Mercado editorial independente, uma alternativa literária

Escritores e editoras buscam novas opções para suas publicações

Por Catarine Figueiredo e Emily Moura

O mercado editorial brasileiro sofre uma forte crise, com o fechamento de livrarias afetando não só a situação das empresas mas também o acesso à cultura e o aprendizado através dos livros. Escritores e editores tomam cada vez mais a iniciativa de desvincular o seu trabalho de um lugar fixo, buscando o caminho independente, na tentativa de se adaptar ao cenário da economia brasileira e continuar construindo uma base de leitores.

Essa solução é adotada basicamente por escritores e editoras que publicam suas obras de forma solo, ou seja, sem patrocínio de grandes empresas e em tiragens muitas vezes menores. Mas você pode imaginar que, se com as grandes editoras o cenário já não é muito amigável, com as editoras independentes tende a ser ainda pior.

Como há uma forte concorrência com grandes editoras para publicação de livros, o processo acaba se tornando mais difícil. Diante disso, escritores e editores independentes apostam em opções que na maioria das vezes não estão disponíveis no mercado, como livros raros, poemas, projetos autorais e literatura com novo apelo comercial.

O mercado é baseado em financiamentos coletivos ou, no caso de editoras mais antigas, é sustentado pela venda de livros já publicados que permanecem no catálogo. Para quem opta pelos financiamentos coletivos, essa arrecadação é geralmente administrada por meio de plataformas como Apoia-se e Catarse. Apesar dos desafios, as editoras independentes mostraram um crescimento considerável em 2018. Segundo dados da Nielsen, cresceram 12,97% em volume e 4,58% em faturamento em comparação com 2017.

Ainda que o mundo literário esteja sofrendo com a crise das livrarias, algumas pessoas do meio independente aproveitaram a situação difícil do mercado editorial e investiram em uma forma diferente de publicar. É o caso de Claudia Lemes, autora de livros de sucesso como “Eu Vejo Kate” e “Um Martini com o diabo”, que, ao se ver de mãos atadas para publicar seus livros através de uma editora, decidiu apostar no financiamento coletivo através do Catarse. “Eles congelaram as contratações bem na época em que eu ia fechar um contrato com uma das maiores editoras. Hoje eu acho isso uma coisa boa, mas na época fiquei chateada. Pediram para eu não publicar com outras editoras, mas também não podiam fechar o contrato no momento.” Para não deixar a carreira parada, Claudia decidiu lançar o financiamento coletivo. “Eu publiquei o “Inferno no Ártico” e deu supercerto, vendeu bastante.”

Escritora Claudia Lemes no lançamento de seu livro “Eu vejo Kate” pela editora Empíreo

O novo caminho também tem suas dificuldades. A autora afirma que o alcance de público é um grande empecilho na hora de publicar de forma independente. “A maior dificuldade na hora de publicar de forma independente é o alcance. É muito difícil alcançar leitores. As pessoas têm um conceito errado sobre a literatura independente, tudo isso atrapalha um pouco. A gente tem que mudar as associações com a palavra independente.”

Após as publicações independentes, Cláudia enxerga esse caminho como algo mais vantajoso para a vida dela, devido à experiência adquirida com edição, processos editoriais, parcerias e por ser financeiramente mais rentável, além da liberdade de decidir quando e onde vai publicar seus livros. “São todas as etapas de um processo editorial concentrados em uma pessoa só, mas que tem me dado um retorno muito bom”, diz.

Mesmo gostando das vantagens e da nova forma de trabalhar, a autora diz que não está fechada para as editoras convencionais, mas que prefere deixar essa opção apenas quando for algo benéfico para todos os envolvidos na publicação.

O mercado editorial também tem apostado no que muitas editoras grandes estão fazendo, a venda online. Como muitas vezes acaba sendo mais difícil vender os livros nas livrarias, o e-commerce é uma das opções mais usadas por quem vende livros de forma independente. Mesmo com a crise, o crescimento de 4,6% e o aumento em 60% das assinaturas da TAG Experiências Literárias, clube de assinatura de livro, mostra que o ambiente online é muito vantajoso para a venda. E claro, por terem um contato direto com o público, essas editoras são figuras carimbadas em diversas feiras, como a Flip, em que um terço dos convidados são editores independentes.

Para quem trabalha com uma editora independente, sustentar-se nesse mercado não é uma tarefa fácil. Mariana Ávila, CEO e design da Editora Wish, conta que os financiamentos coletivos são a principal forma de publicar os livros.

Quem já é do ramo literário muitas vezes divide as produções independentes com outra profissão, como é o caso de Rafael Gutiérrez, professor universitário de literatura e fundador da editora Papéis Selvagens. Rafael conta que todos os parceiros de sua editora trabalham nas suas próprias casas, assim eles conseguem se dedicar para manter a sua empresa e outras atividades profissionais.

Uma das características das publicações em editoras independentes são as tiragens. O número de exemplares é reduzido e, após os financiamentos coletivos, quando há, as tiragens são repostas conforme forem vendidas, como ocorre na Papéis Selvagens, onde cada livro possui em torno de 300 exemplares e é reposto de acordo com as vendas.

Apesar de estarem ganhando um espaço entre as grandes editoras, os dados sobre a venda específica de livros do mercado independente ainda não são tão fáceis de serem encontrados. Mas é nítido que, devido à crise das livrarias e à necessidade de manter um mercado ativo, as editoras independentes passaram a ser uma opção mais conhecida para leitores, editoras e escritores, possibilitando mais uma forma de acesso da população à cultura.

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