Guerra nos ares: do 14 Bis aos drones

Por Beatriz de Oliveira, Paulo Amaro, Rafaela Soares e Vanessa Lino

Há 113 anos, no dia 23 de outubro de 1906, Santos Dumont foi o primeiro a levantar voo num aeroplano, em Paris, na frente de juízes e de uma multidão. O 14 Bis sobrevoou 60 metros a uma altura de aproximadamente 3 metros. “O homem conquistou o ar”, foi o que gritaram.

Apesar de existir um rixa internacional sobre quem criou o avião, Dumont foi o primeiro a exibir o seu feito, enquanto que os irmãos Wright só o fizeram em 1908. Em 1903, eles diziam tê-lo feito, mas não mostraram sequer uma prova. Santos Dumont foi quem ficou reconhecido pelo ato até meados da década de 20, quando os Estados Unidos resolveram dar esse mérito aos irmãos.

No entanto, ele nunca imaginou que a sua criação pudesse lhe trazer uma imensa repulsa e se tonar o motivo de seu delicado estado de saúde, além de possível causa de morte. 

“Eu nunca pensei que minha invenção fosse causar derramamento de sangue entre irmãos. O que eu fiz?”, é uma famosa citação de Dumont após ter consciência do amplo uso de aviões na primeira Guerra Mundial.

A criação que revolucionou os ares já estava sendo colocada em planos político militares. Bertam Dickson, o primeiro militar britânico a voar, profetizou o uso militar de aviões para reconhecimento e “impedir ou prevenir o inimigo de obter informações”.

Já o general estrategista italiano, Giulio Douchet, já afirmava em 1909, apenas 3 anos depois de ser provado que era sim possível um objeto mais pesado do que o ar planar sobre o mesmo: “O único método eficaz de defender o próprio território de uma ofensiva aérea é destruir o poder aéreo do inimigo com a maior velocidade possível”.

Dickson faleceu em 1913, mas tal como havia previsto, durante o início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a principal tarefa dos aviões era fazer reconhecimento de áreas e indicar possíveis movimentações inimigas. Existem inclusive histórias de tripulações rivais de aviões de reconhecimento trocando sorrisos e acenando umas para as outras. Essa prática amigável logo evoluiu para o arremesso de granadas, e outros objetos de acordo com o livro “An Illustrated History of the First World War”, de John Keegan.

Em 8 de setembro de 1914, um avião de reconhecimento austríaco foi o primeiro a ser derrubado por outro, de origem russa, durante a Batalha da Galícia na Frente Oriental.  Ambos os aviões caíram matando todos os ocupantes. 

Eventualmente, pilotos começaram a atirar com armas de fogo nos aviões inimigos. No começo com pistolas e rifles, que se mostraram ineficazes, até que, em 5 de outubro, Louis Quenault, um piloto francês abriu fogo com uma metralhadora, o que abriu de vez a Era dos combates aéreos.

O uso de aviões se intensificou na Segunda Guerra Mundial contando com bombardeios aéreos e sendo excepcional para o desembarque das tropas Aliadas na Normandia no dia D.Com os céus já considerados territórios importantes em guerras, novas aeronaves cada vez mais aperfeiçoadas foram sendo criadas. Em 1935, DH.82 Queen Bee foi a aeronave criada não tripulada que deu origem ao nome “drone”, fazendo referência a abelhas do sexo masculino. A criação dos drones foi inspirada em uma bomba alemã, o V-1 que recebeu o nome de Buzz Bomb devido ao barulho que fazia enquanto voava. No entanto, esse tipo de aeronave foi considerada muito cara e pouco confiável.

Luiz Padilha, editor do site Defesa Aérea & Naval, explica o significado da palavra drone: “É mais uma palavra comercial ou apelido para pequenos objetos voadores que tanto podem ser de uso militar como civil”. Além de usados como forma de ataques aos inimigos, a aeronave também serviria como apoio à espionagem. 

Nos anos 50, existem teorias de que drones foram usados para espionagem na Guerra Fria tanto pelos americanos quanto pelos russos. Mas em território de guerra armada, os drones foram usados pela primeira vez na Guerra do  Vietnã (1955 – 1975), para reconhecimento.

O modelo, ?Aquila, chegou nos Estados Unidos em 1977, o equipamento voava em média alguns minutos mesmo com autonomia para 20 horas de voo e eram necessárias 30 pessoas para controlar o drone. 

A diretora da Futuriste, empresa especializada em venda de drones, assistência técnica e capacitação para pilotos, Raquel Molina, explica que os drones de guerras são muito diferentes dos drones civis e podem ter o tamanho de uma aeronave comercial tripulada. “O uso vai desde apoio logístico, mapeamento de pontos estratégicos até o embarque de armamentos”, contou. 

Diante disso, o engenheiro espacial Abe Karem fundou a empresa Leasing System, que utilizou resto de madeira e fibra de vidro caseira e deu origem ao modelo Albatross. Este tipo não necessitava de recarga de bateria, chegou a ficar 56 horas no ar e precisava apenas três pessoas para controlá-lo. Após isso, Karem recebeu financiamento da DARPA para aprimorar o modelo, e assim surgiu o Amber em 1984.

No entanto, essas armas aéreas só ficaram amplamente conhecidas quando foram utilizadas para combate em 1990, na Guerra do Golfo, que contou com cerca de 300 mortes de soldados americanos e cerca de 300 mil mortes de iraquianos (soldados e civis).

Após mostrar-se altamente “eficaz”, o governo americano investiu mais de U$ 3 bilhões em pesquisa para o aperfeiçoamento de aeronaves não tripuladas.

Raquel ainda acrescenta que existe diversas formas de classificar um drone, desde tamanho, peso, tipo de estrutura e número de motores. “Os drones podem carregar desde câmeras convencionais, câmeras termais, multiespectrais, braços robóticos, bóias salva-vidas, enfim são muitas opções de carga útil”.

Embora mais conhecidos como VANTS, versão em português para Veículos Aéreos Não Tributados, Padilha ressalta que esta nomenclatura não é aconselhável: “O ideal é sempre utilizar UAV (unmanned aerial systems) ou melhor ainda, RPA (remotely piloted aircrafts) a última é a sigla que melhor representa a tecnologia”.

No Brasil, a?história dos drones?foi marcada pelo BQM1BR, o primeiro drone não tripulado registrado no país e fabricado pela CBT (Companhia Brasileira de Tratores). Movido a jato, o modelo tinha como objetivo servir de alvo aéreo e seu voo foi realizado em 1983.

Drones de guerra

A mudança tecnológica implementada nos anos 90 pelos Estados Unidos em sua esfera militar, no caso, a inserção de drones em combate, criou um novo status nas operações militares dos anos que a seguiram. Tal mudança consiste em uma nova forma de organizar, comandar e executar guerras. Como nos contou Luiz Padilha, EUA e França são os países que mais fazem uso dessa tecnologia nos dias atuais.

Baseado num discurso anti-terrorista, os argumentos pela necessidade de um instrumento de guerra rápida, cirúrgica e centrada foram rapidamente mobilizados até mesmo como uma forma de campanha presidencial nos países citados acima ao se anunciar operações militares; num mundo que prega por operações militares discretas, cirúrgicas e eficientes.

Como resultado direto, a necessidade de incorporar todos esses valores ao novo modelo de guerra tecnológica que vem se estabelecendo, os Drones figuram um reordenamento no modo como alguns conflitos passam a ser operados, separando cada vez mais atirador e alvo em diversos fatores.

Mas o que significa o conceito de guerra rápida e cirúrgica? Como escreveu o Pesquisador do Grupo de Análise de Políticas e Inovação DPCT-UNICAMP, Alcides Peron, em seu livro “AMERICAN WAY OF WAR: Guerra Cirúrgica e o Emprego de Drones Armados em Conflitos Internacionais”, esgarçando ao máximo a distância entre atirador e alvo, a percepção do combatente ao ato de matar altera, e a percepção política da guerra também altera. É a dessensibilização da guerra, a linha divisória entre quem merece viver e quem merece morrer está mudando.

Sob essa ótica, essa nova forma de fazer guerra na verdade não é nem tão “romântica” e nem tão cirúrgica. O que esse padrão de tecnologia que está sendo produzido nos dá é um mundo pautado em novas formas de fazer violência.

O projeto “Out of Sight, Out of Mind”, desenvolvido pelo MIT lab Documentary, recolheu e forneceu graficamente na internet uma série de dados sobre ataques de drones que aconteceram de 2004 até 2015 no Paquistão. Segundo a pesquisa, aproximadamente 3,341 pessoas morreram por conta de ataques de Drones neste período. Deste número, apenas 2% eram “o alvo”, o resto eram civis ou crianças.

O site representa cada ataque de drone como uma gota em uma linha do tempo, e fornece o número de quantas pessoas morreram em cada respectivo ataque. O mais marcante deles é em 2006, quando 69 crianças morreram. Como lembra Perón em seu livro, estamos falando do Paquistão, mas essa política de ataques de drones aconteceu principalmente no Paquistão, no Iêmen e na Somália. Esses países não estavam em momento algum, em guerra, e mesmo assim foram receptáculos de ataques.

Cirúrgico, em seu significado para a guerra, deveria significar uma operação que atingisse apenas combatentes ou alvos militares.

Nessa estrutura de combate, sem estar no combate, o que acontece na prática  é a impunidade na morte de civis. O distanciamento do corpo do conflito permitiu que pessoas vivessem a 15 minutos da guerra – isso é, você está no seu país, entra numa cabine, e de repente está operando um drone em outro. Mais uma vez é a naturalização da guerra, a guerra como uma atividade de escritório. O drone é mais um instrumento tecnológico que vem para romantizar uma nova forma de fazer guerra nos conflitos geopolíticos contemporâneos, uma nova forma de morte.

Os drones atuais utilizam duas formas de reconhecer uma pessoa que seja alvo. E elas estão relacionadas a segurança pública. Está sendo implementado nos drones armados a coleta de dados provinda do big data, como o reconhecimento facial, coletando dados e estabelecendo padrões de comportamento. Isso está sendo utilizado principalmente pelos Estados Unidos, novamente no Paquistão. Temos o chamado target killing, que seria o alvo, e o signature killing, que mata devido padrões anormais/suspeitos de comportamento. Um dos elementos dessa nova guerra tecnológica é o aparato analitico.

Big Data é a coleta e armazenamento de grandes quantidades de informações para eventuais análises. É a grande quantidade de dados que são gerados a cada segundo, a uma velocidade tão impressionante quanto o volume de informações coletadas 

Isso fica mais claro ao ver o fato divulgado pelo The Intercept recentemente, onde um jornalista paquistanês foi confundido com um terrorista única e exclusivamente devido seu padrão de comportamento. É o direito de matar a distância simplesmente por um padrão “anormal”.

Para se travar guerras é preciso definir a  figura do inimigo. Isso pode resultar na imaginação de uma entidade invisível,  que tende a disseminar o medo. Este medo é usado estrategicamente e reforçado pela falta de conhecimento. É o que afirma Anna Natale, uma das autoras do artigo A Guerra Atual e o Uso de Drones: práticas biopolíticas do matar em nome da vida. Ela diz que “desde os ataques de 11 de setembro, os inimigos são os muçulmanos” e que o cinema americano acompanha essa definição política.

E diferente de muitos filmes, o conflito com o “mal” não é escancarado. No caso dos EUA, seus inimigos muçulmanos, tem um produto fundamental para a soberania americana: o petróleo. “Um conflito é criado para defender o comércio afetado diretamente, e consequentemente abre espaço para empresas armamentistas”, diz Anna. Faz parte da estratégia que este inimigo não seja único, podendo ser modificado de tempos em tempos, tornando-o presente em qualquer momento com seu suposto potencial de destruição da sociedade em questão. “Este inimigo é atemporal, não existe o antes eo depois, ele dura o tempo que for necessário, é possível inimigos se tornarem amigos em um curto espaço de tempo parecendo até que nunca foram inimigos de morte, como aconteceu logo após da Segunda Guerra Mundial nas relações entre os Estados Unidos, Alemanha e Japão.”

A simulação é comumente utilizada para treinar pilotos de caça, e também tem sido usada para treinamento de pilotos de drones.  Anna comenta que esses pilotos sofrem preconceito nas Forças Armadas, são considerados “menos guerreiros” por atuarem dentro de uma cabine. “E veteranos de guerra apontam também para uma questão ética: como não há contato físico, nem mesmo olhar próximo a seu alvo, torna os pilotos (operadores) de drones, mais frios e distantes, como se não pudessem enxergar a vida naquele que acabou de morrer ou que está prestes a morrer.” Em contrapartida à essa percepção ética, a pesquisadora diz que vários operadores declararam sofrer stress pós-traumático.

A estética das guerras mudou, assim como a disposição de combatentes, os campos de batalha agora abrangem áreas urbanas e residenciais. A incorporação dos veículos aéreos não tripulados nos conflitos, traz apontamentos alarmantes, como os de Anna:

“O grande problema que os drones apresentam, está na ilegalidade e imoralidade do seu uso. Ela trás o assassinato seletivo de pessoas consideradas ‘terroristas’. Então, um primeiro ponto a se pensar é que não é necessário existir um conflito armado ou uma guerra anunciada para um drone executar pessoas consideradas de risco. O maior impacto que os drones trazem é entrar num espaço aéreo soberano, recolher informações sem a autorização do Estado invadido e podendo causar mortes além do alvo selecionado. Ataques realizados em zonas urbanas (que é comum) sempre traz a morte de civis, considerados danos colaterais e não crimes. O drone, antes de tudo é um dispositivo de espionagem em que o Estado que o utiliza (pensando nos EUA principalmente) não sofre punições nem por invadir a soberania, nem por assassinar, nem por utilizar uma arma produzida com a intenção de ser assimétrica. A assimetria é algo que deve ser evitado, a ONU considera uma guerra assimétrica quando um lado possui um poder bélico muito superior ao adversário.”

Com o uso desses dispositivos o número de soldados mortos do Estado que os utiliza diminui drasticamente, isso porque se diminui a quantidade de soldados, substituídos por tecnologias. Porém, do lado mais fraco, a situação ainda é sangrenta. Apesar da dita precisão dos drones, são inúmeras as situações em que prédios com civis são bombardeados. A definição dos inimigos, ou seja, terroristas a serem atacados,  também é controversa já que não se sabe se eles se encaixam de fato nesse rótulo e que, por exemplo, adolescentes do sexo masculino são considerados potenciais terroristas. Anna chama a atenção para a maneira como é feita a contagem de mortos “contagem de corpos acontece a distância, se só é possível contar o que é visível, deixando em aberto outras possíveis vítimas, por isso que os números de vítimas oferecidos pelos EUA não bate com os fornecidos pela cidade que sofreu o ataque ou por ONGs que fazem assistência.”

O uso de drones como armas, assim como qualquer outro dispositivo bélico, está sujeito às normas do Direito Internacional Humanitário. Deve portanto, distinguir circunstâncias entre combatentes e civis, e entre objetivo militares e bens civis. Assim como, tomar precauções para poupar a população e infraestrutura do local. Ataques devem ser cancelados se forem previstos que os danos contra civis forem excessivos em oposição aos ganhos militares.  Os drones, assim como outras dispositivos, não devem ser usados para carregar armas com agentes químicos ou biológicos.

Conversamos também com Marcelo Graglia,  Engenheiro Mecânico e Mestre em Engenharia pela UNESP, que classifica a aplicação da  Inteligência Artificial nos drones como “natural”. A empresa IBM se destacou com o uso inicial de AI, com duas aplicações principais: apoio para diagnóstico médico e em escritórios de advocacia. No que tange a uso de IA em conflitos bélicos o crescimento é rápido, segundo o professor há o uso mais comum que é uso de algoritmos para fazer predição de situações até o uso para mapeamento de núcleos “terrorista”, ressalta também seu uso em armas, como é o caso dos rifles inteligentes que utilizam informações de georreferenciamento resultando em tiros mais precisos.

Marcelo fala a respeito dos “drones de guerra”. Destaca novamente  o uso de da AI para predição, que, no caso dos drones, pode servir para o dispositivo fazer uma avaliação probabilística de determinada situação e tomar uma decisão a partir disso. Imagine um cenário de guerras em que países ricos usam seus drones e outros dispositivos com AI para atacar outros países pobres. Este cenário não está concretizado, mas pesquisas e apontam para o desenvolvimento de tecnologias deste tipo. “O que vai acontecer é robô matando gente”.

O professor alerta para a despessoalização da guerra. O combate, semelhante à um jogo de videogame, retira a relação olho a olho segundo ele. Quando a IA entra em jogo, essa desumanização vai para um estágio ainda mais avançado, já que uma “decisão pode ser tomada sem a necessidade de um soldado”.

Já para Anna, acreditar no uso da AI em drones é um equívoco. E esta crença traz “pânico em relação a máquina impedindo a compreensão das reais potencialidades e limitações” e ajuda a diminuir ou remover completamente a responsabilidade de uso deste dispositivo de guerra que envolve uma escala hierárquica das forças armadas e que alcança o Ministro da Defesa e o Presidente de tal país”.

Quanto ao futuro do uso de drones no cenário militar ela acredita que será para transporte de cargas em geral “como alimentos, armamentos, veículos e até mesmo aeronaves”. e acrescenta que, segundo relatórios da Forças Armadas Estadunidenses, os drones não substituirão os aviões de combate, “ objetivo é mesclar ambas as tecnologias, ou seja, o piloto de um caça poderá simultaneamente controlar diversos drones”. E finaliza “quanto ao assassinato seletivo, acredito que o cenário tende a piorar no sentido dos países responsáveis pelos ataques não sofrerem consequências diante da ONU.”

Para Marcelo, os drones terão um uso “absolutamente intenso” no futuro das guerras, pela característica do vôo. Lembra que o uso do avião em combate modificou a forma como os conflitos eram causados, no início do século XX. Assim como Anna, ele diz que não haverá substituição do avião, que tem um “poder de destruição enorme” ao poder ser teleguiado. Destaca a versatilidade e possibilidade de alta produção dos drones, “pode entrar em esconderijos, cavernas, metrôs”. E termina, “o uso de drones com sistemas de IA, de reconhecimento visual, de geolocalização e outras tecnologias… eles [drones] certamente vão ser uma parte determinante de guerras em um futuro próximo.”

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