Crescimento ou recuo do setor hospitalar em São Paulo varia conforme faixa de renda dos usuários

Por Maria Clara Vieira e Larissa Teixeira

A residente de ginecologia Bruna Soares, 25, trabalha no hospital Santa Marcelina e retrata as diferenças que percebe entre as redes pública e privada de saúde. Apesar de o Santa Marcelina ser uma entidade filantrópica privada, 87% dos seus atendimentos são realizados pelo Sistema Único de Saúde. O hospital, localizado em Itaquera, zona leste da cidade, é modelo de excelência no munícipio e no estado.

A instituição foi criada em 1961 por Sophia Marchetti, da Congregação das Irmãs de Santa Marcelina, que foi também a primeira administradora do local, com a intenção de sanar as necessidades em saúde da população carente do bairro. O lema do hospital é: “oferecer assistência, ensino e pesquisa em saúde, com excelência, à luz dos valores éticos, humanitários e cristãos”. 

Bruna afirma que, de fato, o Santa Marcelina oferece serviço de qualidade aos pacientes e um ambiente digno para seus funcionários. Para ela, isso se deve, em grande medida, à situação financeira da instituição, que recebe recursos de filantropia e tem sua principal fonte de receitas em atendimentos particulares e convênios.

Em abril, o Santa Marcelina restringiu o atendimento do pronto-socorro apenas para casos com risco de morte. Segundo uma reportagem do SPTV, da rede Globo, o hospital estava operando com uma superlotação de 180%, sem macas e bicos de oxigênio disponíveis. No primeiro semestre de 2019, diversas matérias de veículos de comunicação mostraram problemas de atendimento e lotação em vários outros hospitais da cidade de São Paulo. Entre ele, estão dois dos principais hospitais da zona leste – o Ermelino Matarazzo e o Waldomiro de Paula – e o Hospital do Mandaqui, na zona norte.

Além do Santa Marcelina, Bruna já trabalhou na rede pública, e conta que as diferenças são alarmantes. Ela pontua que a principal delas é o acesso aos exames médicos: “É uma questão de possibilidades. Geralmente, na rede privada você tem acesso a todo tipo de exame, a todo momento”. Por outro lado, ela avalia que muitas vezes, na rede privada, existe uma investigação excessiva, o que leva a uma solicitação de exames desnecessários. Bruna afirma que, muitas vezes, hospitais da rede privada cobram uma quantidade indevida de exames para um diagnóstico que, teoricamente, seria clínico.

Apesar da pouca experiência na rede pública, a residente percebe que os recursos designados a essa área não correspondem ao aumento da demanda, o que gera um sucateamento. Ela aponta a falta de equipamentos e manutenção como uma das evidências do abandono. Além disso, indica a falta de empenho do Estado em investir na área. “Eu acredito que, se não melhorar a administração pública do dinheiro destinado à saúde, se não aumentar a quantidade de verba, a tendência é piorar”, completa.

Proporção pública x privada

A cidade de São Paulo tem 56 hospitais públicos. Desses, segundo informações da Secretaria Municipal de Saúde, são 33 municipais, da categoria Dia da Rede Hora Certa. Os outros 23 são estaduais, conforme os dados do portal de notícias de saúde do governo do estado de São Paulo. Esses números não incluem os voltados para o servidor público.

De acordo com a pesquisa “Cenário dos Hospitais no Brasil 2019”, divulgada em maio pela Federação Brasileira de Hospitais (FBH), que representa o setor privado, o número de hospitais no estado de São Paulo passou de 858 em 2018 para 859 em 2019. Em relação aos leitos disponíveis, aumentou de 64.604 no último ano para 65.821. Mas a proporção de leitos para cada mil habitantes se manteve em 1,95 nos dois períodos, índice mais baixo desde 2010.

Em um relatório recém-publicado, a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp)  – que tem  sob sua alçada 10% dos leitos disponíveis no Brasil, segundo dados de 2018 – divulgou que o tíquete médio (relação entre faturamento e número de vendas) dos associados naquele ano foi de R$20,8 mil. O valor é quase idêntico ao registrado em 2017 (20,6 mil), porém superior ao ano de 2015, por exemplo, que obteve 18,3 mil. Segundo dados elaborados pela Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis em parceria com a Rede Nossa São Paulo, em 2017 a cidade diminuiu o número de leitos hospitalares para 33.458, públicos e privados, em relação a 2016 que fechou o ano com 33.526. No entanto, o valor é inferior a 2015 (34.639) e ainda menor se comparado com 2010, quando a oferta atingiu a marca recorde de 34.715 leitos. Naquele ano, a proporção entre o número de leitos e a população total da cidade foi de 3,08.

Gráfico Proporção de leitos hospitalares públicos e privados disponíveis por mil habitantes na Cidade de São Paulo. Dados: Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis em parceria com a Rede Nossa São Paulo.

Dados do Mapa da Desigualdade 2018, produzido pela Rede Nossa São Paulo, mostram que a oferta de leitos para cada mil habitantes varia de 48,42 na Bela Vista, região central, para 0,04 em São Rafael, na zona leste da capital.

Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), a quantidade de leitos na cidade de São Paulo, exceto a categoria complementar (que inclui unidades de cuidados intermediários e UTI), era de 29.203, em dezembro de 2018. Destes, 14.846 atendiam o SUS e 14.357 não. Já em março de 2019, a oferta caiu para 29.034, sendo 14.804 unidades disponíveis para o SUS e 14.230 não.

Em crescimento

Em contrapartida, o segmento que mais cresce no setor hospitalar é o que atende um público de alto poder aquisitivo. A Rede D’Or, por exemplo, inaugurou neste ano um hospital de luxo com investimento de R$350 milhões. O hospital conta com 42 leitos, número que, até 2021, subirá para 220.

Em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, a coordenadora do Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúda da Fundação Getúlio Vargas (FGVSaúde), Ana Maria Malik, explicou que esse mercado premium de hospitais cresce até mesmo em épocas de crise, já que é um nicho não muito afetado pela conjuntura. “São pessoas menos propícias a perder o emprego ou que podem pagar seu próprio plano de saúde. Além disso, temos de lembrar que São Paulo atrai pacientes de outros estados e até de outros países”, afirma.

Saúde em dívida

Uma pesquisa realizada, em 2018, pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), apontou que 70% dos brasileiros não possuíam plano de saúde particular – seja ele individual ou empresarial.

Entretanto, entre os usuários, o plano de saúde é considerado uma prioridade, como disse a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, em entrevista à CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas). “A pesquisa mostra que 97% dos entrevistados estão com os pagamentos de suas mensalidades em dia”, comentou.

Porém, a preocupação com o plano de saúde levou usuários a contraírem dívidas. A pesquisa indicou que 25% desses usuários tiveram o nome incluído em serviços de proteção ao crédito por motivos de saúde no ano de 2017. O principal motivo para isso foi a perda do emprego (37%) e gastos fora do planejamento sem ter reserva financeira para pagar as despesas (19%).

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