“Vamos lutar até o fim”, afirma índio guarani-kaiowá

Por Rute Pina “Nós temos que honrar a alma e o espírito de nossos parentes naquele lugar”, disse o professor Oriel Benites, índio da etnia Kaiowá.  A Tekoha – do guarani teko, “costume” ou “modo de ser”, e ha, “lugar em onde” – não é uma palavra que se restringe a caracterizar apenas o lugar onde os índios residem e a terra da qual retiram sua sobrevivência. Segundo a cultura indígena, ela é sagrada: “é uma terra que jamais vamos desistir de conquistar, onde foi derramado o sangue de nossos avós, de nossos bisavôs e de nossos parentes; é onde está o osso corrompido deles”, concluiu o índio. Oriel, que também é representante do conselho Aty Guasu, assembleia que reúne lideranças guarani e kaiowá, estava em São Paulo atendendo aos vários pedidos de entrevistas de jornalistas e aproveitando para divulgar a situação de sua Tekoha no Mato Grosso do Sul. Ele participou do debate "A luta e o luto dos povos indígenas", que ocorreu no dia  31 de outubro na Universidade de São Paulo (USP), juntamente com Dora Martins, ex-presidenta da Associação Juízes para a Democracia, e Spensy Pimentel, jornalista e antropólogo. Nas últimas semanas, a causa guarani-kaiowá repercutiu intensamente por todo o país após uma leitura equivocada de uma carta de um grupo indígena, da qual se depreendia que 170 índios das etnias iriam cometer um suicídio coletivo. No início de outubro, uma ordem judicial determinou a expulsão do grupo de uma área de aproximadamente 10 mil metros quadrados e de reserva legal – o equivalente a um campo de futebol – em uma fazenda de 760 hectares em Iguatemi (MS). Como forma de protesto, lideranças indígenas redigiram uma carta endereçada à Justiça brasileira na qual afirmavam que haviam decidido permanecer no território e, se preciso, resistir até a morte. “Moramos na margem do Rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo […]. E decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos”, lia-se no documento. Este pronunciamento levou várias pessoas a acreditar em um possível suicídio coletivo do grupo. O Mapa da Violência/2011, divulgado pelo Instituto Sangari e o Ministério da Justiça, revela que entre os municípios com índices elevados de suicídios, vários são sedes de assentamentos de comunidades indígenas. “Foram mais de 1000 casos desde o início da década de 1980”, disse Spensy Pimentel, que acompanha a situações dos indígenas desde o início de sua carreira. Segundo ele, o que se tem visto é a utilização do argumento da cultura contra os próprios índios, como foi o caso atual, em que muitos alegaram que os suicídios se justificavam por uma questão cultural. “O suicídio é uma saída extrema que causa muito sofrimento às famílias e tem acometido, principalmente, os mais jovens”. Dora Martins afirmou que, mesmo que a ideia do suicídio tenha sido mal interpretada, a resistência dos índios, que são entregues à violência e desamparo estatal, não deixa de ser uma forma de se entregar para a morte. Segundo ela, “quando você tira de um índio a sua terra e a possibilidade de exercer sua cultura, ele morre”. Nas redes sociais – Tamiris Gomes Guarani-Kaiowá. Lúcia Rodrigues Guarani-Kaiowá. Mariah Guarani-Kaiowá. Após a divulgação da carta, vários usuários do Facebook alteraram seu sobrenome e permutaram suas identidades virtuais em prol da causa do grupo indígena Guarani-kaiowá. “Quando você agrega ao seu sobrenome o Guarani-Kaiowá, é patente, fica registrado que você apoia a luta destes indígenas que são tão massacrados”, explicou Lúcia Rodrigues. Segundo a jornalista da Rede Brasil Atual, que ficou sabendo da movimentação pela própria rede social, as pessoas não têm consciência do que está acontecendo. “Quando você começa a publicizar e tornar transparente tudo o que está acontecendo com estes indígenas, você vai ganhando a simpatia da sociedade pela causa”. A grande agitação ao redor da carta fez com que os grandes jornais pautassem a situação dos guarani-kaiowás e também com que diversos setores da sociedade pressionassem o governo federal que interveio e, no dia 30 de outubro, conseguiu suspender a determinação de reintegração de posse no Tribunal Regional Federal da 3ª Região (São Paulo e Mato Grosso do Sul). “É legal estas mobilizações dos jovens, mas eu acho que é uma luta que será muito longa e muito difícil. Vamos ver se o STF (Supremo Tribunal Federal) terá coragem de julgar crimes contra os indígenas assim como o Mensalão”, afirmou Dora, que acredita que apenas a suspensão da ordem judicial não é o bastante. Segundo a juíza, uma grande questão a ser levada em conta quando se trata da garantia dos Direitos dos indígenas é o modo como a Justiça brasileira enxerga o índio; ela acredita que o olhar viciado da justiça possa contribuir com violação de seus direitos. Justiça – “Como este índio vota, índio ele não é mais”, disse um promotor de justiça de São Paulo em um relato de Dora Martins. Segundo a juíza, este é um dos exemplos de como a justiça brasileira não está preparada para lidar com a questão indígena. “Há muitas formas de minar e destruir o indígena através de sutilezas e, muitas vezes, isso é feito dolosamente. Outras vezes, por ignorância”. Um juiz, lembra Dora,  já encerrou um processo em que se investigava um crime de uma aldeia porque todas as testemunhas eram indígenas. “O juiz ouviu três, quatro pessoas na aldeia e depois julgou da seguinte forma: ‘como as testemunhas são só indígenas, não há provas’. Ora, então indígena não é nada?”, questionou a juíza. “O índio é negado na cultura jurídica brasileira”, complementou. Os guarani-kaiowás são o segundo povo indígena mais populoso do Brasil hoje – somam cerca de 43 mil indígenas concentrados em uma região de grande atividade do agronegócio, principalmente o cultivo da soja e da cana-de-açúcar, como informa o relatório da Repórter Brasil, “Em terras alheias”, e também mostra o documentário À Sombra de um Delírio Verde. Contudo, os indígenas seguem resistindo às perseguições de pistoleiros e empresários. “Por mais que os fazendeiros derramem todos os tipos de veneno naquele lugar, eles jamais vão tirar as marcas de sangue de nossos parentes. Vamos lutar até o fim”, concluiu o índio Oriel. Saiba mais: [Época] “Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui” – Eliane Brum [Rede Brasil Atual] Decisão judicial que suspende despejo de Guarani-Kaiowá não impede ataque de fazendeiros [CBN] Sociedade brasileira toma dores de grupo de índios guarani-caiovás Crédito foto: Felipe Dana/AP

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