Indústria cultural transforma opressão social em modismo

Por Beatriz Ramos

O funk brasileiro origina-se no Rio de Janeiro a partir dos anos 80, ao final da década seus bailes começam a chamar atenção na zona musical carioca. Nos anos 2000 o funk se populariza e se massifica passando a preencher um grande espaço na indústria cultural com produtoras de videoclipes e emissoras de rádio e de televisão.

Marcado inicialmente por suas letras erotizadas e batidas rápidas influenciadas pelo Miami Bass (ritmo da Flórida), o funk também passou a abordar a violência e a pobreza das favelas, no entanto suas letras de conotação sexual prevaleceram hegemonicamente no mercado. Em setembro de 2009, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou o projeto dos deputados Wagner Montes e Marcelo Freixo que definiu o funk como “movimento cultural e musical de caráter popular do Rio de Janeiro”.

A tendência de se defender fortemente o funk no Brasil é evidente, ao analisar discursos que dizem se tratar de uma expressão artística legítima, fazendo uso da glamourização da pobreza, e ao acusar todos os seus críticos de elitistas intolerantes. No entanto é certo que um gênero musical que dissemina através de suas músicas, comportamentos como a ostentação, o machismo, a banalização do sexo, o uso de drogas, o consumo excessivo de bebidas e a violência, encobre opressões graves da sociedade capitalista. Essa omissão ocorre através dos diferentes aparelhos midiáticos e até da própria indústria musical que lucra com esses artistas e perpetua a alienação na sociedade. É também a partir do elitismo cordial das classes sociais médias e altas (sejam elas de direita ou de esquerda) que a população pobre é domesticada.

A supervalorização do consumo nas letras de funk

funk

 

De carrão, de motona,

O bagulho te impressiona,

Ela brisa, ela olha, ela pisca, ela chora,

Só pra andar de navona,

Ai meu deus como é bom ser vida loka

 Traz bebida pras gatona,

Deixa elas malucona,

Camarote, área vip, baladinha monstra,

Ai meu deus como é bom ser vida loka

Final de semana, só aventura,

Fluxo também, se tem balada,

Casa lotada, se prepara que hoje tem.

 Mc Rodolfinho – Como é bom ser vida loka

 

Na segunda metade dos anos 2000, o funk partiu da Baixada Santista para a Zona Leste da cidade de São Paulo, de onde saíram muitos Mc’s importantes, tais como Mc Lon, Bonde da Juju, Mc Daleste e Mc Guimê (que, atualmente, é o principal nome do funk paulista). A nova vertente era o funk ostentação, que já circulava pelas periferias de São Paulo e de outras grandes capitais, tais como, Porto Alegre e Belo Horizonte.  E despertou o interesse da grande mídia, após o assassinato do Mc Daleste e a onda dos “rolezinhos” nos shoppings centers. No começo desse processo, o tema do funk de São Paulo era o “proibidão”, que tinha como ponto central a vida do crime urbano, com disputas de poder com a polícia, armas, histórias de tráfico, facções criminais, mortes. Aos poucos, esse vínculo direto com o mundo do crime foi deixado de lado e o funk ostentação virou o protagonista.

Com o uso de um forte aparato midiático marcado principalmente pela divulgação de videoclipes no Youtube, o funk ostentação ganhou grande visibilidade dentro de diversas classes sociais. A produção muito bem feita dos videoclipes por profissionais com certa especialização, como o Kondzilla e a Funk TV marcam um período em que a internet torna-se o principal canal de popularização de valores negativos.

Segundo, Alexandre Barbosa Pereira em seu artigo: “Funk ostentação em São Paulo: imaginação, consumo e novas tecnologias da informação e da comunicação” as duas dimensões da dualidade, imaginação e fantasia, estão presentes de forma bastante associada de vida, de ascensão social e mesmo de reversão de estigmas ou de afirmação de orgulho por pertencer a certa condição periférica nas práticas e relações que os protagonistas do funk ostentação estabelecem. “Na cena funk – nos videoclipes, nas músicas, no circuito das casas noturnas e dos produtores – percebe-se, ao mesmo tempo, uma dimensão mais atrelada ao consumo e ao hedonismo e outra ligada a um projeto ou marginal”, explica.

O funk ostentação revela a ânsia da classe trabalhadora de se sentir próxima, ainda que simbolicamente, do estilo de vida que sempre lhe foi vendido como ideal, mas que sempre lhe foi negado. Não restam dúvidas de que essa exaltação do consumo contribui para a fetichização da mercadoria e, como consequência disso, para a reprodução da lógica de funcionamento do sistema em que vivemos hoje.

Contando os plaque de 100, dentro de um Citroën,

Ai nois convida, porque sabe que elas vêm.

De transporte nois tá bem, de Hornet ou 1100,

Kawasaki,tem Bandit, Rr tem também.

 

MC Guimê – Plaque de 100.

 

O funk como reprodutor do machismo

Minhas músicas são machistas, e a sociedade também é – Mc Maromba em entrevista para o O Globo.

vidaloka

Atualmente a banalização da sexualidade é plena, visto que esta é reduzida também a mais uma mercadoria do mundo capitalista, nele é permitido e normalizado que se adquira prazer por meio de produtos eróticos, da prostituição ou até da indústria pornográfica. A regularização de serviços como estes citados, gera uma forte tendência a um mercado similar na indústria fonográfica, em que é notável a vulgarização e a objetificação da mulher e até de crianças.

O funk erótico que se desenvolveu no Rio de Janeiro nos anos 2000 reforça, por meio das letras, a banalização do prazer, cujo contexto social desaparece, no qual o ser humano – dono de uma história própria, que faz parte de uma determinada classe social, que tem uma personalidade – é reduzido a um papel a ser desempenhado no sexo.

De certo tempo para cá, certas pessoas defendem que o funk seria uma maneira de libertação sexual das mulheres, porém essa é uma perspectiva masculina historicamente construída, uma vez que a deturpação da sexualidade foi um processo desempenhado pela atitude dos homens ao longo do tempo. Por terem dominado economicamente as mulheres em dado período histórico que ainda não foi ultrapassado completamente, os homens preocupavam-se mais com o seu próprio prazer do que com o das mulheres no ato sexual, comportando-se de maneira egoísta, o que somente era possível por estarem numa posição de dominadores – note-se que esse comportamento é muito semelhante ao das classes dominantes em geral ao longo da história.

Na proposta do funk, as mulheres começam a comportar-se como homens no sentido historicamente determinado, isto é, pensando somente no seu próprio prazer, gerando individualismo, como é o exemplo de várias Mc`s  que viraram tendência nos últimos tempos, Mc Anitta, Mc Mayara e Valesca Popozuda são exemplos do tipo de reprodução sexual citado acima.

 

mcmayara

De segunda à Domingo, nem um deles se repete

Teoria da Branca de Neve

Por que só ter um, se eu posso ter sete?

Pode falar o que for, princesinha ou piriguete

Sou Mc Mayara, a vida é minha e não se mete

Na minha vida esse é o tema, essa é minha manchete

 Teoria da Branca de Neve

Por que só ter um, se eu posso ter sete?…

 MC Mayara – Teoria da Branca de Neve.

 

 

Pensou, que eu fosse cair mesmo nesse papo?

Que, tá solteiro e agora quer parar

Eu, finjo, vou fazendo meu teatro

E te faço, de palhaço, pra te dominar

 Tá fazendo tudo que eu mando

Achando que logo vai me ter

Mas no fundo eu só tô brincando com você

 Mc Anitta – Meiga e Abusada.

 

No entanto em inúmeros casos a mulher perde seu protagonismo nas canções e passa a ser novamente tratada como objeto de consumo dos homens. Videoclipes com carros, dinheiro, marcas e mulheres rebolando para seus homens são frequentemente disseminados e ganhadores de grande audiência. O ultimo grande “hit” foi o “Tá tranquilo, tá favorável” de Mc Bin Laden, neste o funkeiro esbanja dinheiro em uma lancha e claro, muitas mulheres seminuas. Foram 26.966. 450 visualizações em um mês.

lucas-lucco-e-bin-laden

O funk e a erotização infantil

crianças do funk

São vários os casos de crianças no mundo do funk, inclusive já existem diversas empresas tornando-se especialistas no assunto, além disso, distintos Mc’s são alvos de investigação no Ministério Público paulista. Conforme divulgou a revisa Fórum, a então secretária-executiva do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), Isa Oliveira, afirma que a situação omite não somente a exibição e a hipersexualização de crianças e adolescentes, mas até mesmo a exploração da mão de obra infantil.

Ela assegura que, nesse tipo de prática artística, a Justiça considera as garantias de precaução da inteireza física, psíquica e moral dos menores, bem como as restrições de horário e lugares de apresentação. Os casos de sexualização infantil também demonstram um traço do machismo presente do Brasil, posto que, alguns funkeiros mirins não são alvo de criticas, mas somente as garotas, como foi o caso de Mc Melody, uma criança de 8 anos que canta sobre recalque.

Nova moda que pegou

Já estourou em São Paulo

Geral com aparelho, todo personalizado

 Sei que as menina gosta

Do rosa, roxinho e vermelho

 Tu vai lamber

Tu vai dar beijo

Tu vai mamar com essa boquinha de aparelho

Mc Brinquedo – Boquinha de Aparelho

 

mcpedrinho

Putaria que eu vou mandando

Na moral esse é o plano

Putaria que eu vou mandando

Na moral esse é o plano

Menina senta no cano

Menina senta no cano

Mc Pedrinho – Menina Senta no Cano

 

 

É necessário unificar à nossa população a sociedade que mora nas favelas. E não somente nota-los com a impassibilidade e distância de um naturalista inglês na savana africana. Deste modo não temos que fechar os olhos. Não quando crianças cantam “Lá vem dois irmãozinho de 762; Dando tiro pro alto só pra fazer teste” quando vemos crianças dançando como se segurassem armas. Não no momento em que o que mais motiva os cidadãos é obter cordão de ouro importado e um carrão para “comer cachorras” por aí.

Não quando se divertem cantando “vou largar minha casa e vou morar no cabaré” em um meio em que, crianças entram para o tráfico e morrem com 4 tiros na cabeça após crescerem revoltadas e sem pai. Muito menos quando toda essa cultura é produto da exclusão social e da omissão do nosso próprio país. Isso sim, pra mim, é elitismo.

Já é mais que necessário admitirmos que boa parte da população que ouve e dissemina o funk é uma população excluída socialmente e que essas pessoas precisam de acesso a diferentes tipos de cultura, o abandono desses indivíduos gera valores negativos que são reforçados por uma mídia onipresente em um círculo vicioso.

Um repúdio que induz a cultura dessas pessoas a se arruinar. Em que as pessoas não têm circunstâncias de avultar sua individualidade já que se habituam a uma cultura de massa local que só destaca sexo, ostentação e violência.

A indústria cultural transfere as características da dominação da técnica para os bens culturais na modernidade, adaptando os produtos a um consumo de massa aliado aos interesses do capital para assim construir um grande sistema.

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