Por Rute Pina Um índio ianomâmi de 270 m² paira em uma das avenidas símbolos de São Paulo. O painel faz parte da exposição “Sonho verde azulado”, que ficará no Prédio Histórico dos Correios, no centro da cidade, até novembro de 2013. Composta por mais quatro grandes fotografias expostas no interior do edifício, a obra dá visibilidade à luta do povo ianomâmi, característica que norteou toda a carreira de Claudia Andujar. A fotógrafa, que deixou o jornalismo durante a ditadura militar, quando trabalhava na conceituada revista Realidade, não faz distinção entre estética e política e, em seu caminho, mistura a sua arte com o engajamento. Andujar, que nasceu em 1931 na Hungria, dedicou mais de quatro décadas de sua vida à causa do povo indígena, sendo uma das fundadoras da Comissão pela Criação do Parque Yanomami em 1978 e coordenando a campanha de demarcação das terras. Ela admite que, em cada registro, seu olhar busca o que há de mais bonito e positivo naquele povo: “Isso me agrada como ser humano”, afirmou em entrevista concedida por telefone à Agemt, na qual contou também sobre a sua relação com o povo ianomâmi e o choque cultural entre indivíduos pertentão diferentes. “Eu acho que eles ficaram com medo de que eu estivesse tirando a alma deles através da fotografia”, contou Andujar, que através de suas imagens ajudou a revelar um pouco do corpo e do espírito ianomami. Agemt – O que representa para você um grande painel com um índio ianomâmi, de um povo tão oprimido, na Avenida São João, um dos símbolos de São Paulo? É a visibilidade que você sempre quis? Claudia Andujar – Eu acho que sim, dá esta visibilidade. E outra questão importante são as cores. É uma menina fotografada em várias posições que, como você sabe, uma parte é azul e a outra é verde. Isso, para mim, representa as cores básicas da natureza. Quer dizer, o verde representa a floresta, as árvores; e o azul, representa a cor dos rios e do céu. Isso também é importante porque, para os ianomâmis, a coisa mais importante é manter a natureza viva e com isso continuar a vive como viveram séculos e séculos. Agemt – Neste trabalho, você optou por resgatar fotografias que havia tirado anteriormente, mas após a aplicação de técnicas da “refotografia”. CA - Essas imagens pertencem a muitas outras imagens que fiz nas minhas andanças no mato, quando estive entre eles procurando conhecer a vida deles. Elas foram feitas em 35 mm em P&B. Eu, posteriormente, refotografei uma parte do meu acervo. Na verdade, quando fiz isso, eu dei uma animação a estas fotos que permitiam projeções, para exposições projetadas nas paredes. Eu fiz toda uma série disso para uma multi-projeção no MASP em 1988, na qual eu quis juntar minha experiência, o que vivi e experimentei durante os anos que trabalhei com eles, entre 1971 e 1978 - depois eu retomei os trabalhos, mas esta parte aqui vem desta pesquisa, do momento em que os ianomâmis estavam sendo invadidos por garimpeiros e passaram muito mal. Primeiro tem todo um trabalho de 1974, quando foi aberta uma estrada no território deles e foi o primeiro grande problema que eu percebi que culminou com a morte de muitos índios, por causa de infecções, doenças que entraram no território em consequência da abertura desta estrada. Depois, começou a invasão de garimpeiros, que era também totalmente ilegal – a construção da estrada foi o governo que fez, então era legal, até que tiveram que parar por falta de dinheiro. Mas a invasão de garimpeiros é até hoje contra a lei, que está acontecendo atualmente também. Agemt – Você foi uma das fundadoras da Comissão pela Criação do Parque Yanomami em 1978, coordenando a campanha de demarcação das terras. E, agora em 2012, ainda vemos vários conflitos entre garimpeiros e ianomâmis, a regularização da exploração de minérios em terra indígena recebeu uma nova versão. Neste contexto, como você vê a luta do povo ianomâmi hoje? Quais foram os ganhos de lá pra cá? CA – Hoje em dia eles têm sua própria organização que, quando comecei a trabalhar lá, não existia. Isso demonstra um desejo de se organizar, de certa consciência, sobretudo, de todos esses problemas que eles estão confrontando. A organização se chama Hutukara. Essa organização pretende abranger toda a área ianomâmi. É uma coisa complexa porque a área é muito grande, é difícil alcançar as comunidades entre eles - não tem outro jeito senão ir a pé, porque não existem estradas internas lá, apenas os caminhos da floresta. Essa comunicação entre eles, até pouco tempo, foi difícil por causa das distâncias muito grandes. Mas, hoje em dia, estão tentando instalar uma comunicação por rádio, então ficou mais fácil. A radiocomunicação também tem seus limites, mas tem suas vantagens: mesmo não indo a certo lugar, eles conseguem se comunicar por rádio. A Hutukara tenta alcançar a grande maioria dos ianomâmis, isso é todo um trabalho que eles estão fazendo. Eles estão se organizando para poder trabalhar e se entenderem juntos. Faz uns dias que aconteceu uma assembleia ianomâmi em que convidaram muitas comunidades para um lugar onde aproximadamente 200 índios vivem juntos. Foi importante, pois, assim, eles se conhecem cada vez mais entre si e podem falar seus problemas dentro do território ianomâmi. Assim, há possibilidade de eles se defenderem das invasões em frente a uma tentativa, um desejo do governo brasileiro de abrir toda a área para a mineração – coisa que eles não querem. É isso que está acontecendo e esta aliança entre eles está crescendo. Se você pensar que 50 anos atrás isso não existia, então é um grande progresso. No século passado, em 1971, quando eu conheci os ianomâmis, eles nunca haviam visto uma máquina fotográfica, a minha era a primeira. Hoje a juventude já tem máquinas para documentar seus problemas. Eles documentaram para a assembleia um monte de coisas, com máquinas digitais. Agemt – Há muitos fotógrafos que têm, digamos, uma relação de usurpação com os povos indígenas. Vão, registram e não voltam. Mas sua relação com eles é totalmente diferente. Como você lida com essa proximidade com eles, que também são seu objeto de fotografia? CA – Obviamente, eu já fotografava antes de conhecer os ianomâmis. Eu os conheci através da Realidade, que fez uma grande matéria sobre a Amazônia – era um número especial que se chamava, inclusive, “Amazônia”. Estávamos também durante da ditadura e eu decidi na época, junto com outros jornalistas da revista Realidade, deixar o jornalismo. Foi difícil demais trabalhar naquela época. Mas eu decidi me dedicar aos ianomâmis em fotografia, tentar fazer um trabalho aprofundado, que era mais para conhecê-los e fazer outras pessoas também conhecerem aos ianomâmis. Para isso, eu tive que procurar e conseguir algumas bolsas que me permitiram ficar com os ianomâmis por muitos anos. Foi assim que fiz grande parte dos meus trabalhos fotográficos. Agemt – Então essa proximidade te ajudou nos seus registros e fotografias? CA – Não tenho dúvidas. Não posso te responder em nome de outras pessoas, mas para mim, ela é essencial para fazer um trabalho mais aprofundado, para poder ter a confiança dos índios em mim e eu, neles. Agemt – E como foi para eles essa aproximação? Você mencionou que sua câmera foi a primeira que eles viram e isso, certamente, deve ter causado um grande estranhamento entre eles. CA – Sim, sim. Primeiro que a proximidade de uma mulher que era muito fora do âmbito deles já era uma coisa que eles tinham que se acostumar e entender. Eu era de uma cultura muito diferente da deles. Eu fui lá e fotografei, em um primeiro momento. Mas, depois, quando eu comecei a fazer este trabalho mais íntimo, eu não tirei a câmera e comecei a fotografar. Eu quis saber quem eles eram e eu também tive que me abri com eles para que eles soubessem que eu não queria abusar deles ou coisa parecida. Então eu sinceramente tenho que dizer que, nos primeiros dois anos que eu trabalhei com eles, eu fotografei bem pouco, porque eu quis desenvolver uma intimidade e não cair em cima deles no primeiro dia que cheguei lá. Eram outros tempos, mas ainda hoje eu não acho que a gente tem que cair em cima de gente desconhecida, especialmente de outras culturas. Quando eu comecei a fotografar, eles não entendiam o que eu estava fazendo. Eles nunca haviam visto uma foto. Era outro universo, o máximo em que eles se viam era no espelho d'água, eles não tinham espelhos. Eles tinham que aprender isso devagar. Quem era aquela pessoa que ficava seguindo eles o tempo inteiro com uma máquina? Era uma coisa totalmente fora do mundo deles. Hoje eu acho que eles ficaram com medo de que eu estivesse tirando a alma deles através da fotografia. Foi só depois de voltar para São Paulo, revelar filmes, fazer uma imagem em papel que eu voltei e mostrei para eles. No começo, eles não se reconheciam. Foi todo um processo.  Agemt – Você deu uma entrevista recente sobre sua exposição em que você dizia que a gente deveria ver e entender seus painéis “como algo político, como uma maneira de continuar falando dos ianomâmis e acompanhando o que acontece com eles”. Só que muitos ainda insistem nesta separação entre arte e política, o que você não faz. CA – É... Eu não tenho isso. Eu gosto de fotografar, de fazer trabalhos também com novos pensamentos, mas meu trabalho em relação aos ianomâmis nunca é puramente o que se chama arte – apesar de que eu também nem sei muito bem o que é arte. Eu nunca chamo isso de arte. Eu sempre construo com algo que vem muito profundamente dentro de mim, através de pensamentos. Então, provavelmente tenha uma sensibilidade de fazer coisas coerentes, maneiras de apresentar meu trabalho, mas dentro de uma visão de conseguir uma pessoa que, através do meu trabalho, de repente, se interesse por eles e pela situação. Agemt – Muitas vezes, entre as pessoas que visam a um projeto de transformação social ou que tem certo engajamento com movimentos sociais, pouco se preocupam com a questão estética. CA – Eu não sou assim, eu não tenho essa separação. Uma coisa me chamou a atenção, ainda na abertura da exposição, é que falaram que eu sempre pego um lado positivo, um lado bonito dos índios. É verdade. Isso me agrada como ser humano. Eu fico contente que, por exemplo, através desta exposição, tenha gente se interessando em outros, neste caso, os ianomâmis. O lado humano do ser humano, para mim, é muito importante.

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