Crédito: Rute Pina

Eleição

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) é uma das únicas instituições de ensino do Brasil a escolher sua reitoria por meio de um processo democrático. As eleições diretas, na qual estudantes, professores e funcionários exercem seu direito através do voto paritário, são realizadas a cada quatro anos desde 1980, representando um vanguardismo político no Brasil, que vivia sob regime militar – na época, Dom Paulo Evaristo Arns era o Grão-Chanceller da Universidade e Nadir Kfouri foi a primeira mulher a ocupar o cargo de reitora no país.

O ano de 2012 foi um marco (e uma mancha) nessa história democrática da PUC-SP. O pleito eleitoral se apresentou como todos os anos: três chapas inscreveram suas propostas de gestão da Universidade, houve debates, campanhas eleitorais e, durante uma semana de agosto, cabines e urnas estiveram dispostas em todos os campi da Universidade.

Vídeo: entenda como funciona a eleição para reitor na PUC-SP

Roda-viva

Documento assinado durante debate entre os candidatos à reitoria onde se comprometem a recusar qualquer nomeação ao cargo se não forem o primeiro colocado

Contudo, a comunidade puquiana já suspeitava uma possível manobra da Fundação São Paulo para intervir de vez na PUC-SP – mantenedora da instituição, a Fundasp vinha ampliando seu poder na Universidade desde 2006 com o redesenho institucional e a criação do Consad (Conselho Administrativo composto por dois representantes da Fundasp e pelo reitor).

Assim, os estudantes organizaram um debate em que Dirceude Mello, Francisco Serralvo e Anna Cintra, os três candidatos à reitoria, participaram. Durante o evento, no qual várias questões importantes para o futuro da Universidade foram debatidas, os candidatos assinaram um documento no qual alegavam, caso não fossem o mais votado no pleito eleitoral,  que não aceitariam a nomeação.

No estatuto da PUC-SP, está previsto que as eleições fornecem uma lista tríplice – que coloca em ordem decrescente os mais votados na eleição – que é homologada pelo Conselho Universitário (Consun) da Universidade e depois segue para o Grão-Chanceller e Arcebispo de São Paulo, que pode referendar a escolha da comunidade ou indicar outro nome. Nunca em toda a história da universidade havia sido escolhido outro nome que não o mais votado.

Vinheta produzida por Ster Farache para a Rede PUC

O golpe

Crédito: Rute Pina

A comunidade puquiana, com o documento assinado no Roda-viva, ficou mais tranquila e as eleições foram realizadas normalmente. O resultado, que previa a reeleição de Dirceu de Mello, mesmo após acusações de golpe e impugnação de uma urna de Sorocaba, foi homologado pelo Conselho Universitário (Consun) em 31 de agosto. Depois disso, a lista-tríplice foi encaminhada ao Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer. A demora da escolha encadeou uma série de indícios de que o professor Dirceu de Mello, o mais votado, poderia não ser indicado pelo Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer. O que realmente se comprovou verídico em 13 de novembro.

Por volta das 19h da quarta-feira, às vésperas de um feriado de seis dias na cidade de São Paulo, uma nota no site oficial da PUC-SP anunciava: Anna Cintra, última colocada no pleito eleitoral, foi indicada reitora por Dom Odilo. Os estudantes convocaram às pressas uma Assembleia às 21h na Prainha, no Campus Monte Alegre, para decidir conjuntamente como proceder diante do golpe sob tradição democrática da PUC. Imediatamente após a assembleia, os estudantes fizeram cadeiraços pelo campus e ocuparam a reitoria, que foi entregue no dia seguinte, em um ato simbólico, a Dirceu de Mello. Neste mesmo dia, a Apropuc (Associação dos Professores da PUC-SP), a Afapuc (Associação dos Funcionários Administrativos da PUC-SP) e os estudantes decretaram greve geral por tempo indeterminado.

Vinheta produzida por Carla Antunes para a Rede PUC

Crédito: Rute Pina

Reportagens

[Último Segundo] Após ocupação da reitoria, estudantes da PUC-SP fazem greve

[TVT] Estudantes ocupam a PUC-SP contra eleição de reitora indicada pela igreja

Artigos

O cardeal e o falsário, por José Salvador Faro

Perplexidades, por Jorge Cláudio Ribeiro

Universidade Católica?, Vladimir Safatle

Um ataque à democracia na universidade, Carlos-Arthur Ribeiro do Nascimento, Jeanne Marie Gagnebin e Salma Muchail

Identidade e pluralismo: a missão da PUC-SP, Dom Odilo Pedro Scherer

O movimento

Crédito: Rute Pina

Após o feriado, o movimento voltou com mais força. Vários cursos de outros campi também aderiram a greve. No dia 21 de novembro, o TUCA ficou lotado: foi realizado um ato público pela democracia na PUC-SP. Os três candidatos, a Apropuc, Afapuc e a Fundasp foram convidados a comparecer e prestar esclarecimentos a toda a comunidade – nem Anna Cintra, nem a Fundação compareceram ao evento ou haviam se pronunciado na época.

Entrevista com Nalcir Antonio Ferreira Junior, presidente da AFAPUC (Associação dos Funcionários Administrativos da PUC-SP), durante o Ato Público no TUCA

O ambiente da Universidade foi tomado durante toda a semana por atos, uma rádio, passeatas e assembleias. Aulas públicas foram o grande destaque da programação grevista e contou com nomes como Marilena Chauí, José Miguel Wisnik e Celso Favaretto, Vladimir Safatle (que deu uma aula no vão livre do Masp, de onde se seguiu uma passeata que terminou no Campus Consolação). Outra grande atividade do movimento grevista foi a a polêmica Procissão Político-poética do dramaturgo Zé Celso, que aconteceu no Pátio da Cruz no dia 27 de dezembro e teve destaque na capa da Folha de S. Paulo no dia seguinte.

Aulas públicas Com José Miguel Wisnik e Celso Favaretto. Com Marilena Chauí. Tema: Genocídio. Com Marijane Lisboa (Com depoimento de sobrovivente húngaro do holocausto nazista). Tema: Memória e Verdade. Com Rosalina Santa Cruz, Marijane Lisboa e mediação de Jeanne Marie Gagnebin.
Watch live streaming video from agejor_pucsp at livestream.com(1/03/13)

PALESTRA PROF.ROBERTO MACHADO

Reportagens

[Outras Palavras] Por que a PUC-SP está parada

[Folha] Professores decidem manter greve na PUC-SP

[R7] Professores da PUC-SP votam e decidem pela continuidade da greve

[Record News] Professora da PUC comenta a greve na universidade

[RedeTV!] Alunos, professores e funcionários decidem manter greve na PUC-SP

Vídeo da intervenção de Zé Celso na PUC-SP

Decapitando o Papa na PUC from Teat(r)o Oficina on Vimeo. Artigos A universidade e o estranhamento, por Jonnefer Barbosa Crítica à cobertura da grande imprensa do golpe puquiano, por Rodolfo Costa Machado

Recurso

Paralelamente a todos esses eventos, um recurso pautava a luta também no campo jurídico. O Centro Acadêmico 22 de agosto, Centro Acadêmico de Relações Internacionais e a Afapuc apresentaram no Consun um recurso para impedir a posse da Anna Cintra. O documento alegava que a candidata havia violado normas do Estatuto da PUC-SP, regimento interno da universidade e até as disposições canônicas por agir de má fé, ao ignorar a promessa feita à comunidade e aceitar a reitoria.

No dia 28 de novembro, uma reunião extraordinária do Consun foi convocada para debater e votar o recurso. Anna Cintra também não compareceu à reunião, delegando apenas um advogado para representá-la. O conselho lhe deu a chance de se pronunciar novamente na tarde do mesmo dia, o que não aconteceu. Assim, o Consun decidiu pela suspensão da lista tríplice o que faria com que a posse, que estava prevista para o dia seguinte, fosse também suspensa. A universidade entraria em estado de vacância, e, para o cargo não ficar vago, os conselheiros indicaram Marcos Masetto, professor do programa de Pós-graduação de Educação, como reitor interino até a posse do próximo reitor.

Reunião do Conselho Universitário (Consun) em 28 de novembro de 2012 - Parte 1 Reunião do Consun em 28 de novembro de 2012 - Parte 2 [Folha] Conselho suspende a posse de reitora, mas PUC-SP mantém

Consun Golpista

Crédito: Guilherme Almeida

Anna Cintra foi empossada no dia 29 de novembro e tentou ignorar o movimento grevista, que, segundo ela, em entrevista à Folha, seria coisa de algumas dezenas de alunos. Ela tentou assumir a reitoria no campus Monte Alegre na manhã do dia 30, mas foi impedida por estudantes que faziam vigília na frente da Universidade. Mesmo assim, a nova reitoria convocou uma reunião do Consun pela nova gestão para o dia 19 de dezembro, que novamente foi impedida de acontecer. No mesmo dia, um despacho da 4ª Vara Cível determinou que a professora deveria se abster de praticar qualquer ato relativo à gestão da universidade, sob pena de multa de R$ 10.000 por ato. Contudo, a Fundasp entrou com vistas à decisão e Anna Cintra, atualmente, ocupa as funções da reitoria, enquanto a comunidade aguarda (e ainda se movimenta), esperando a decisão do jurídico.

[Folha] "Igreja interviria se eu não assumisse", diz reitora da PUC-SP

[Folha] Estudantes da PUC-SP dizem que não reconhecem nova reitora

[Estadão] Alunos da PUC-SP barram reunião surpresa convocada pela nova reitora

[Estadão] Justiça afasta nova reitora da PUC-SP

[Última Instância] Justiça afasta temporariamente Anna Cintra da reitoria da PUC-SP

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