Vaquinha online se torna alternativa para artistas

Em meio à crise econômica, arte e cultura se adaptam às novas formas de consumo

Por Júlia Forbes

Pedir contribuições para viabilizar um projeto não é novidade: a vaquinha sempre foi utilizada por aqueles que não conseguiam bancar sozinhos suas próprias empreitadas. Mas a tecnologia possibilitou multiplicar o alcance dessa forma de financiamento, tornando-se uma nova forma de captar recursos para as mais diferentes áreas. São diversas plataformas online de financiamento coletivo crescendo no Brasil e no mundo, que passam a ser uma alternativa para artistas independentes que não teriam como realizar seus projetos de outra forma.

Entre os muitos sites do gênero no país, o Catarse foi o pioneiro e ainda hoje é a maior plataforma de financiamento coletivo no país. São mais de 10 mil projetos financiados, ultrapassando os R$100 milhões de arrecadação. A empresa nasceu em 2011, após seus fundadores observarem o crescimento de iniciativas do tipo nos Estados Unidos. Segundo seu manifesto de fundação, a ideia “nasce da dor de ver gente brilhante com projetos engavetados”.

O site recebe todo tipo de iniciativa, que pode ser inscrita em duas modalidades diferentes: a campanha tudo-ou-nada e a flexível. Na primeira, o usuário recebe os recursos apenas se atingir ou ultrapassar a meta até a data limite estipulada no momento da inscrição. Caso contrário, os apoiadores recebem sua contribuição de volta. Já na campanha flexível, o autor do projeto recebe o dinheiro mesmo sem atingir a meta. Em ambos os casos, o site retém 13% do arrecadado – sendo que 4% ficam com o Pagar.me, parceiro de pagamento da empresa, e 9% são repassados ao Catarse.

Navegando pela plataforma, é possível encontrar todo tipo de empreitada, principalmente livros e jogos. Segundo a pesquisa “Retrato do Financiamento Coletivo”, realizada pela empresa em 2013, a maioria dos projetos da plataforma são de arte e produção cultural, áreas que os apoiadores têm mais interesse em financiar.

O escritor Ian Fraser, que está financiando seu terceiro livro pelo Catarse.

Esse tipo de dado foi que levou o escritor baiano Ian Fraser a escolher, em 2017, o Catarse para a sua primeira campanha de financiamento coletivo. O objetivo era lançar o primeiro livro de sua saga de fantasia “Araruama”, baseada na cultura indígena da América Latina. A ideia surgiu com um primo, que financiou um projeto nos Estados Unidos através da plataforma Kickstarter. “Eu vi e pensei em fazer uma campanha minha e foi o jeito que eu vi de chegar em mais pessoas diferentes”, relembra o autor. 

Ian já havia sido publicado anteriormente, mas encontrou no Catarse uma maneira de alcançar um público ainda maior. O primeiro livro da série, “Livro das Sementes”, foi inscrito na modalidade tudo-ou-nada e atingiu 216% da meta inicial, de R$ 17 mil. Foram 642 apoiadores e mais de R$ 36 mil arrecadados. O trabalho de divulgação foi intenso, o que Ian indica como central para o sucesso do projeto. “Divulguei com alguns dos maiores booktubers brasileiros”, conta.

Michel Freller, empreendedor social e mestre em administração pela PUC-SP, com aperfeiçoamento em gestão, formatação de projetos e captação de recursos, acredita que esse é um fator fundamental para artistas que apostam no financiamento coletivo. “O sucesso vai depender do tamanho da sua rede, do tamanho da divulgação que você consegue fazer”, afirma. “No caso de um artista independente ter o apoio de um artista famoso pode ser determinante.” O engajamento da rede de apoio é fundamental para que uma campanha tenha êxito.

É nesse contexto que entram as recompensas, um elemento importante para qualquer campanha da plataforma. Elas são uma maneira de engajar os apoiadores com o projeto, oferecendo diferentes produtos ou formas de agradecimento criativas que variam de acordo com o valor do apoio. No caso de “Araruama”, as recompensas foram distribuídos em 12 tipos. O valor mais baixo de contribuição era de R$ 15 e garantiu aos 66 que fizeram essa opção o recebimento do e-book do livro. Já a pessoa que contribuiu com R$ 2.500 ou mais recebeu 14 itens relacionados ao universo da série, incluindo dez cópias impressas do livro, brindes, um artbook e uma estátua exclusiva de um personagem da série. A maioria dos apoiadores escolheu a opção “R$ 35 ou mais”, garantindo o livro físico, o e-book e um marcador de páginas ao fim da campanha.

O sucesso obtido por Ian com o primeiro livro de “Araruama” se repetiu em 2018, quando lançou o segundo livro da saga, “Livro das Raízes”, através de outra campanha no Catarse. A meta inicial era maior: R$ 25 mil. Mas o alcance também excedeu as expectativas, passando os 980 apoiadores e arrecadando um total de R$ 63.931. Ian ofereceu 21 faixas de apoio, chegando a oferecer um minicurso sobre “Worldbuilding & A Jornada do Herói” como recompensa para determinadas categorias. 

Freller afirma que as recompensas fazem parte do produto que um apoiador compra ao participar de uma campanha. “O financiamento coletivo nada mais é do que uma venda antecipada de um produto cultural”, diz. Ele insere o financiamento coletivo dentro de uma tendência de mercado. “A sociedade está mudando a forma de consumir coisas, pagando antes por aplicativo, e a cultura segue a mesma tendência da comida e do transporte.”

Contudo, nem todo financiamento de projetos culturais vem diretamente da esfera privada. Freller afirma que a maior parte do dinheiro investido na área é privado, mas uma parcela importante vem dos cofres públicos. Mesmo com a crise econômica no país e o fim do Ministério da Cultura, ele afirma que o valor total investido não caiu. “Estamos falando de R$ 1,2 bilhão por ano de incentivo federal à cultura e mais R$ 1 bilhão em cada estado”, calcula.

Apesar de o montante de dinheiro na área continuar o mesmo a nível federal, o valor muitas vezes não é suficiente para os artistas beneficiados. É nesse contexto que o curta-metragem “PeriferiCÚ” buscou a plataforma Catarse em abril deste ano, em uma campanha na modalidade flexível encerrada no último dia 4. A meta de R$ 10 mil não foi atingida, mas a produção conseguiu arrecadar R$ 7 mil. O filme fala sobre a vivência de ser negra, LGBT e mulher na periferia de São Paulo. Sua divulgação afirma que busca romper com barreiras que mantêm o cinema brasileiro como um espaço majoritariamente branco, heteronormativo e elitista.

Equipe do filme “PeriferiCÚ” nas filmagens do curta, que só poderá ser finalizado graças ao financiamento coletivo online.

Wellington Amorim, produtor executivo, conta que o projeto foi contemplado pelo Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) da Prefeitura de São Paulo, que existe desde 2003 e é voltado para o financiamento de projetos da periferia da cidade. “Com este edital, a gente ganhou R$ 40 mil para realizar o filme”, recorda. Mas esse valor foi pouco: apenas o equipamento necessário para as filmagens custaria quase o total da verba disponível. A alternativa foi complementar o orçamento através do financiamento coletivo. ”A gente gravou o filme com esse dinheiro e escolheu o crowdfunding para conseguir finalizar”, conta. 

Sem essa opção, os produtores teriam de contar com a dedicação das pessoas em realizar o filme sem verba, o que na prática já acontece em muitos casos. “Outra possibilidade seria a gente fazer um rateio entre as pessoas da própria equipe para conseguir financiar de alguma forma esse cachê simbólico das pessoas”, observa Wellington. Questões como a finalização do filme no formato adequado para o envio do curta a festivais também teriam sido pagos da mesma forma.

É nesse contexto que a crise econômica do país se faz mais presente. Wellington reconhece que o investimento em projetos culturais das periferias sempre foi baixo, tanto via editais quanto por empresas privadas. Então a mudança acaba ocorrendo dentro das possibilidades dos próprios produtores de cultura. “Isto acontece muito quando você desenvolve projetos autorais: não tem dinheiro de onde tirar, então, como a gente acredita muito no projeto, a gente acaba fazendo um rateio entre as pessoas da equipe [para viabilizar]”, conta. “Num momento de crise como esse, em que está cada dia mais difícil sobreviver, conseguir o arroz e feijão pra casa, fica complicado a gente tirar esse dinheiro de casa pra investir num projeto autoral.”

Por isso, é preciso compreender o financiamento coletivo dentro de um contexto da abertura de novas possibilidades para garantir uma remuneração aos profissionais da área. “É mais uma [forma de captar recursos], não é para mudar”, afirma Freller. “Não está saindo daqui e indo para lá, não é uma mudança. São mais alternativas”.

Conheça mais sobre os projetos de Ian Fraser e sobre o curta-metragem “PeriferiCÚ”.

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