempo”, Maurício deixou o espírito da viagem passar. Tal qual Racine, Kant, Machado de Assis, que não necessitaram viajar -pois o grande mundo passava por eles- Tragtenberg se ausentou do país apenas uma vez, indo à Argentina adquirir livros para escrever sua tese. -Afinal, os clássicos são estáveis!

Do universo da praxis interessou-se pela autogestão das organizações populares, pela autonomia operária, pela educação libertária e apoio às traduções de textos, sobretudo de talhe libertário. Seus temas recorrentes mais comuns foram: Nestor Makno e Kronstadt; Buenaventura Durruti e a Guerra Civil Espanhola; comissões de fábrica –de inspiração gramsciana- da Ford de São Bernardo e os debates nas Comunidades Eclesiais de Base, sobretudo da região paulistana do Butantan ; Francisco Ferrer e a pedagogia libertária. Neste último aspecto, a Faculdade de Educação da Unicamp funcionou como seu laboratório, pois, fisicamente, a dois passos dela encontra-se o Arquivo Edgar Leuenroth, que contém praticamente todas as publicações anarquistas e de cunho sindical publicadas desde o início do século. Adolescente lera todo este material em freqüência diária aos anarquistas do Bairro do Brás.

Os muros da Universidade sempre foram muito restritivos para ele. Sua praxis fez também com que mantivesse por dez anos a coluna “No Batente”, do jornal Notícias Populares. Semanalmente, respondia cartas, publicava artigos, polemizava. Seus temas prediletos: sindicalismo, racismo, feminismo, educação, política nacional e internacional. Em linguagem extremamente acessível praticava um jornalismo opinativo, tão ausente nos dias que correm. -Sucesso de público.

Quanta falta ele nos faz! Quem melhor que Maurício Tragtenberg poderia criticar com altura intelectual e perspectiva política de esquerda, sem fisiologismos, os PCNs –Parâmetros Curriculares Nacionais-, para não irmos muito longe e fugirmos de nosso métier?

Lembro uma vez que o encontrei aqui na GV para uma sessão de orientação. Andava um tanto atrapalhado e deixei escapar uma, duas querelas. Me olhou, serenamente, e perguntou: você é adepto da filosofia do coitadismo? Levei um tremendo susto e começamos a rir. No processo da desorientação, como ele mesmo dizia, em vários momentos reproduziu-se esta espécie de “cura”, mas claro para querelas intelectuais. Nunca perdeu a irreverência e o humor –emblemas do seu socialismo libertário, mesmo que nunca tenha se declarado anarquista, assim como Tolstói. O humor talvez seja doce herança de leituras de Maquiavel, Nietzsche e dos sofistas, que citava a mancheia. Maurício fazia rir com suas tiradas: “aqui só a biologia resolve!”, “isto é cultura da desconversa” (paráfrase de Mário de Andrade), “reformar para não mudar nada”, “você está com encosto?”, “a história é um pesadelo” (paráfrase de James Joyce), “não voto em nome, voto em história pessoal”. Parecia mesmo não ser atingido pelo superego, como ironizava Joel Martins, seu antigo professor ao tempo em que cursou a Licenciatura em História, na Universidade de São Paulo.

Com os orientandos e em seus textos, Maurício praticava a crítica da razão iluminista, mas sem perder de vista sua importância cultural e possibilidades no universo dos “esclarecimentos”, mesmo tendo circulado muitas vezes por paragens próximas da contracultura.

Herdeiro do Prof. Cruz Costa, que apregoava o entendimento do pensamento brasileiro como objeto e fim do trabalho de intelectuais nativos, no mesmo passo Tragtenberg entremeava cursos teóricos com outros que tratavam do pensamento político brasileiro. Analisou em vários momentos o tema da “conciliação” na política nacional, desde o gabinete Paraná (1842), sombreado pela filosofia do ecletismo cousiniano. Criticou e contextualizou ideólogos como Torres Homem, Justiniano José da Costa, Tavares Bastos, Joaquim Nabuco, Oliveira Lima, Oliveira Vianna, Nestor Duarte. Deste último, autor de A ordem privada e organização política nacional, Tragtenberg garantia que esta obra corroborou na formação ideológica da UDN. (DUARTE, 1939) As recorrências para tal crítica moviam-se –por vezes- de par com o enquadramento teórico, de viés weberiano, operado por Raymundo Faoro, que admirava.

Termino, sem concluir, recorrendo a Literatura. Por conviver com Maurício e ter aprendido a desconfiar das “verdades” que vieram mais tarde, depois de “descomunais lances de tempo”, como “invenções” de sábios, a milhas de distância da realidade, a tirada de Guimarães Rosa bem cumpre a função de fecho desta homenagem: “comprei uns óculos,/ óculos dos mais excelentes,/ não têm aros, não têm asas,/ não têm grau e não têm lentes…”

Bibliografia

-CARPEAUX, Otto Maria – “Inteligência de Maquiavel”, In Ensaios Reunidos, 1942-1978, vol. I, Rio de Janeiro, Topbooks/UniverCidade, 1999.
-DUARTE, Nestor – A Ordem Privada e a Organização Política Nacional: Contribuição à Sociologia Política Brasileira, Col. “Brasiliana”, vol. 172, S. Paulo, Nacional, 1939.
-EINSTEIN, Albert – Como vejo o mundo, 2ª edição, tradução H. P. de Andrade, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981.
-MARX, Karl – “Teses contra Feuerbach”, In Marx, Col. “Os Pensadores”, 2ª edição, tradução José Arthur Giannotti, S. Paulo, Abril Cultural, 1978.
-NIETZSCHE, F. – “A Gaia Ciência”, In Obras Incompletas, Col. “Os Pensadores”, tradução Rubens Rodrigues Torres Filho, 2ª edição, S. Paulo, Abril Cultural, 1978.
-TRAGTENBERG, M. – Memórias de um autodidata no Brasil, S. Paulo, Escuta, 1999.
-___________, __ – “Memorial – Maurício Tragtenberg”, In Pro-Posições (Revista Quadrimestral da Faculdade de Educação da Unicamp), nº 4, S. Paulo, Cortez, 1991.

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