Treinadores de Santos e Flamengo estão mostrando como jogar um futebol bonito e ao mesmo tempo eficiente

            O dois “Jorge’s” desembarcaram no Brasil com certo questionamento. Sampaoli, argentino, chegou no começo do ano, contratado pelo Santos. Teve um trabalho ruim a frente da seleção argentina, que teve dificuldade para passar de fase na Copa do Mundo de 2018 sob seu comando, depois passando timidamente pelo Sevilla, da Espanha, até chegar à Baixada Santista. Jesus, português, teve trajetória parecida com seu “xará” em sua curta carreira no Brasil. Antes de aterrissar no Rio de Janeiro para treinar o Flamengo, em julho, o gajo não trazia consigo grandes trabalhos em clubes de expressão, ficando somente em Portugal e conquistando alguns títulos em seu país. Dessa forma, os “gringos” não inspiravam tanta confiança em seu torcedor e eram motivo de piada para os rivais. Isso só até eles implementarem o trabalho e surpreenderem a todos.

            Jorge Jesus e Jorge Sampaoli estão deixando os apreciadores desse esporte no Brasil boquiabertos. Um futebol pra frente que procura ditar o ritmo da partida rivaliza com um modelo retrógrado e defensivo que assola o país nos últimos anos. O esporte é jogado pelos brasileiros de forma pragmática, com poucos gols e calçado na defesa, faltando ousadia e coragem para treinadores. E não importa a qualidade dos jogadores que o time possui, a tradição, a grandeza, raros técnicos mostram repertório para sufocar os adversários. Um grande exemplo disso é o Palmeiras de 2018, que acabou a temporada campeão brasileiro, mas jogando um futebol pobre. Tinha uma que defesa pouco sofria e um ataque que produzia o necessário, dependendo de atuações inspiradas dos jogadores de frente, principalmente do craque do time, Dudu, que foi fundamental para a campanha do título. O time treinado por Luiz Felipe Scolari foi só o 8º em média de posse de bola do campeonato, dado que todos os campeões dos torneios ao redor do mundo têm em maior colocação, evidenciando o fraco futebol jogado em nossas terras, que repele a bola, que quer ganhar fazendo o mínimo.

            Jorge Jesus e Jorge Sampaoli não querem ganhar fazendo o mínimo. Os treinadores estrangeiros, que aprenderam futebol de outra forma, jogam para frente, querem fazer o máximo de gols possível. Se Flamengo ou Santos fazem 1×0, enquanto os técnicos brasileiros recuariam o time para segurar o resultado, Jesus e Sampaoli acreditam que essa é a melhor hora para intensificar o time no momento ofensivo, para fazer mais gols e matar o jogo. Esses dois mostram que eficiência e bom futebol não são coisas opostas, algo que para os treinadores brasileiros parecia ser a maior mentira do mundo. Tanto que Flamengo e Santos são 1º e 3º colocados do campeonato nacional, respectivamente. O time do português, inclusive, está na final do torneio internacional Copa Libertadores e é o “moral” Campeão Brasileiro, com mais de 99% de chance de faturar o título. O Santos de Sampaoli não ganhou título esse ano, mas com um elenco mais modesto e mais barato que muitos outros, pode-se dizer que o argentino está fazendo um belíssimo trabalho por estar entre os três melhores times do campeonato.  

            Gabriel Mendes, torcedor do Flamengo, está muito feliz com a fase do time e coloca os créditos em Jesus. “Nosso time tem grandes jogadores, ‘Gabigol’, Bruno Henrique, Gerson, mas quem faz a diferença, que extrai todo o potencial de todos, que faz o time jogar encaixado, é o ‘Mister’”, diz Mendes, referindo-se ao técnico como a torcida flamenguista carinhosamente o chama, já que os treinadores na Europa são chamados assim. Adalberto Lino, torcedor santista, também está satisfeito com o desempenho do clube na temporada, e acredita que só não estão melhores pelo não tão alto investimento. “Nós temos jogadores de nível mais baixo, não tem jeito. Mas o trabalho que esse argentino faz, colocando a gente brigando pelo título brasileiro em alguns momentos, é espetacular”, diz Lino.  

            Porém, não são a todos que os treinadores estrangeiros agradam. Jesus e Sampaoli sofrem constantes ataques por parte dos técnicos brasileiros, que ficam incomodados com o fato de questionarem seus trabalhos em comparação aos dois. Mano Menezes, atual técnico do Palmeiras, disse para trazerem jornalistas portugueses para julgar o trabalho dos brasileiros, menosprezando o trabalho feito por Jesus. Já Levir Culpi, atualmente desempregado, debochou de Sampaoli, dizendo que ele será o próximo treinador da seleção brasileira, por “andar de bicicleta, é tatuado e argentino”. 

            Fato é que Jorge Jesus e Jorge Sampaoli representam a essência do futebol brasileiro. O futebol ofensivo, que não mede forças para amassar o adversário, foi o futebol que o torcedor desse país aprendeu a apreciar. Os times de Pelé, Zico, Romário, ícones do esporte no Brasil e no mundo, todos possuíam essa característica. Esses dois Jorge’s estão nos lembrando como se joga futebol. Um português e um argentino. Portugal não tem nenhum título mundial e a Argentina tem dois. O Brasil tem cinco.  

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