Cultura do consumo se transforma em sociedade da obsolescência

Tecnologia trouxe a expansão do comércio

Por Vanessa Loiola

Com a chegada das páginas online, aplicativos e como resultado a eliminação do ato de ir às lojas, a tecnologia tem facilitado e muito o poder de compra dos consumidores. É o que aponta o levantamento divulgado pela plataforma de pesquisa de mercado da NZN, Intelligence, em abril deste ano onde 74% dos brasileiros que têm acesso à internet preferem comprar virtualmente.

Na Revolução Industrial do século XVIII, quando a produção artesanal passou para as fábricas e os produtos foram produzidos em larga escala, a população de produtores pode entrar mais facilmente para o quadro de consumidores. Apesar de já existir essa cultura desde a civilização mais antiga, o consumo de massa foi consequência dessa transformação.

O advento da virtualidade mudou o modo como a população faz a economia global circular. O professor de administração da PUC-SP Augusto Caramico afirma: “A tecnologia proporcionou para o comércio a expansão de sua atividade através do aumento do impacto das ações de promoção e comercialização de produtos da empresa. Antigamente, as pessoas precisavam se dirigir ao estabelecimento e acompanhar as promoções pela televisão ou panfletos distribuídos na região, pois era a tecnologia da época. Cada época traz as suas inovações e agora, há a divulgação por meio de mídias sociais e viralização de conteúdo que possibilitam que o mundo todo possa saber qual é o seu produto”.

Em nosso tempo, o comprar e vender ganha outro papel no dia a dia. Este comportamento repetido de forma excessiva é considerado consumismo, consequência de um sentimento interno que precisa ser suprido. “O ser humano sente uma espécie de vazio existencial que faz com que ele tenha de aplacar da forma como pode. Algumas pessoas buscam na espiritualidade, a grande parte busca no consumismo uma forma de se sentir preenchido, de encontrar uma razão para sua existência. É como se fosse um anestésico”, explicou o psicólogo Alexandre Armytage. “É um paliativo para que a pessoa se sinta melhor”, completou Edmilson Felipe, psicanalista e professor de antropologia da PUC-SP.

A estudante de administração da PUC-SP Larisse Rayane tem consciência que o consumo faz parte do preenchimento de sentimentos: “Serve para suprir necessidades, que muitas vezes são emocionais” Kayki Lino, o também estudante de administração da mesma universidade explicou o motivo do consumo: “É para saciar a necessidade básica, mas devidos ao desenvolvimento do capitalismo, muitos usufruem deste ato para se vangloriar e demonstrar seu poder perante aos demais. Hoje, a classe social é dívida entre aqueles que consomem o básico e o luxo. O fato de termos uma geração cada vez mais tecnológica, influência grandemente para o consumo. Estamos gastando mais a procura da felicidade absoluta”.

Apesar da publicidade ter um papel fundamental em instigar as pessoas a consumirem, a sociedade do capitalismo estimula esses indivíduos a terem bens materiais para se sentirem inseridos e aceitos. “Se você não tem celular, rede social, dinheiro, você automaticamente será excluído do grupo social”, afirma Alexandre. 

Não são somente os adultos que desejam produtos excessivamente. As crianças são alvos fáceis da publicidade com comerciais de televisão, vídeos infantis, hábitos estes, que surgiram na era digital.  “As crianças ainda têm o psiquismo em formação e elas não têm a capacidade de julgamento muito forte, então é mais fácil colocar nelas formas de incentivar o consumo”, destacou Alexandre.

As relações acerca dos laços paternais tiveram uma mudança significativa com o advento da tecnologia. O tempo escasso dos pais fez com que grande parte substituísse o medo da rejeição por uma mercadoria.  

Outra forma de estimar o consumo desenfreado são as datas comemorativas, criadas para incentivar a compra de forma inconscientes, independentemente da situação econômica. “Muito se discute que está se perdendo o valor simbólico destas datas comemorativas, porque cada vez mais o capitalismo transforma essas datas em um evento muito especial e as pessoas acreditam que precisam comprar muitas coisas para isto”, afirma o psicanalista Edmilson. “Algumas datas são pra lembrar do que é importante como por exemplo o dia da mulher – lutas -, outras são pra incentivar o consumo, estimular um determinado produto que em outros momentos a maioria não compra: no dia das mães, namorados e finados, o que mais geralmente vende somente nessas épocas são as flores”, completa a estudante Larisse.

O professor Augusto Caramico faz sua análise perante o cenário: “O consumo das famílias é o principal componente do PIB de um país e essas datas ajudam a alavancar as vendas e gerar empregos. Isso é fundamental e deve ser estimulado. O que me preocupa é o excesso de datas criadas pelos comerciantes para alavancar suas vendas, sem que haja uma cultura de consumo consciente”. Para o professor de administração a problemática é, em uma sociedade onde se estimula o capitalismo, não existir educação financeira: “Antigamente o mercado se limitava ao dia das mães, namorados, pais, crianças e natal. De uns anos para cá, a Black Friday está vendendo tanto quanto esses dias, se tornando uma das datas mais importantes para a economia. Virou até Black Week e dura o ano todo! Atualmente, tem dia para tudo: dia da secretária, dia do hambúrguer, dia das bruxas, etc. Essa é uma das causas do endividamento contínuo da sociedade em um país que não investe em educação financeira”, aponta.

O desejo de obter bens de forma irracional está ligado a alienação, termo do marxismo, onde as pessoas não suprem suas necessidades, mas a do outro. “Tem-se uma sociedade que clama pela ostentação, principalmente no Brasil, em que as pessoas compram desenfreadamente e mostram seus automóveis, suas cirurgias, porque elas ficarão mais bonitas, e mostram que elas são muito poderosas. É cada vez mais uma sociedade que exibe a todo momento. É uma sociedade da aparência e muito menos da essência”, analisa Edmilson.

Existem consequências em viver de forma superficial na qual o visual, o externo e o estético acabem ditando as regras. “O número de suicídios é um grande sinal de como, infelizmente, há um grande número de pessoas que não conseguem se configurar com esse padrão de existência que nós vivemos”, afirmou Alexandre. 

Além disso, outra consequência da sociedade do consumo são o grande número de objetos que são descartados. Um levantamento mostra que, em 2016, o Brasil gerou quase 1,5 milhão de toneladas de lixo eletrônico, 36% do total produzido na América Latina. “O produto mais rentável da sociedade dos consumidores é o lixo, porque as coisas consequentemente vão se transformando em lixo, é uma sociedade da obsolescência”, analisa Edmilson.

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