A exposição “Histórias das mulheres, histórias feministas” divide artistas do século 16 ao 19 que abordam a questão da mulher.

Por Carolina Faita e Isabella Mei

Exposição História das Mulheres, Histórias Feministas MASP 2019

Em 23 de agosto o MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand) abriu suas portas para mais uma exposição voltada para artistas mulheres. A mostra tem o propósito de colocar artistas mulheres em destaque, como as assinantes das obras. 

O pontapé inicial para o foco no feminino foi em 2017, com um cartaz promovido pelo grupo artístico anônimo Guerrilla Girls, questionando se “as mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo”. O letreiro destacava que apenas 6% das obras do MASP eram assinadas por mulheres, ao passo que 60% dos nus eram femininos. 

Figura 1 Guerrilla Girls, As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo? 2017

O cenário aparenta estar mudando, pois em 2019 o foco das exposições temporárias foram as mulheres, desta vez assinando as obras. Ocupantes do primeiro andar, junto com o subsolo, as mostras Histórias das Mulheres e Histórias Feministas trazem questionamentos sobre o lugar das mulheres na arte, classes sociais, prostituição, questões de gênero e problemas que o feminismo busca combater. 

No primeiro semestre de 2019, Tarsila do Amaral tomou conta da exposição temporária, junto com Lina bo Bardi e Djanira Motta e Silva, todas artistas do século XX. Agora, a pegada veio de outros séculos: História das Mulheres segue narrativas do século um até 1900, já Histórias Feministas conta com obras a partir dos anos 2000, que usufrui de mais interatividade, tecnologia e provocações.  

As exposições se contrapõem. Enquanto no primeiro andar uma aura clássica paira, com métricas e técnicas seguidas à risca, cheia de retratos e paisagens, o primeiro e segundo subsolo são um convite à arte que se sente nos ossos, com uma mistura de elementos provocativas. A escolha do MASP para receber as exposições  também está cravada em sua localização: um espaço que recebe manifestações políticas dos mais variados temas tem a inquietude em suas veias, por isso, não há lugar melhor para abordar o afronte das mulheres ao sexismo latente. 

Para a professora de história Maria Schineider, 58, unir tempos e técnicas tão diferentes em uma mostra é um ato ousado. Segundo ela, o contraponto entre arte de séculos passados junto com o dinamismo dos anos 2000 trouxe uma experiência dicotômica interessante. 

  • História das Mulheres: Artistas até 1900

Apesar da qualidade dos trabalhos femininos, as mulheres representam um contingente muito menor do que os homens que exerceram (e exercem) a mesma função, em livros de história, nas narrativas oficiais e dentro dos museus de arte. Foi com a proposta de quebrar esse ciclo que a exposição do primeiro andar foi concebida, com paredes em tons de roxo e preto, para representar algumas facetas do movimento feminista. 

Paredes da exposição em tons de roxo e preto. MASP 2019

Com curadoria de Julia Bryan-Wilson, curadora-adjunta de arte moderna e contemporânea, Lilia Schwarcz, antropóloga e curadora-adjunta de história e Mariana Leme, curadora assistente do MASP, História das Mulheres é um passeio por séculos de história da arte colocados em segundo plano. 

O visitante Kelvin Silva dos Reis, 25, que caiu na exposição por curiosidade de conhecer o museu, acredita que colocar artistas em foco é “democratizar esse espaço, porque as mulheres fizeram parte da arte.” Para o estudante de rádio e tv, o olhar feminino da realidade é mais detalhado: “por exemplo a fechadura de uma porta colocada ali, então acho que elas conseguem detalhar mais, e passar isso pra gente.” 

As 96 obras reúnem 60 pinturas, dois desenhos e 34 tecidos de artistas do norte africano, das Américas antes e depois da colonização, da Ásia, Europa, Índia e do antigo território do império Otomano, desde o século I até 1900. Segundo Julia Bryan-Wilson, historiadora da arte e uma das curadoras da mostra, a história da arte ainda é uma zona muito desequilibrada nas questões de gênero, pois grande parte da atenção se volta completamente para artistas homens.

Porém, quando se inclui as mulheres nas exposições, grande parte se refere às artistas do século XX, e para a curadora a exposição do MASP queria trazer algo diferente. “Queríamos destacar alguns exemplos famosos e também algumas figuras menos conhecidas, ou totalmente desconhecidas de antes de 1900 para insistir no fato de que a arte das mulheres existe dentro de histórias mais longas.”

Além das pinturas de paisagens e retratos, o que chama a atenção na mostra é a extensa quantidade de tecidos expostos. A criação têxtil em muitos lugares do mundo antes de 1900, era feita manualmente por mulheres, e embora não se conheça o nome das artistas dos tecidos, foram colocados tradicionalmente como trabalhos totalmente femininos, encontrados em sítios arqueológicos. A junção de pinturas e obras têxteis coloca em xeque a persistência das mulheres em criar obras de arte ao longo do tempo.

Para Bryan-Wilson, unir têxteis e pinturas é uma parte muito relevante da exposição, pois quebra um ciclo de entendimento de arte apenas como itens convencionais, tais como a pintura e escultura, qualificados por um sistema sexista – e muitas vezes racista e classista. Para ela “se você pressupõe que apenas pinturas a óleo contam como arte, você já está comprando uma antiga hierarquia, que em sua essência, é uma ideia sexista”.

A professora afirma que dar atenção a formas de fabricação manuais, de maneira anônima, mas não menos interessante ou habilidosa, como os bordados expostos no MASP, expande a ideia de uma arte verdadeiramente feminista e global. “Isso não quer dizer que os têxteis sejam iguais aos quadros, eles desempenham funções muito diferentes e foram produzidos em circunstâncias diferentes. Mas colocá-los lado a lado, tenta ilustrar um amplo espectro da criação criativa das mulheres”, complementa.

Com traços mais tradicionais da pintura, se destacam algumas artistas como Mary Beale, a inglesa que teve seu marido como assistente de ateliê ainda no século 17, Elisabeth Louise Vigée Le Brun, primeira mulher a ocupar o cargo de pintora da rainha da França, Lavinia Fontana, a pioneira em trabalhar na mesma esfera artística de pintores no Renascimento, e Abigail de Andrade, a primeira artista condecorada e uma das pouquíssimas que dedicou seu olhar a uma classe social diferente do alto escalão social.

 A força da exposição Histórias das Mulheres está justamente em mostrar que, mesmo sendo excluídas das academias de arte e destinadas a cumprir papéis de gênero impostos, continuaram a fazer arte.

  • Histórias feministas: artistas depois de 2000
 “Admiring Polvo de Gallina Negra, Mistresses of Feminist Art” obra de Kaj Osteroth & Lydia Hamann.

A segunda parte da exposição, localizada no subsolo, reúne 30 artistas e coletivos que surgiram no século 21 e abordavam o feminismo como suas premissas. A mostra serve como um contraponto à “História das Mulheres”, mostrando o que há de mais novo elaborado por elas, no contexto contemporâneo, em que as pluralidades ganham força dentro do feminismo, a mostra busca abarcar essa intersecção, trazendo temáticas como classe, raça, etnia, geração, religião, sexualidade e corporalidade.

“A ideia não é mapear a produção de artistas a partir de um recorte geracional, mas entender como os feminismos vêm sendo utilizados como ferramentas para desmantelar narrativas e transformar a maneira como algumas histórias vêm sendo escritas. Ela reúne artistas que têm e não têm o feminismo como questão central de sua obra, mas que, de alguma maneira, abordam assuntos urgentes a partir de perspectivas”, diz Isabella Rjeille, curadora assistente do MASP, em entrevista com a Revista Casa e Jardim.

A exposição incentiva novos debates com base nas obras das artistas cujas produções emergiram neste século e mostrar como o feminismo segue influenciando a criação artística, interseccionando lutas, narrativas e conhecimentos.

“O sorriso de Acotirene” (2018), obra de Mônica Ventura

A Prof. Maria Schineider, mencionada anteriormente, que estava visitando a exposição afirma que o grande atrativo da mostra foi a união de artes plásticas com o movimento feminista, pois reuniu expressões artísticas com um movimento político com intuito de gerar provocações. Ela afirma que esse movimento da arte é necessário para causar consciência, e desabafa: “acho dramático que a gente ainda precise de uma exposição inteira, ou uma provocação dura como essa”.  

Apesar do foco ser no século XXI, a mostra não quer dizer que as questões do passado estão realmente no passado. Ela parte do potencial de transformação do feminismo, não apenas material, mas do simbólico.

Nomes presentes na amostra são Tabita Rezaire, Marcela Cantuária, Carolina Caycedo, Ana Mazzei, Kaj Osteroth, Lydia Hamanne e Mequitta Ahuja e outras.


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