Por Beatriz Ramos

Há mais de 90 anos um casarão faz parte da Rua da Consolação e atualmente o imóvel pertence à Prefeitura paulistana. A conhecida Casa Amarela chegou a passar mais de 15 anos abandonada (pertencia ao governo federal) e foi tombada posteriormente pelo Patrimônio Histórico e serve hoje como uma Ocupação Cultural e Artística. O local acolhe artistas independentes de diversos estados do Brasil para que manifestem suas artes através de eventos e oficinas gratuitas para a população.

Vídeo de Quilombo Afroguarany Casa Amarela.

O espaço ocupado horizontalmente há mais de um ano já abrigou artistas plásticos, artistas de teatro, músicos, pintores, dançarinos, fotógrafos, coletivos, entre outros. Sem apoio e sem influência de partidos políticos ou empresas eles resistem dia após dia, entre divergências e reclamações dos vizinhos de bairro. A casa também já foi usada como instrumento revolucionário político, a partir de sua forma de organização libertária e de oferta de cultura e de arte a população excluída e oprimida da selva de pedra paulista.

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Evento de resistência “Balbúrdia” na Casa Amarela, em 24 de maio de 2015.

 

Apesar de tudo a ocupação passou por grandes dificuldades a partir do meio do ano passado, com um processo de reintegração de posse protocolado pelo Governo Federal, por meio do INSS. Entretanto, os ocupantes resistem até hoje. Internamente a Casa Amarela também passou por altos e baixos. Devido a sua ampla abertura já passaram por lá mais de 50 pessoas e por isso problemas de convivência ocorreram lá dentro.

O dia 14 de maio foi marcado pela luta a favor da legalização da maconha. Nas ruas de São Paulo, a Marcha da Maconha passou pela Av Paulista, desceu a Rua Augusta e chegou a Rua da Consolação, lugar em que a Casa Amarela promovia um evento também com a mesma pauta chamado Baile das Marijuanas. O morador Eduardo, de 40 anos, relatou que ocupa a casa há um ano e quando chegou “havia 50 pessoas residindo, ocorreram conflitos posto que, várias pessoas não produziam nada, até vieram com resistência para que eu não usasse o espaço para executar meus projetos”,. afirmou. “Tenho vários projetos, mas preciso de colaboradores para coloca-los em prática”. O fotógrafo de 40 anos tem como planos de atividades diversas oficinas, como a de fotografia, de culinária, de tatuagem e de restauração de móveis, mas por causa da baixa aderência nenhuma se concretizou até hoje.

Questionado sobre o futuro da residência Eduardo disse que vê como “promissor, pois de quando cheguei até hoje, a casa evoluiu, mas precisa evoluir mais, em relação à energia de troca, para rolar mais oficinas”. Atualmente o imóvel abriga cerca de 15 pessoas que mantém a ocupação primordialmente com festas, bazares e rodas de curas medicinais e espirituais.

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“Falaram que iam me matar, devido a minha posição contrária de algumas pessoas na casa”. disse Eduardo.

Já o ex-morador Renato, de 20 anos, afirma que sua moradia na casa “foi massa” e que “a galera” o recebeu bem. “Faço equilibrismo e poesia e fiquei seis meses aqui”, disse. O jovem contou que saiu do local porque começaram a ocorrer algumas desavenças entre os ocupantes — que começaram a sujar e poluir a casa com cigarros, bitucas sem ter consciência. Comecei a perceber que eu tinha que limpar bitucas de cigarro onde eu dormia, era totalmente desregrado e sem harmonia. “Vejo a Casa Amarela hoje como uma coisa bem libertária mesmo, total, em relação a tudo, porém não tem mais o valor daquela arte mais pura como, por exemplo, os saraus, as artes plásticas, poesia, modelo vivo, sinto falta disso, além disso, antes era tudo grátis, eu prefiro como era antes”, concluiu o artista.

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Sem luz na casa o evento Baile das Marijuanas funcionou normalmente.

Com eventos que ocorrem durante quase todos os dias da semana muitos vizinhos da propriedade não aprovam a ocupação e já registraram diversas queixas e conflitos com os moradores da ocupação. Muitos diálogos já foram feitos, mas alguns moradores do bairro ainda reclamam. O morador do edifício Consolação, ao lado da casa, Luís de 27 anos faz a crítica ao barulho e diz que: “de sábado para domingo, nós não conseguimos dormir devido ao barulho, para à noite não é legal fazer barulho, só se for durante o dia, à noite a gente quer dormir”, reclamou.

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