Cypherpunks: o futuro da internet na sociedade de controle

Por Rute Pina

O filósofo francês Gilles Deleuze, ao caracterizar a passagem da sociedade disciplinar para a sociedade do controle que emergia ao fim da Segunda Guerra Mundial, afirmou, no artigo “Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle”, que “os indivíduos tornaram-se ‘dividuais’, divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou ‘bancos’”. Dessa forma, no mundo atual, todo indivíduo foi reduzido a códigos: bases nitrogenadas, com o mapeamento genético, endereços IP (Internet Protocol) e dados, com o mundo informatizado. E nesta sociedade inteiramente codificada, o acesso é livre a quem possui as senhas e chaves.

É esse mesmo alerta que fazem, de certo modo, os autores de Cypherpunks – liberdade e o futuro da internet, lançado há pouco mais de um mês pela Boitempo Editorial. Transcrição de um debate realizado em março de 2012 entre Julian Assange, fundador do Wikileaks, Jacob Appelbaum, desenvolvedor do software de criptografia TOR Project, Andy Muller-Maguhn, porta-voz do grupo hacker Chaos Computer Club, e Jérémie Zimmermann, ativista da ONG La Quadrature du Net, o livro coloca em questão a problemática da transformação da internet como instrumento de vigilância e controle por aqueles que detém seu monopólio técnico e arquitetônico, pondo em risco seu potencial emancipatório e democrático.

O livro não subvaloriza as tecnologias da informação que realmente modificaram, por exemplo, as noções de distância e espaço e a dinâmica da comunicação, o que facilitou desde interações no âmbito privado e familiar até mesmo articulações e debates públicos que colaboraram, a seu modo, com a Primavera Árabe em 2011. Contudo, ao invés do entusiasmo exacerbado com que são geralmente vistas, traz uma análise mais crítica e cautelosa de uma realidade em que programas de intercepção de dados avançados são implementados sem restrições em escala global e custam hoje muito menos do que armamentos de guerra (enquanto uma aeronave militar custa US$100 milhões, a empresa VASTech, da África do Sul, oferece sistemas de armazenamento de ligações por US$10 milhões).

“A complexidade e o sigilo constituem uma mistura tóxica” – Assim, engana-se quem acredita que a privacidade, censura e vigilância são pautas que preocupam apenas aqueles que vivem sob regimes autoritários que restringem e cerceiam claramente os conteúdos na Internet; os países ocidentais ditos democráticos também incorporam na rede, de forma silenciosa, uma lógica militarizada e de vigilância, dominando suas bases físicas e a tecnologia “que não é feita para ser entendida”, como afirma Zimmermann. O desconhecimento desta parte técnica impede, por exemplo, as pessoas de modificar e desviar a finalidade que os fabricantes impuseram a seus dispositivos.

Além disso, algumas leis vêm sendo elaboradas em todo o mundo possibilitando a interceptação e espionagem sem ao menos o consentimento ou conhecimento dos “réus”. Nos EUA, por exemplo, após o 11 de setembro, uma série de medidas jurídicas excepcionais foi tomada sob o pretexto do combate ao terrorismo, que permitiu o governo a implantar o Patriot Act. Essa lei prevê a espionagem de cidadãos, interrogações de possíveis suspeitos de espionagem ou terrorismo sem direito a defesa ou julgamento. Dessa forma, a lei deu subsídio para que o governo pudesse coletar dados de cidadãos americanos, obrigando até mesmo empresas como o Twitter e Google – que reúnem uma quantidade enorme de informações de seus usuários – a cedê-los.

“A internet é uma ameaça à civilização humana” – Embora o tom pareça apocalíptico, os temores dos ativistas são bem reais e fundamentados: eles próprios vêm sofrendo uma série de retaliações e processos jurídicos por conta do ativismo na internet. O Wikileaks, por exemplo, organização descrita no livro como “pós-governamental” e que segue a máxima do movimento cypherpunk – “privacidade para os fracos, transparência para os poderosos” – sofreu um bloqueio financeiro fora de qualquer processo judicial ou administrativo por grandes instituições como Visa, MasterCard, PayPal e Bank of America depois que divulgou milhares de documentos oficiais sigilosos (e que mostraram como funcionam as mediações e relações de poder no mundo). Assange, atualmente, está asilado na embaixada equatoriana há quase um ano sob risco de extradição.

Mas o que se pretende com o livro não é a tomada de consciência pelo leitor da condição centralizadora da internet e de como ela se tornou um instrumento de controle e apenas se policie, fazendo da autocensura uma solução para driblar a vigilância. É justamente no contrário que o movimento dos cypherpunks acredita. Eles defendem a utilização da criptografia, que de forma simplificada seria o uso de uma linguagem codificada, ou métodos similares para que o ciberespaço desenvolva todo o seu potencial comunicacional e possibilite a atuação política sem o temor da censura.

Mas para enganar e confundir o poder, mais do que apenas criar novos, faz-se necessário embaralhar e brincar com eles, possibilitando que a mensagem chegue livre ao seu destino e permitindo que a internet um espaço realmente semocrático.


Vídeo da ONG FreeNet alerta para a privacidade na rede

Cypherpunks – liberdade e o futuro da internet

Título original: Cypherpunks: Freedom and the Future of the Internet
Páginas: 168
Editora: Boitempo Editoral
Leia aqui a apresentação escrita pela jornalista Natália Viana.

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