Por Guilherme Queiroz

Aos 78 anos de idade, Ladislau Dowbor morou em diversos países da Europa, América e África. Nasceu em meio a 2ª Guerra Mundial na França e viveu a ditadura militar na Brasil, que o prendeu e torturou mais de uma vez e assassinou o primeiro amor de sua vida. Foi professor de francês e italiano, trabalhou como motorista de caminhão no Velho Continente e foi guerrilheiro da Vanguarda Popular Revolucionária. É referência nos estudos da economia política e trabalhou em ministérios de países como Guiné-Bissau, na ONU, e também na prefeitura da cidade de São Paulo. É autor e co-autor de mais de 40 livros, que vão desde a história econômica do Brasil até pedagodia.

Mas partimos do começo. Tudo começa em 1941, em meio ao conflito que matou 60 milhões de pessoas. “Meus pais tinham fugido pelo sul da Polônia, tinham ido pra França, mas depois vieram os alemães e fomos parar quase na fronteira espanhola”, lembra ele, sobre a vida de refugiado logo no seu primeiro sopro de vida. “Territorialmente eu seria Catalão”, conta com divertimento. 

Suas primeiras lembranças, no entanto, são mesmo francesas. “A primeira língua que eu aprendi (além do polonês dos pais) foi o Auvergnat, língua da região central da França”. Da região de montanhas, recorda-se quando, após o final da guerra em 1945, cinco anos depois embarcava para o Brasil. “A família toda veio de navio, desembarcamos no Rio de Janeiro, e depois em João Monlevade”. O pai, engenheiro, foi trabalhar na indústria do aço na região leste de Minas Gerais. 

“O primeiro ano de Brasil foi aprendendo a língua”. Depois de um ano no interior mineiro, foi para a capital. Em Belo Horizonte teve a oportunidade de estudar em um bom colégio, o Loyola, de jesuítas. “Ganhei meu primeiro prêmio em um concurso de português na escola. Faz sentido porque os alunos brasileiros falavam espontaneamente enquanto eu estudava as regras”.

Foram apenas mais dois anos por BH para em 1954 mudar para São Paulo, novamente, por conta de um novo emprego do pai. Família morando em Pinheiros, passou a estudar em um Liceu na Vila Mariana. O currículo era em Francês “muito intenso em história, filosofia, psicologia, ética, não apenas a decoreba”.

A adolescência foi distante da mãe, que realizou o antigo desejo de voltar para a Polônia. “O Stalin tinha morrido e a fase dura da repressão ali tinha terminado”. Ele, no entanto ficou, com o pai e outro irmão. “Atravessar o Atlântico era uma coisa de bastante custo, meu pai perdeu o emprego”.

Ladislau começou a trabalhar como professor de francês e italiano, e o pai foi-se para Pernambuco, com emprego em outra siderúrgica. Com 18 anos, lembra da sensação de liberdade ao morar apenas com o irmão na capital paulista. “Era uma vida boêmia. A gente vivia na rua, nessas pensões vagabundas do centro. Frequentava muito a biblioteca Mário de Andrade”.

Antes de terminar a escola conheceu sua primeira paixão, Pauline Reichstul. O romance enfrentou barreiras sociais e religiosas. “(A família dela) eram de judeus poloneses. Eu era um pé rapado e ela era de família rica”. Foi separado da moça, no entanto. “Os pais da Pauline mandaram ela para Israel para evitar que ela se metesse com um gói (não judeu, pejorativo)”.

Mas em 1963, aos 22 anos, depois de ter trabalhado inclusive como jornalista no Jornal do Comércio, onde morou com o pai após a mudança dele para o nordeste, jogou tudo ao alto e foi na missão de reencontrar a moça. 

Os primeiros meses foram de dificuldade. Para dificultar a fuga de Pauline de Israel, seus pais retiveram seu passaporte, o que dificultava a tão sonhada fuga. Após meses em que Ladislau trabalhou como motorista de caminhão para se manter no país, cientes da insistência da moça, os pais acabaram por mandar os documentos de volta.

Estudaram juntos na Suíça. Ele, economia política, ela, psicologia. “Foram os anos mais felizes da vida da gente”, lembra ele, com um brilho nos olhos. Ele estava em Paris em maio de 1968, e no antro de brasileiros, surgia o desejo de organizar uma revolta armada organizada contra a ditadura, em meio aos relatos de tortura, cada vez mais comuns.

Membro da Vanguarda Popular Revolucionária, com dois meses depois que chegou ao país foi preso. “Estava marcado, porque, no Recife eu tinha estudado russo. O que é ridículo porque na mesma época eu estudei literatura americana em outro instituto. Sem gostei de línguas”. Pau-de-arara, choques elétricos e costela deslocada, marcas que carrega no corpo até hoje. Acabou solto. O delegado recebeu uma bolada dos amigos da VPR.

Lembra das ações armadas para levantar dinheiro,organizou saídas do país para perseguidos políticos. Participou do sequestro do embaixador japonês Nobuo Okuchi, no bairro Higienópolis, na capital paulista, em 1970. “Tinha sido preso o Shizuo Osawa, um militante nosso, que estava sendo torturado aqui no hospital da Vila Mariana. A gente resolveu pegar o embaixador e pedir a libertação dele e mais algumas pessoas”, lembra.

“Foi uma coisa curiosa, porque o cônsul, que tinha sido militar da marinha, se solidarizou inteiramente com a gente”, lembra. “Para mim ajudar a salvar um conterrâneo meu, que está sendo torturado, é oportunidade”, teria dito o cônsul a Ladislau. “Foi algo curioso porque depois que soltaram nossos amigos e o libertamos, ele não reconheceu ninguém na delegacia, falou para os policiais que brasileiro “é tudo igual” “, lembra ele, às gargalhadas.

“A gente não tinha muita esperança porque a relação de forças (com a ditadura) era desigual. Não é assim, que você tem um projeto, um programa revolucionário. É muito mais por indignação, não abaixar a cabeça e dizer: dane-se”.

O sequestro foi em março, ele foi preso novamente em junho, mais torturas. Foi a vez do embaixador da Alemanha ser sequestrado, e os presos políticos da vez incluíam Ladislau, que foi para o exílio na Argélia.

A luta continuava no Brasil. Pauline conseguiu ver Ladislau na Argélia, o que foi o último capítulo da história do casal. Em janeiro de 1973, ao retornar para Recife, Pauline foi morta pela ditadura em um episódio conhecido como Massacre da Chácara São Bento. Ela também era da VPR, e entrou na luta após Ladislau, o casal já estava distantes, não por falta de afeto, mas pela “loucura daqueles tempos”.

Três anos depois, Ladislau foi para a terra dos seus pais, a Polônia. Conseguiu um passaporte no país. Encontrou novamente sua mãe e o irmão. Fez seu mestrado e doutorado em história econômica do Brasil, na Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia.

Por lá encontrou sua esposa atual, Fátima Freire, filha do educador Paulo Freire, que estava exilado no país. Seu próximo destino foi Portugal, em 1975, onde lecionou na Universidade de Coimbra. Depois foi convidado para atua no Ministério do Planejamento de Guiné-Bissau. Trabalhou também para a ONU, nos Estados Unidos, e retornou ao Brasil em 1981.

Passou a morar com a esposa e um apartamento perto da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, no apartamento de Paulo Freire. Na época começou a trabalhar também na universidade. Assumiu em 1989 a Secretaria de Negócios Extraordinários da Prefeitura de São Paulo, sob a gestão de Luiza Erundina.

O mais recente de seus livros é A Era do Capital Improdutivo, de 2017. Em uma análise sobre o mercado financeiro e o poder local das nações cada vez menos influentes em um contexto globalizado, o professor tece duras críticas ao modelo consumista e destruidor imposto pelo liberalismo econômico, apesar de não botar muita fé em nenhum “ismo”, como ele mesmo conta. Conta, com um sorriso, sobre o assédio dos estudantes de jornalismo. “Você não é o primeiro que me procura por aqui”, conta, para depois deu uma gargalhada, encerrar a entrevista.

Leave a Reply