Cada país possui suas heranças históricas, independente do tempo que decorra, seus resquícios do passado sempre vão estar presentes. ?A história é émula do tempo, repositório dos factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro? (Miguel de Cervantes, Dom Quixote).

 Juliana Lima, aluna do ano do Curso de Jornalismo da PUCSP

Completa-se 50 anos do golpe e da ditadura militar brasileira, um período que ainda deixa suas marcas em nossa atual sociedade. Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, professor do departamento de política da PUC-SP, doutorado e pós doutorado em Ciências Sociais, aborda alguns desses vestígios; a permanente presença, menos ostensiva e mais efetiva, dos militares na política, uma ausência de reforma agrária, aumento da centralização de capital e do processo de favelização, contínuo crescimento do neoliberalismo brasileiro, danos ambientais muito grandes e  um genocídio das populações indígenas do Brasil, causando uma destruição ao patrimônio físico e cultural do país.

Passamos do regime ditatorial de 21 anos para aclamada democracia, entretanto, todos que participaram e ajudaram a manter o antigo sistema continuam impunes, ou seja, uma transição que não causou fortes danos morais, físicos ou financeiros aos envolvidos. É simples perceber a coerência de tal afirmação quando fazemos uma comparação com a Argentina, onde o general Jorge Videla morreu na prisão pagando os seus crimes da ditadura, em contrapartida, no Brasil, o torturador Ustra continua solto.

Para o professor Lúcio nós estamos vivendo o período de mais ampla democracia liberal na história do país e o mais próximo que chegamos disso foi no governo do Goulart e do Juscelino Kubitschek, entretanto essa democracia liberal é burguesa, por isso possui limitações, e a maior delas é a capacidade de intervenção militar na política. ?É um Brasil que no primeiro de abril militares elogiam o golpe de 64 e não são punidos?.

Segundo o professor cobra-se bastante dos militares, mas deve-se exigir também do grande empresariado que comanda os meios de comunicação no país, que não foram presos, pelo contrário, viraram nomes de ruas, pontes e avenidas. E por isso a Lei de Anistia, aprovada em 1979, não consegue ser revogada atualmente, porque a correlação de forças continua favorável aos golpistas. ?Se houver uma investigação profunda acerca da ditadura os grandes meios de comunicação ficariam em péssima situação, assim como o grande empresariado e políticos profissionais, que em sua maioria, apoiaram o golpe e a ditadura e cresceram junto com ela.?

Na época do golpe militar brasileiro estava ocorrendo a Guerra Fria. Quando questionado sobre a possibilidade do Brasil torna-se um país comunista, em 1964, devido a eclosão dos movimentos populares, Lúcio responde que dificilmente haveria risco de uma revolução socialista no Brasil, a não ser que houvesse uma organização popular muito grande e isso não existia no período. Concluindo, ele diz que deve ser destacado a participação ativa do grande empresariado e mídia brasileira a favor do golpe. Com relação a essa preposição final, José Salvador Faro assistente doutor da PUC-SP e professor em Comunicação da UMESP, fala que o período de permanência de João Goulart no poder foi marcado por várias crises, principalmente porque ele tentava uma política de conciliação entre os interesses das classes médias e altas junto com os das camadas populares. A tendência da mídia foi ser coerente com o seu conservadorismo e associar-se aos grupos contra Goulart e adeptos ao golpe, por isso quanto mais o Jango falava da reforma agrária mais a mídia fazia campanha contra ele. “Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: Saia!” (Do editorial “FORA!”, 1° de abril de 1964 – Correio da Manhã).

?A mídia tradicional no Brasil, por ser uma instituição que está nas mãos de poucos grupos privados, não é plenamente democrática?, diz o professor Faro. Essa afirmação demonstra a existência de uma mídia brasileira detentora de um monopólio da informação, que na maioria das vezes, acaba priorizando interesses privados, ao invés, de preocupações públicas.

O colunista ,do site Carta Maior, Venício Lima , em seu texto Quem ?Controla? a mídia ?, diz o seguinte sobre o Brasil: ?”Aqui sempre tivemos concentração no controle da mídia, até porque, ao contrário do que acontece no resto do mundo, nunca houve preocupação do nosso legislador com a propriedade cruzada dos meios. Historicamente são poucos os grupos que controlam os principais veículos de comunicação…?. Por isso é possível compreender porque a resistência ao golpe militar foi fraca, os grupos sociais tinham baixo índice de organização e as mídias não os ajudava”.

?No Brasil, 1964 pode ser descrito como o ano da imprensa colaboracionista. Os intelectuais jornalistas traíram o compromisso com a verdade e com a independência por desinformação, conservadorismo e ideologia.?(Carta Capital – 50 anos de golpe, Juremir Machado da Silva)

Trecho do editorial do jornal O Globo, do dia 2 de abril de 1964, intitulado Ressurge a Democracia: “Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições”?. Após a leitura de tal fragmento fica claro o posicionamento favorável do jornal à retirada do governo anterior, democraticamente eleito, e o seu apoio ao começo da ditadura militar no Brasil.

A diferença da nossa atual sociedade com relação à de 50 anos atrás, com relação à mídia e imprensa brasileira, é a dimensão que a internet e as redes sociais ganharam devido a continua evolução tecnológica, ou seja, hoje em dia qualquer um pode ter ao alcance de suas mãos a informação que desejar. Aquele velho processo de ir até a banca de jornais ou esperar o telejornal, ou programa de rádio começar para saber as noticias e acontecimentos diários não é mais necessário. Com isso as mídias tradicionais têm uma espécie de vulnerabilidade- mesmo possuindo plataformas digitais -, decorrente da concorrência com os meios eletrônicos, porém sua ideologia conservadora é a mesma de antes, mas agora sua postura tornou-se mais defensiva.

A comunicação tradicional não pode mais ignorar ou ?manipular? os movimentos que acontecem na sociedade, como no passado já fez, agora ela possui uma acirrada rivalidade digital. As manifestações de junho de 2013 contra o aumento da tarifa do transporte público, por exemplo, foram organizadas, principalmente, através das redes sociais, e o seu impacto social foi tão grande que a mídia tradicional recuou com seus discursos ostensivos e começaram a exaltar e mostrar o caráter pacificador do movimento.

clip_image006

clip_image004Partindo do atual posicionamento defensivo das mídias tradicionais e sua concorrência com os meios digitais, a Rede Globo encontrou-se intimidada quando as manifestações do ano passado começaram a relembrar o seu passado. Decorrente disso, o jornal O Globo publicou em 31/08/2013 seu editorial Apoio Editorial ao Golpe de 64 foi um erro, o texto inicia-se com a seguinte afirmação : ?Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: ?A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura?. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura…?. É inútil tal potência midiática querer esconder seu passado, a solução foi redimir-se. Segundo o professor Lúcio enquanto houver situações em que existam lutas, a tendência é a recuperação da memória do país, a população depara-se com o que estava invisível e começa a questionar-se, assim como foi o caso da Rede Globo.

?Há quase 50 anos, o Brasil assistiu a um golpe militar que impôs a pior ditadura de sua história, responsável por crimes contra a humanidade, terrorismo do Estado, censura e arbítrio.?(Folha de São Paulo – Negacionismo, Vladimir Safatle). A atual sociedade brasileira contém seus resquícios do passado, entretanto, é possível melhorar o presente e diminuir tais vestígios não cometendo os mesmo erros. A luta por um Brasil mais democrático e com meios de comunicação voltados aos interesses públicos e não privados precisa ser ininterrupta.