Final da Copa América custa quase um salário mínimo

Valores inteiros do ingresso chegam a R$ 840 e demonstram elitização do futebol

Tabela de preços dos ingressos para a Copa América (Foto: Conmebol/Divulgação)

Por Dora Scobar e Mariana Spinelli

No primeiro dia do ano começou a valer o salário mínimo nacional, fixado em R$ 998. A maioria dos estados adota este número como referência, à exceção de alguns que estabelecem um piso regional que, normalmente, serve de parâmetro para pagamentos de trabalhadores do setor privado e categorias que não são contempladas por convenções e acordos coletivos, a exemplo de empregadas domésticas.

Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo serve de referência para o rendimento de cerca de 48 milhões de trabalhadores no Brasil.

A Copa América está sendo sediada nas cidades de Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador. Nestas capitais, a renda média chega a ultrapassar R$ 1.000. No entanto, em estados como o Maranhão, que não entrou no escopo dos patrocinadores para receber o evento, o rendimento mensal domiciliar per capita corresponde a R$ 597, segundo o InfoMoney.

Segundo a organização da Copa América, o preço dos ingressos foi usado para pagar os custos do evento.

Para Leonardo Bertozzi, comentarista esportivo da ESPN, o valor cobrado nos ingressos é ‘um absurdo’. Para a final da competição, por exemplo, o preço inteiro chegará a R$ 840, o equivalente a 89% do salário mínimo. “Está desproporcional não só com o poderio econômico do brasileiro, mas com o valor do evento. A Copa América não desperta esse interesse assim como foi a Copa do Mundo. A própria Conmebol admitiu que precisa colocar os ingressos caros para recuperar o investimento que fez no elenco, é uma decisão meramente de negócios’’, diz Bertozzi.

O estudante Gabriel Seixas, por sua vez, critica a elitização do esporte no Brasil, que acaba, a seu ver, afetando a relação do país com sua seleção. “Já é difícil conhecer os atletas pois eles jogam no exterior e o acesso a esses campeonatos pede assinatura de canais fechados, e aí, quando temos a chance de ir num jogo, a federação mostra que o povo não faz parte dos planos.”

No jogo entre a seleção brasileira e a Bolívia, a renda foi de R$ 22 milhões para um público pagante de 46.342. Ou seja, o tíquete médio foi de cerca de R$ 485.

Os valores altos se refletiram nas arquibancadas. Até a agora, a Copa América é um fiasco de público no Brasil.

A primeira fase da competição foi encerrada com  ocupação de apenas 47,5% e mais de 570 mil lugares vazios na soma dos 18 jogos.

O pior público até agora, foi o de Japão x Equador, no Mineirão em Belo Horizonte, que registrou pouco mais de 9 mil pagantes. O número é menor do que Atlético-MG x Boa Esporte no Campeonato Mineiro.

Para justificar o baixo público e a alta renda, a Conmebol se pronunciou explicando a escolha dos preços: “Os valores foram definidos a partir de um estudo complexo, no qual levamos em consideração os grandes eventos que ocorreram na América do Sul e no Brasil. Tivemos um aumento de 10% do preço praticado na Copa América do Chile [em 2015]. E 30% de redução em relação à Copa do Mundo no Brasil. É algo complexo que não deve se pensar apenas nos valores que os torcedores que vão ao evento pagam, mas o custo total do evento”, disse Thiago Jannuzzi, gerente geral de competição do Comitê Organizador Local da Copa América, em entrevista coletiva.

A arquiteta Bárbara Resende desistiu de ir aos jogos por conta da falta de apelo da competição, mas também pelos preços ‘fora da realidade’: “Não tem a menor condição pagar mais de R$ 250 em uma partida, e isso se eu for sozinha. Quero levar minha mãe, minha irmã… mas fica surreal. Além do mais, uma cerveja ou coca-cola custa mais de R$ 10. É muito dinheiro para um dia só, e ainda para ver jogo ruim”.

Futebol é para rico?

O debate se estende para outros campeonatos. O prefeito de Belo Horizonte e ex-presidente do Atlético-MG, Alexandre Kalil, deu uma declaração dizendo que “futebol é para rico”. De acordo com o dirigente, o futebol é um produto caro e é “uma constatação”, e não achismo, que futebol é para pessoas de alto poder aquisitivo.

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